Best-seller que trata da Segunda Guerra Mundial é eleito revelação de ficção de 2014

Best-seller que trata da Segunda Guerra Mundial é eleito revelação de ficção de 2014
Foto: Todd Meier / The New York Times

Livro sobre uma garota francesa cega e um menino alemão surpreende e vira mania

Alexandra Alter, no Zero Hora

Anthony Doerr pode citar as várias razões por que seu romance, “All the Light We Cannot See” não teria conseguido agradar o grande público: além de se passar na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, o protagonista é um jovem nazista simpático e traz passagens complexas descrevendo a tecnologia do rádio e ligações de carbono. Entretanto, não consegue explicar como seu livro fez um sucesso arrasador.

– Nunca me passou pela cabeça que seria um livro mais comercial. Acho meio perigoso ficar questionando a razão – ressaltou.

Em um ano lotado de romances lucrativos de pesos-pesados como David Mitchell e Marilynne Robinson, o livro de Doerr surgiu como o best-seller revelação de ficção de 2014. O público se identificou com a história da garota cega que se une à resistência contra a ocupação alemã e do jovem soldado alemão com talento para rastrear sinais de rádio, pegando todo mundo, inclusive o autor e sua editora, de surpresa. A Scribner, que imprimiu 60 mil cópias quando o livro foi publicado, em maio, teve que repetir a operação 25 vezes e agora tem 920 mil disponíveis.

– As vendas não só continuaram como aumentaram com o tempo, o que é bem raro. A grande maioria dos títulos cai da lista de best-sellers depois de quatro meses, e é um verdadeiro milagre se durar tudo isso – diz Carolyn Reidy, CEO da Simon & Schuster, da qual faz parte a Scribner.

O livro esgotou no Amazon às vésperas do Natal; muitas livrarias independentes também ficaram sem estoque no auge da temporada.

– O público está desesperado atrás dele. Meu estoque se esgotou e tive que fazer vários pedidos nas últimas semanas – afirma Mark LaFramboise, comprador da Politics & Prose, em Washington.

Ed Conklin, comprador da livraria Chaucer’s de Santa Barbara, na Califórnia, comprou pouco mais de cem cópias e confessou ter ficado com medo de ter feito um pedido muito grande. Mas acabou vendo o estoque esgotar e teve que repetir o pedido uma semana depois.

– Ele basicamente virou o ‘O Pintassilgo’ deste ano – comenta, referindo-se ao fenômeno de vendas de Donna Tartt.

Na Barnes & Noble, as vendas cresceram em dezembro. Fato surpreendente para um título de ficção literária que já tinha sido lançado há mais de oito meses, constata Sessalee Hensley, a compradora de ficção da cadeia.

– Esse tipo de movimento geralmente só acontece com os Grishams e Pattersons da vida – finaliza.

O romance vendeu bem o ano todo, mas o volume triplicou uma semana antes do anúncio dos vencedores do National Book Award, em 19 de novembro, embora Doerr tenha perdido para Phil Klay e sua seleção de contos, “Redeployment”. Na cerimônia, Nan Graham, vice-presidente e editora da Scribner, garantiu ao escritor que a perda alavancaria as vendas.

– Eu lhe disse que, a partir dali, todas as livrarias o venderiam como ‘o romance que deveria ter ganhado o National Book Award’. Dito e feito, ele vendeu mais por ter perdido – conta ela.

Vários fatores parecem ter contribuído para o fenômeno: a Scribner fez uma campanha à moda antiga para conquistar as livrarias independentes meses antes do lançamento; em janeiro, levou Doerr para conhecer os donos no Winter Institute, o encontro anual da categoria. E o entusiasmo com o romance foi tão grande que fez o vice-presidente executivo de vendas e marketing da Simon & Schuster falar coisas como: “Ninguém que lê esse livro não gosta dele”.

Ao ser lançada em maio, a obra foi bem recebida pela crítica e chegou à lista dos mais vendidos semanas depois, onde permaneceu durante 33 semanas. Mais recentemente, viu as vendas subirem de novo ao se tornar uma opção popular nas listas de melhores do ano dos críticos, emplacando em cerca de 20 delas, incluindo a do New York Times Books Review.

Talvez ninguém mais que o próprio Doerr (que mora em Boise, Idaho, com a mulher, Shauna Eastman, e os gêmeos de dez meses) esteja surpreso com tamanho sucesso.

– É um livro que inclui equações trigonométricas e é superdenso. Eu sabia que o meu público alvo ia gostar, mas nem sonhava que a tia Maria também fosse ler – revelou.

Não é como se Doerr, 41 anos, venha trabalhando na obscuridade; seus quatro livros anteriores receberam críticas amplamente positivas e ele já faturou vinte prêmios literários e menções honrosas.

Na verdade, ele começou a escrever aos oito anos. Criado em Cleveland, Ohio, gostava de brincar com a máquina de escrever da mãe, criando histórias sobre seus Legos e piratas Playmobil. Fez História no Bowdoin College e passou a fazer bicos para se manter enquanto escrevia, trabalhando de cozinheiro no Colorado e ajudante em uma fazenda de carneiros na Nova Zelândia.

Fez mestrado em Narrativa Ficcional na Universidade Estadual Bowling Green, em Ohio e escrever alguns contos que apareceram em “The Shell Collector” (2002), que a Scribner comprou por US$15 mil.

Embora tenha conquistado fãs fiéis, Doerr tinha dificuldade em se manter só com a escrita. Durante a década que passou pesquisando e escrevendo “All the Light We Cannot See”, teve que dar aulas de Redação na Universidade Estadual de Boise e outros programas, escreveu artigos para revistas de viagem e ciências e publicou mais dois livros, também através da Scribner, um de memórias sobre a vida em Roma e uma nova coletânea de crônicas, que juntos venderam cerca de 70 mil cópias.

As tramas da narrativa do novo romance levaram anos para serem construídas. E Doerr começou tudo com uma cena simples, a de um garoto preso que ouve uma garota lhe contando uma história no rádio. A partir daí, desenvolve os personagens: Werner, órfão alemão que é engolido pelo movimento nazista, e Marie-Laure, uma garota francesa cega que foge de Paris com o pai, chaveiro de um museu que está escondendo um diamante dos saqueadores nazistas. Doerr estudou diários e cartas escritos durante a guerra, além de viajar para a Alemanha, Paris e St.-Malo, cidade da Bretanha onde se passa grande parte da história.

E ela se apresenta em capítulos curtos, alternando a perspectiva dos personagens. Desenvolver as histórias paralelas foi complicado, mas encheu o enredo de suspense, tornando impossível deixar o livro de lado.

– Tinha horas em que eu pensava: ‘Por que estou sendo tão ambicioso, por que não posso contar uma história só?’ – conta Doerr. E diz que se sentiu livre para experimentar porque achava que estava escrevendo para um público limitado, o da ficção literária. É bem provável que seja bem mais complicado administrar esses impulsos na próxima obra, principalmente sob o peso da expectativa que o sucesso traz.

Atualmente, ele está contemplando três ideias para seu novo trabalho: uma que se passa durante o cerco a Constantinopla em 1453; a outra que descreve a construção do Canal do Panamá e a terceira, em uma espaçonave com destino a um planeta habitável tão distante que a única forma de alcançá-lo é através de uma viagem que dura várias gerações.

– Você tem que alimentá-las como se fossem plantas para ver qual delas recebe mais luz e floresce – explica ele.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *