Biografia retrata o pai de Dumas, que inspirou ‘O Conde de Monte Cristo’

Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo

Em texto de 1857 sobre “O Conde de Monte Cristo”, romance que lançara com sucesso 13 anos antes, o francês Alexandre Dumas (1802-70) conta como lhe surgiu a ideia da trama, um processo que teria envolvido conversas com o príncipe Jerônimo Bonaparte e uma visita à ilha italiana de Monte Cristo, habitada por cabras selvagens.

Ao final do breve ensaio, Dumas faz uma provocação: “E agora todo mundo é livre para encontrar outra fonte para ‘O Conde de Monte Cristo’ que não esta que forneci aqui, mas apenas um homem muito sagaz irá encontrá-la”.

Poderia ser apenas referência irônica às dúvidas que circulavam sobre a autoria de suas obras, já que escrevia com uma equipe de colaboradores, mas, para o historiador americano Tom Reiss, 50, o francês jogava ali uma pista para “que um dia alguém pudesse conjecturar outra origem para seu herói injustiçado”.

Certo de ser o homem sagaz imaginado pelo romancista, Reiss dedicou-se a pesquisa e a escrever “Conde Negro – Glória, Revolução, Traição e o Verdadeiro Conde de Monte Cristo”, biografia que lhe rendeu um Prêmio Pulitzer e sai agora no Brasil pela Objetiva.

O biografado não é o Alexandre Dumas conhecido por romances como “Os Três Mosqueteiros”, tampouco o filho dele, o Alexandre Dumas dramaturgo, autor de “A Dama das Camélias”, mas o Alexandre Dumas cuja história acabou ofuscada pela do filho e do neto famosos.

O general Thomas-Alexandre Dumas lutando contra o Exército austríaco em 1797, em ilustração de 1912. Leemage
O general Thomas-Alexandre Dumas lutando contra o Exército austríaco em 1797, em ilustração de 1912. Leemage

E o motivo pelo qual esse primeiro Dumas –herói de guerra na Revolução Francesa, famoso em seu tempo como seria hoje nos EUA uma estrela do futebol americano– teria sido relegado a segundo plano não poderia ser mais controverso, a julgar pela opinião de Tom Reiss.

“Os franceses excluíram o general Dumas da história porque não podiam enfrentar a verdade de que o homem por trás dos maiores heróis de sua ficção era negro”, diz o biógrafo em entrevista por e-mail.

“O escritor Dumas tentou fazer com que o pai fosse reconhecido. Sempre que fez isso, foi rejeitado –embora fosse um dos mais famosos autores da França em seu tempo. Era simplesmente inaceitável que uma minoria racial ocupasse posição central na literatura francesa.”

O principal retrato contemporâneo do general Dumas anterior à biografia de Reiss foi publicado nos anos 1950 por Andrés Maurois –uma parte menor da biografia “Le Trois Dumas”, que contava a história das três gerações.

PENHORA

Thomas-Alexandre Davy de la Pailleterie nasceu em 1762, na colônia francesa de Saint-Domingue (atual Haiti), filho de um marquês branco e uma escrava negra.

Vendido temporariamente como escravo pelo pai na adolescência –o marquês o penhorou para pagar uma viagem à França, mas depois o resgatou–, Alex foi criado na elite parisiense antes de cortar laços com a família e passar a usar o sobrenome da mãe, Marie-Cessette Dumas.

Sem o título de nobreza, o jovem mestiço entrou para o Exército como soldado raso e, em poucos anos, tornou-se um general, no comando de mais de 50 mil homens.

Alguns de seus feitos, anotados por autores da época, lembram os do Barão de Munchausen, cujos relatos absurdos inspiraram o clássico de Rudolf Erich Raspe (1736-94) –num deles, Dumas aparece a cavalo agarrando uma viga no teto e se erguendo do chão com cavalo e tudo.

Relatos descrevem a ocasião em que Dumas venceu três duelos num dia –o que, para Reiss, foi “quase certamente a base para uma das cenas mais cômicas e bem conhecidas de ‘Os Três Mosqueteiros’, em que d’Artagnan desafia Porthos, Athos e Aramis para duelos numa tarde”.

Editoria de Arte/Folhapress
Editoria de Arte/Folhapress

A inspiração para “O Conde de Monte Cristo” seria mais óbvia –voltando à França após ajudar Napoleão Bonaparte a conquistar o Egito, o general quase naufragou e acabou numa masmorra numa ilha no Mediterrâneo.

A carreira meteórica do general foi interrompida depois do período no calabouço e de Dumas criticar a campanha de Napoleão no Egito, o que o tornaria desafeto do líder.

A escritora Heloisa Prieto, especialista na obra do romancista, diz que não há consenso sobre essas inspirações. Ela lembra que o principal colaborador de Dumas, Auguste Maquet, era quem fazia as pesquisas para ele.

Mas, diz, é inegável que “o general Dumas era uma figura onipresente para o filho, cujas obras tratam do sujeito excluído, que tem de lutar por um lugar, do resgate dos valores da cavalaria”.

No Brasil, onde apenas cerca de dez dos mais de 600 títulos de Dumas já foram publicados, pode ser mais difícil buscar outras referências. Para os próximos anos, estão previstas duas continuações de “Os Três Mosqueteiros”, “Vinte Anos Depois” (que retrata um retorno tardio do quarteto) e “O Visconde de Bragelonne”, pela Zahar, que vem publicando obras do francês desde 2004.

MEMÓRIAS

O romancista foi fonte central para Reiss, ao dedicar ao pai cerca de 200 páginas de suas memórias, mas o biógrafo teve de descontar os exageros do filho. “O general era bom demais para ser real. E todos os textos repetiam o que o filho disse sobre ele”, diz Reiss, que checou tudo em arquivos militares.

Entre os textos inéditos que pesquisou, estão os arquivos dos três Dumas mantido num cofre no museu da família em Villers-Cotterêt, onde o romancista nasceu.

Quando chegou à vila francesa, Reiss descobriu que ninguém sabia a combinação do cofre. Conseguiu anuência do vice-prefeito para arrombá-lo e fotografar o que conseguisse por duas horas –antes de a polícia chegar.

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