Nélida Piñon. “A minha grande inocência é ter paixão pela vida”

Nélida Piñon

Autora premiada, vulto da literatura em português, a autora passou por Lisboa e falou com Ana Tomás sobre a paixão pela língua e pela escrita. José Fernandes fotografou

Ana Tomás, no IOnline

Em 2005, Nélida Piñon torna-se o primeiro, e até agora único, escritor em língua portuguesa a ganhar o Prémio Príncipe das Astúrias. Escreve–se no masculino porque, apesar da condição feminina da autora, a distinção surge num contexto que não tem género, ou pelo menos não deve ter, mas onde, paradoxalmente, a tradição linguística impõe essa opção para se designar um universo que se pretende abrangente e desprovido de diferenças. Escreve-se no masculino no ano em que o prémio passa a chamar-se Princesa das Astúrias, adaptando-se aos novos tempos da monarquia espanhola. As metamorfoses são também uma constante da obra e da vida de Nélida Piñon, que viu reeditado, no final de 2014, o seu aclamado romance “A República dos Sonhos”, mote de uma conversa em que se fala de literatura, olhares, universos, e da grande motivação que é a vida.

O seu livro “A República dos Sonhos” foi reeditado em Portugal no final do ano passado, mas a primeira edição é de 1984. O que sente quando olha para essa obra e essa época?

São 30 anos! Há pouco tempo saiu a minha fotobiografia, intitulada “Tenho Apetite de Almas”, uma frase que se encontra no meu primeiro romance, “Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo”. Esse livro me deu uma sensação muito estranha, porque eu sou alguém que vai olhando para a frente, que está na hora, muito ocupada. E me dei conta que tive até hoje uma vida múltipla, como se tivesse vivido muitas vidas. Nos últimos dias resolvi organizar pastas só de originais e fiquei horrorizada. Não é impressionada, é horrorizada com a minha produção, com o meu trabalho, como eu vivo intensamente, como viajo. Estava pensando que se a vida de uma pessoa fosse interrompida nos 40, 50 ou 60 anos, a melhor parte da sua vida não teria sido vivida, porque, de certo modo, eu sinto que estou formada, hoje, de uma forma que não estaria há dez anos. Eu progredi como pessoa, como pensamento. Ninguém pode cessar o ímpeto da metamorfose. A vida acaba quando acaba, ou quando você deixa que ela acabe em vida. Respondendo à sua pergunta, eu vejo um “work in progress”, porque hoje eu penso em coisas que não pensaria há alguns anos atrás. Portanto tenho de ser agradecida aos degraus que fui galgando ao longo dos anos para pensar um pouco melhor.

Pegando nessa metamorfose e levando-a para um campo mais social, na altura em que o livro foi lançado muitos que o analisavam falavam de que continha temáticas feministas, mas, ao que sei, nunca se reviu completamente nesses rótulos.

Nos livros não. Eu sou uma feminista, sem dúvida, mas não se vê isso no romance. O que se vê no “A República dos Sonhos” é um apanhado do comportamento humano, e portanto eu preservo os preconceitos. Tive a coragem de preservar os preconceitos. A personagem do Madruga diz sobre a filha Esperança “que pena que você não é um homem”. Ela era a melhor de todos no conceito dele, mas era mulher. Isso era a realidade. Ele vai conciliar-se com a filha, que morreu, através da neta Breta . Ele vai entender a evolução do comportamento da Breta, que já é uma mulher contemporânea. Mas não é uma visão feminista, é uma visão social. Eu acho que sou uma das autoras sobra a qual mais dizem que faz personagens masculinas redondas. O Madruga é um ser em si pungente. Há figuras masculinas poderosas, como há figuras femininas poderosas. A Eulália é a última figura de uma estirpe de mulheres que eu criei em algumas narrativas, mulheres distraídas.

E como são essas mulheres?

A mulher distraída tem uma rebeldia embutida. É distraída porque se abstrai da realidade que tem um cunho e uma marca masculina. Essa personagem tem uma maneira muito original de regenciar a realidade. E quem é o autoritário, quem manda, perde o poder porque ela não escuta.

Considera, apesar disso, que há uma literatura feminina?

Eu não gosto disso. Nem pensar. Não acredito nisso. Porque não existe uma literatura masculina, existe? Se houvesse uma literatura masculina e literatura feminina… Acho que o autor teria ou deveria ter a capacidade de entrar em todos os corpos: homem, mulher, criança. Ele tem de ser proteico, ele é tudo o que se move ou que não se move, para poder entender minimamente a essência do que está no planeta.

Porque é que acha que se faz essa diferenciação?

É uma maneira de reduzir a importância da literatura com assinatura de mulher. Se você diz “é de mulher” já não lê, porque os padrões e os paradigmas estéticos foram, aparentemente, estabelecidos pelos homens que tiveram acesso ao saber e à cultura. Quando eu ganhei o Prémio Juan Rulfo [em 1995], que na época era chamado o Nobel da América Latina, eu disse isso também, que os homens, Cervantes, Shakespeare, deviam pagar direitos autorais às mulheres porque apropriaram-se de conhecimentos que as mulheres lhes passaram. Elas é que disseram a Cervantes como é que era morrer, por exemplo, porque a mulher é que estava próxima dos moribundos, era uma função “de mulher”, a mulher é que conheceu o amor mais modesto, o amor pela criança, a mulher é que limpava as crianças, e os velhos também. A mulher tinha um saber de que o homem se apropriou, porque ela o traduziu para ele.

Mas, por essa razão, os mundos ou realidades das outras mulheres não estão mais ao alcance das escritoras do que dos escritores?

Também não acho isso. Acho que o talento e o empenho narrativo, essa sensibilidade, é um privilégio de homens e mulheres, desde que tenham isso e o saibam desenvolver e renunciem à arrogância do ego. Com essas características chega–se onde se pode e se quer chegar. As grandes verdades e atributos narrativos podem vir de homens e mulheres de talento. Há um espaço vazio que é preenchido por quem vai ter a coragem de criar e de corresponder às exigências estéticas.

Podemos então dizer que, na sua obra, têm para si igual importância as personagens masculinas e femininas?

Sim, tudo isso é verdade, mas agora vou dizer uma outra coisa [risos]. Eu acho que a mulher pode acrescentar mais alguma coisa que o homem terá de ser extraordinariamente específico para tratar. Ela foi uma mirada ofendida, humilhada ao longo dos séculos, ela é aquela mirada que se escondia num cantinho da sala e dali observava a sala inteira, cujo epicentro não podia frequentar. Isso lhe dá talvez, se ela souber explorar, um elemento a mais. Machado de Assis, mulato, grande, extraordinário escritor brasileiro – para mim, é o grande mestre e o primeiro grande escritor das Américas urbanas, um génio que o Brasil teve – em que medida o facto de ser mestiço lhe deu essa sensibilidade do ofendido, a sensibilidade narrativa do humilhado? Isso pode também ser atribuído à mulher. Mas aquele homem que tem todos os atributos sociais é branco, educado, louro, tem a estética do poder, se tiver uma sensibilidade extraordinária vai chegar a tudo isso. A literatura circula por um campo minado, vai depender do talento para evitar as bombas ou fazer as bombas explodirem em benefício do grande caos da narrativa.

Disse em tempos que tinha de subverter a sintaxe bem comportada. Falando em subversão, atravessou, e a sua obra também, a ditadura militar no Brasil. Como foi produzir nessa altura, em particular este “A República dos Sonhos”?

Era um desejo que tinha. Preparei-me, durante anos, mas, de um modo mais específico, durante ano e pouco. Eu desejava fazer um livro cujo ponto de vista brotasse de dentro para fora, mas que também fosse analisado de fora para dentro. Por isso também pego o lado da imigração, faço essa fusão desses dois campos que se uniram e transformaram o Brasil. Acho que o meu livro é o primeiro no sentido de mostrar em que medida o mundo urbano do país sofre um grande choque com a presença dos imigrantes (não os colonos). O anarquismo chega com os italianos e a Espanha do Norte, de tal forma que – e eu espelho isso no livro – em 1907, uma lei chamada Adolfo Gordo, que foi depois retirada, previa a expulsão dos imigrantes indesejados sem julgamento. Aceitavam muitos imigrantes para “branquizar” o Brasil, mas ao mesmo tempo começam a dar- -se conta que eles são entidades, com saberes culturais, práticas e ideologias, e que isso começa a afectar a paisagem humana e comportamental do Brasil. Eu queria demais que o meu livro fosse publicado já em plena democracia. Ele sai sem a democracia total, mas indirecta.

Há também uma passagem, no mesmo livro, que fala sobre a língua portuguesa…

… a minha paixão.

Essa passagem diz “essa língua, como todas as outras, organizou-se de forma a impedir que o povo a tome a si e rompa-lhe os grilhões”. Que amarras quis quebrar com a sua escrita?

Ao mesmo tempo que eu digo isso – porque não dá para se dizer tudo -, o povo está presente nas marcas da língua, mesmo quando ela é organizada estatutariamente, por assim dizer. Quem escreve consolida essa origem popular, desenvolve, em termos linguísticos, a imaginação. Imaginação impregnada pela maneira de ser de um povo. A língua é o maior património colectivo. Não existe nada igual, nem a carne nem o corpo. O corpo sem língua é “tatibitati”. O corpo reluz, é brilhante quando deixa de ser primitivo, quando começa a exigir sentimentos mais complexos e é a língua a ponte para essa complexidade.

E como é que acha que a língua portuguesa, enquanto património, tem sido tratada pelos seus falantes?

Muito maltratada, atualmente. A mim não me importa que se fale errado. Quer dizer, preferencialmente, eu espero que as pessoas a estudem, tenham oportunidades educacionais que não têm – o sistema educacional é um desastre. Mas não me importa que as pessoas errem, desde que usem os elementos ricos e fecundos da língua, que não use uma determinada palavra como guarda-chuva para tudo. Legal para amor, legal para direito, legal para comer. Ou seja, eu refuto o empobrecimento da língua, que se use uma palavra para apagar o que uma língua rica propicia à inteligência de cada um. E isso está acontecendo. Até os políticos são de uma pobreza vocabular… É difícil encontrar alguém que explore os recursos extraordinários da língua. E são recursos que nos tornam interessantes. Digo sempre aos jovens: “Você quer ser erótico? Corpo só não dá, meu filho. Agora, usa a língua como recurso erótico que você vai ver o sucesso que vai fazer.”

O que pensa do novo acordo ortográfico?

Ah, não vou entrar nessa discussão. Não atrapalha a língua, não tem nada a ver com ela. É um truquezinho. A língua está preservada, o que a estraga é a ignorância, é o desprezo por ela, é achar que se pode prescindir dela. Um povo sem língua é um povo tutelado por quem quer que seja. Quem vier pega nele e decifra-o. E um povo não pode ser decifrado. A língua é uma proteção. Nós próprios, que somos às vezes uns pobres coitados, redimimo-nos pela língua. Eu estou apaixonada pela língua [risos].

Ainda se lembra da primeira vez que escreveu?

Houve uma coisa que me marcou profundamente, um conto, quando tinha 14 anos. Era a história de um homem que se apaixona por uma prostituta e vai atrás dela. Ele tem de subir uma ladeira e eu pus: “ladeira íngreme”. Eu fiquei tão horrorizada que parei. Não foi a redundância que me assustou. Senti que havia um perigo naquela banalidade, que não queria ser escritora para escrever aquilo, o óbvio. Ali comecei a parar de escrever historinhas e passei a sentar à frente da máquina de escrever e a fazer exercícios. Escutava a rádio e quando a música vinha era como se me pautasse, eu escrevia o que fosse. Tenho impressão que esses longos anos de exercício poético, por assim dizer, me permitiram esse atrevimento de hoje. Eu sou atrevida nas analogias, nas metáforas, em tudo. Ninguém me tutelava. Eu sou uma escritora que não tem medo de escrever o que deve ser escrito, dentro dos meus saberes e das minhas possibilidades.

É essa a sua maior característica enquanto autora, o atrevimento?

Acho que sim. Mas vendo a minha história há uma lógica no meu atrevimento, que é a minha maneira de me consolidar como pessoa. Vou indo, vou indo. E é, sem dúvida, uma característica minha. Estou viva, minha querida! Já pensou estar viva na minha idade? E tenho projetos de obras, acabei de publicar um livro agora, ” A Camisa do Marido”, já comecei um romance e tenho uns três ou quatro livros para acabar, de ensaios, de pensamentos, reflexões. Então é ter coragem de achar que tenho uma vida diante de mim que não sei se tenho. Mas estou viva e espero que Deus me dê vida para adiantar um pouco tudo isso.

Para os novos projetos que tem, foi buscar algum material aos tais rascunhos aglomerados que falava?

Não, é trabalho de poucos anos. Tem coisas de quando era muito jovem, mas eu faço muitos discursos, ensaios, é muito trabalho. E às vezes não os publico, esqueço-me, ponho-os nas pastas e vou para outra. Eu digo que a minha grande inocência é ter paixão pela vida. E nunca traí a literatura.

O que quer dizer com isso?

Eu sou fiel aos meus postulados, à honra que quero dar à literatura, não no sentido moralista, porque ela não tem moral, mas no da minha honra pessoal. E a minha honra é fazer o melhor que possa, sem pensar em dinheiro, sem pensar em nada. Sobrevivência é outra coisa.

Foi a primeira mulher na presidência da Academia Brasileira das Letras. Como foi essa experiência?

Foi ótima, excelente. Deu-me um trabalho terrível e além do mais fui a presidente do primeiro centenário. Então todas as comemorações foram sob o meu mandato. Um trabalho muito grande que eu fiz com muito amor. E os meus companheiros deram um apoio impressionante.

Ficou surpreendida com esse apoio?

De algum modo si, se se analisar as desconfianças que a mulher sempre inspira. Nunca ninguém me cobrou nada antes de ver os resultados. Nunca recebi uma crítica, ou uma interferência. Nada. Eles confiaram na minha seriedade e, diria, na minha competência. Não houve desconfiança e sou muito agradecida por isso.

Alguns críticos referem-se a si como uma escritora comprometida com a voz do Brasil e também da América Latina.

Muito, mas eu não gosto de dizer América Latina, porque senão Portugal e o Brasil saem fora. Quando se fala América Latina muitas vezes não se inclui o Brasil, e eu quero que entre a Península Ibérica e as Américas, menos a do Norte, neste caso.

E até onde vai esse compromisso?

Eu não sei. Talvez seja o meu espírito solidário, com a nossa ação, o nosso ser, a nossa genealogia. Nós somos uma mestiçagem de corpo e de espírito que é uma beleza, que é o grande património das nossas Américas. O Brasil, com aquela dimensão continental, ao falar a mesma língua, tem, de alguma forma, o mesmo corpo, mesmo com as diferenças sociais. Sempre estudei e li muito, conheço a literatura do continente, fui catedrática durante anos na Universidade de Miami e dava cursos sobre todos os autores, a grande genealogia do continente, que é fascinante. Só o legado da língua portuguesa é uma maravilha.

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