Livro ‘Monções, de Sérgio Buarque de Holanda,’ é reeditado com textos inéditos

A historiadora Laura de Mello e Souza e André Cerqueira que organizaram a reedição de um livro de Sergio Buarque de Holanda.   Lalo de Almeida/ Folhapress
A historiadora Laura de Mello e Souza e André Cerqueira que organizaram a reedição de um livro de Sergio Buarque de Holanda. Lalo de Almeida/ Folhapress

Sylvia Colombo, na Folha de S.Paulo

 

Quando era estudante de história na Universidade de São Paulo, nos anos 70, Laura de Mello e Souza intrigava-se com o fato de o já então renomado e veterano professor Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) andar com pequenos pedaços de papel rabiscados e amassados no bolso.

Quando lhe perguntava em que andava trabalhando, ele respondia: “Estou reescrevendo ‘Monções'”.

O texto, de 1945, conta a história da expansão paulista por meio de expedições fluviais, durante o período colonial.

“Me impressionava por um lado o fato de alguém de idade avançada ainda estar se dedicando a pesquisas de longo prazo. Por outro, que se preocupasse em reescrever um livro que já havia sido lançado havia 30 anos e era considerado canônico”, conta a historiadora em entrevista à Folha.

ATENÇÃO CONCENTRADA

Reeditado agora pela Companhia das Letras, “Monções” foi um dos trabalhos que mais concentraram a atenção do autor de “Raízes do Brasil” (1936) e “Visão do Paraíso” (1959).

Nas quatro décadas que viveu depois de seu primeiro lançamento, Holanda refez viagens, visitou novos arquivos e acumulou mais documentos sobre o tema. Tratamento que não deu a nenhum de seus outros livros.

“A partir de um certo momento, a documentação relativa a ‘Monções’ cresceu tanto que ele pensou em transformar tudo num novo e mais completo livro. Mas não deu tempo”, diz Mello e Souza.

O escritor Sérgio Buarque de Holanda durante entrevista
O escritor Sérgio Buarque de Holanda durante entrevista. Ivanaldo/Folhapress

Em 1976, quando realizou-se a segunda edição da obra, Holanda preferiu manter o texto original, porque ainda considerava necessárias mais investigações.

Já a terceira edição, de 1990, após sua morte, manteve o texto original, mas publicou também como anexo três capítulos que tinham sido reescritos.

Agora, em parceria com o orientando André Sekkel Cerqueira, Mello e Souza preferiu deixar “Monções” como em sua primeira versão, mas fazendo com que fosse acompanhado de outro volume.

PACOTE

O lançamento inclui o livro “Capítulos de Expansão Paulista”, no qual constam os trechos reescritos mais escritos inéditos encontrados no arquivo do autor.

Entre os novos documentos levantados pela dupla, está o pedido de auxílio que Holanda fez à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), em 1965, justificando por que precisava de subsídios para a reedição de “Monções”.

Ele dizia que seu estudo tentaria “esclarecer em alguns de seus aspectos mais significativos a formação da unidade nacional através da ligação das bacias do Prata e do Amazonas”.

“Monções” é hoje considerado um divisor de águas na obra de Holanda. Nele, o autor combina seu talento já conhecido para análises de grande escopo com uma pesquisa documental de primeira mão e muito minuciosa.

Se por um lado detém-se, por exemplo, em explicar o passo a passo da construção de balsas e jangadas usadas pelos primeiros desbravadores da região, também reconstrói com riqueza literária a solidão e a valentia dos sertanistas que venciam rios e cachoeiras “levando água pelo peito”.

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