Drácula, de Bram Stoker

Douglas Pereira, no Cafeína Literária

Hoje, meu filho de seis anos pegou meu aparelho de barbear e fingiu que o usava. Assim como ele, nesta mesma idade, eu também me via ansioso para ter barba e poder fazê-la. É o tipo de coisa que ansiamos na vida e que, depois que descobrimos como verdadeiramente é, ocorre uma decepçãozinha. A barba começa na adolescência, quando estamos com a cara cheia de espinhas, tornando um castigo ter de fazê-la. O que é uma sacanagenzinha da mãe natureza. No meu caso, em que a barba é relativamente desalinhada, com fios que crescem em sentidos diferentes e com a pele irritadiça, é até hoje um pouquinho incômodo ter de fazer.

A vida é cheia de pequenas decepções desse tipo. Quem é humano sabe. Às vezes, ídolos de infância se tornam repugnantes e até mesmo já adultos há experiências com as quais sonhamos que, ao se realizarem, olhamos meio embaraçados e pensamos… “mas era só isso?”. Porém, nada de drama. Este não é um texto depressivo do tipo desabafo. Meu ponto é outro. Essas coisas fazem parte do nosso amadurecimento.

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Quando Bram Stoker publicou Dracula em 1897, já tinha uma série de outras publicações pouco expressivas e uma proeminente carreira como administrador do Royal Lyceum Theatre em Londres. Portanto, suponho que não era esperado o sucesso estrondoso a ponto de tornar-se obra referência para a mitologia do vampiro.

Embora pareça desnecessário dizer do que se trata a história, pois o livro é um dos mais conhecidos do mundo, creio que seja conveniente comentar que a história original é bem discrepante do que se tornaram hoje em dia os paradigmas vampirescos. Isto é: a lenda proposta por Stoker é bastante diferente do que vemos hoje em dia sobre o tema. Por isso, segue uma micro-sinopse do que fala o livro:

Escrito em modo de narrativa epistolar (onde tudo é contado através de cartas, diários, recortes de jornal, etc), a história se desenvolve a partir de diversos pontos de vista. Cada personagem conta a seu modo o que se está desenrolando. O protagonista, presume-se, é Jonathan Harker, que vai ao castelo de Conde Dracula, na Transilvânia, para tratar dos interesses do velho na compra de um imóvel nos arredores de Londres. Uma série de coisas estranhas começam a acontecer por lá e o jovem se torna refém do Conde. Até que Jonathan consegue fugir. O problema começa realmente quando o vampirão chega a Londres e alicia Lucy, uma amiga de Mina, que por acaso é noiva de Jonathan.

Agora vem o vínculo com a introdução: fiquei ligeiramente decepcionado com alguns aspectos do livro. Tratando-se de um clássico secular, esperava ficar embasbacado com o que iria encontrar, quando na verdade apenas observei com cara de interrogação e com aquele gosto na boca de “Mas… era só isso?”. Portanto, claro, fico me sentindo um ignorante, pois acredito que não tive capacidade intelectual para absorver a obra como deveria.

Apesar dos diferentes personagens narrando a história, me parece que o autor explorou pouco as diferenças entre cada um. Além das coisas óbvias como suas profissões (entre corretores de imóveis, médicos, nobres, burgueses, etc), creio que se fossem retirados os enunciados das cartas e diários, dir-se-ia que tudo fora escrito por um único narrador. Além disso, este estilo de narrativa leva o escritor a fazer alguns malabarismos esquisitos: nas cenas de ação, por exemplo, como acreditar que, no instante em que estão fugindo de lobos assassinos, o personagem deu uma paradinha para atualizar seu diário? Nem que fosse o Caco Barcellos, fazendo reportagem no Oriente Médio…

dracula-gary-oldmanO personagem sedutor e dramático tal como Drácula é representado nos dias de hoje passa longe do velho esquisito representado no livro. Aqui ele está obviamente posicionado com o lado mau, cruel e sádico, numa premissa absolutamente maniqueísta, sem margem a questionamentos em relação a seus motivos e objetivos particulares. O tempo inteiro fiz mentalmente uma analogia com o conto da Chapeuzinho Vermelho: o lobo mau que come a vovó para depois pegar a menininha que, por fim, é salva pelo caçador.

Com base na pesquisa que fiz de sua biografia, apesar não muito profunda, pode-se ter um vislumbre das motivações para sua história. Proveniente de uma família ferrenhamente cristã, entende-se o porquê de haver a mão oculta de Deus, através de inúmeras referências, auxiliando os heróis a vencerem o vilão. É o poder divino vencendo o diabo.

Apesar de ter feito uma extensa pesquisa sobre a mitologia do vampiro, o autor não chegou a mostrar muitos detalhes de onde e como tudo começou. Isso não é algo que atrapalhe. Até corrobora para o mistério da trama. Porém, o personagem de Van Helsing (o mentor que vem para ajudar a caçar o monstro) denota um extenso e inexplicável conhecimento sobre o assunto que em alguns pontos fica difícil de engolir. Quase um “deus-ex-machina”.
(Um parênteses: em O senhor dos anéis, o personagem de Gandalf passa anos pesquisando a história do Um Anel antes de vir ajudar Frodo a destruí-lo. Funciona bem melhor quando se precisa explicar alguma coisa da história ao leitor).

Também penso que muito poderia ter sido aproveitado da história de Vlad III, o verdadeiro Conde Drácula. Visto que alguém que foi conhecido como “O Empalador” deve ter inúmeras crônicas reais (!) de arrepiar os cabelos.

O filme de Copolla (Bram Stoker’s Dracula, de 1992) conta a mesma história, porém de forma bem mais amadurecida e tapa muito bem esses buracos. A obsessão por Mina (no filme) dá ao Conde um objetivo mais tangível e uma profundidade dramática, fazendo o espectador se afeiçoar ao personagem. No livro, ele só quer espalhar o mau e comer as menininhas da vizinhança (comer no sentido literal). O que me faz pensar que, no fundo, quem mitificou Drácula e o consagrou como lenda foi o cinema, começando com o filme de 1931, com o ator Béla Lugosi e não o livro em si.
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Decepções à parte, a novela gótica cumpre sua missão de entretenimento. Explora o oculto de forma quase subjetiva, sem exageros, criando a atmosfera de suspense. Possivelmente foi um grande frisson para a época. Mas se fosse lançado nos dias de hoje em dia possivelmente venderia menos que a saga Crepúsculo.

★★★★★

P.S.: Leia também a resenha escrita pela Cris.

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