Livro investiga impacto da ditadura militar nas artes visuais do Brasil

Publicado em ZH Entretenimento

Além de analisar viés político dos artistas Antonio Manuel, Artur Barrio e Cildo Meireles, pesquisadora Claudia Calirman narra o boicote internacional à Bienal de São Paulo de 1969

"Guevara, Vivo ou Morto" (1967), de Claudio Tozzi, levou ao cancelamento o 4º Salão de Arte Moderna de Brasília, a primeira mostra censurada pela ditadura Foto: Reprodução / Reprodução
“Guevara, Vivo ou Morto” (1967), de Claudio Tozzi, levou ao cancelamento o 4º Salão de Arte Moderna de Brasília, a primeira mostra censurada pela ditadura
Foto: Reprodução / Reprodução

A prática da censura pela ditadura militar, instituída em 1968 com o AI-5, amordaçou e prendeu em uma camisa de força a produção intelectual e artística do país. Como reação ao autoritarismo, à supressão das liberdades individuais e às notícias de prisões, torturas e desaparecimentos, alguns artistas visuais tomaram posição e se arriscaram a criar obras de crítica e resistência. E o fizeram com estratégias como performances e intervenções que deixavam poucos rastros, despistando os censores.

Essas ações, inovadoras para a arte contemporânea brasileira e que hoje jogam luz sobre o turbulento período, tinham o mesmo espírito das táticas de guerrilha urbana, nas palavras de Claudia Calirman, autora de Arte Brasileira na Ditadura Militar. Publicado em inglês nos Estados Unidos pela Duke University Press e eleito livro do ano de 2013 pela Associação de Arte Latino-Americana dos EUA, o volume ganha edição brasileira pela editora Réptil.

A obra é resultado da tese de doutorado da autora em História da Arte pela The City University de Nova York. Jornalista e historiadora carioca que vive há 25 anos nos EUA, Claudia analisa a forma como as artes visuais responderam ao cerceamento da censura. A ditadura no Brasil é apresentada em notável esforço de contextualizá-la ao leitor estrangeiro, com entrevistas e ampla documentação – muito desse material é inédito – que revisitam o período detalhando uma série de arbitrariedades, entre elas o cancelamento do 4º Salão de Arte Moderna de Brasília, em 1967, e o fechamento da 2ª Bienal da Bahia, em 1969 (leia mais abaixo).

– A censura das artes era difusa e imprevisível, o que gerou um ambiente de autocensura pelos artistas. Como não há uma compilação definitiva de todas as exposições que foram alvo, é difícil quantificar. Mas, a cada mostra ou evento fechado e cancelado, dezenas de artistas eram atingidos de uma só vez – argumenta Claudia, em entrevista a ZH.

Um dos destaques do livro é o detalhamento do movimento que resultou no boicote à 10ª Bienal de São Paulo, em 1969. Ao percorrer arquivos de jornais e instituições dos EUA e da França e garimpar documentos pessoais de críticos e curadores, Claudia dimensiona o impacto gerado no Exterior ao narrar a adesão de centenas de artistas e intelectuais estrangeiros que se solidarizaram contra a ditadura. A pesquisa da autora mostra que a imprensa internacional (The New York Times e Le Monde, entre os jornais) fez uma cobertura do episódio bem mais ampla do que a brasileira, então silenciada.

Os demais capítulos são dedicados a três artistas que a pesquisadora considera paradigmáticos da época e que hoje seguem produzindo como nomes referenciais da arte brasileira: Antonio Manuel, Artur Barrio e Cildo Meireles. O tom crítico de suas propostas, as estratégias de atuação e as inovações que apresentaram são analisados em diálogo com as tendências internacionais dos anos 1960 e 70.

– Esses artistas trataram da questão política ao mesmo tempo em que desenvolveram novas linguagens. Eles não só se opuseram à situação política, como também tentaram reconfigurar o papel dos espectadores, questionaram o mercado de arte, descartaram obras comerciais e desafiaram o poder e a legitimidade das instituições de arte – diz a autora.

Arte Brasileira na Ditadura Militar
De Claudia Calirman
Réptil, 240 páginas, tradução de Dmitry Gomes e Victor Heringer, R$ 60
Cotação: 4 de 5

Algumas exposições e eventos que lidaram com a censura

4º Salão de Arte Moderna de Brasília
Dezembro de 1967

Primeira mostra censurada pela ditadura. Agentes do regime ameaçaram fechar o evento por causa da obra Guevara, Vivo ou Morto (1967), de Claudio Tozzi, que trazia imagens do líder revolucionário. Para evitar consequências, os organizadores cancelaram a exposição.

2ª Bienal da Bahia
Dezembro de 1968, em Salvador

A mostra foi uma das primeiras vítimas do AI-5. No dia seguinte à noite de abertura, a exposição foi fechada por decreto militar sob alegação de apresentar obras de conteúdo erótico e subversivo. Dez obras foram apreendidas, e os organizadores, presos.

Pré-Bienal de Paris
Maio de 1969, no Museu de Arte Moderna do Rio

De 160 obras inscritas, 12 representariam o Brasil no evento na França, mas a mostra foi fechada pela polícia antes de ser inaugurada. O motivo foram duas obras: uma fotografia de Evandro Teixeira de 1965 que mostrava a queda de um motociclista da Força Aérea Brasileira e a obra Repressão Outra Vez – Eis o Saldo (1968), de Antonio Manuel, na qual grandes cortinas negras encobriam imagens de páginas de jornais com manchetes sobre violência da polícia contra estudantes.

10ª Bienal de São Paulo
Setembro a dezembro de 1969

A pré-Bienal de Paris foi o estopim para um movimento internacional de boicote à Bienal de SP. O manifesto Non à la Biennale foi lido em Paris e teve adesão das assinaturas de centenas de artistas e intelectuais que condenavam a realização da mostra em um país sob ditadura e censura. Além da França, cancelaram participações as delegações de EUA, Holanda, Suécia, Grécia, Bélgica, Itália, México e Espanha.

19º Salão Nacional de Arte Moderna
Maio de 1970, no Museu de Arte Moderna do Rio

Recusado na seleção por uma obra que consistia no próprio corpo, Antonio Manuel foi à abertura e fez uma performance provocadora em que ficou nu. O ocorrido ganhou os jornais, e o museu foi interditado.

Do Corpo à Terra
Abril de 1970, em Belo Horizonte

Artistas fizeram nas ruas alguns dos trabalhos mais contundentes do período, tendo de deixar a cidade. Em um arroio, Artur Barrio espalhou trouxas ensanguentadas que sugeriam a desova de cadáveres de mortos pela ditadura. E Cildo Meireles apresentou Tiradentes: Totem-Monumento ao Preso Político, em que fixou uma estaca, amarrou nela galinhas, jogou gasolina e ateou fogo.

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