Resenha: A Casa Assombrada

Karen, no Por essas Páginas

John Boyne escrevendo um livro de terror? Mas é claro que eu tinha que ser a primeira da fila a ler! E, assim que o livro chegou, iniciei a leitura. E, o que mais me assombrou nesse livro (além dos fantasmas!), foi a capacidade de John Boyne de se reinventar. Mesmo sendo um escritor contemporâneo, ele conseguiu transportar tanto seus personagens, quanto sua linguagem e estilo, para a época dos clássicos, em um romance assustador e reflexivo.

A_CASA_ASSOMBRADA“Eliza Caine tem 21 anos e acaba de perder o pai. Totalmente sozinha e sem dinheiro suficiente para pagar o aluguel na cidade, ela se depara com o anúncio de um tal H. Bennet. Ele busca uma governanta para se dedicar aos cuidados e à educação das crianças de Gaudlin Hall, uma propriedade no condado de Norfolk – sem, no entanto, mencionar quantas são, quantos anos têm ou dar quaisquer outras explicações. Assim, ela larga o emprego de professora numa escola para meninas e ruma para o interior.
Chegando a Gaudlin Hall, Eliza se surpreende ao encontrar apenas Isabella, uma menina que parece inteligente demais para sua idade, e Eustace, seu adorável irmão de oito anos. Os pais das crianças não estão lá. Não se veem criados. Ela logo constata que não há nenhum outro adulto na propriedade, e a identidade de H. Bennet permanece um mistério.
A governanta recém-contratada busca informações com as pessoas do vilarejo, mas todos a evitam. Nesse meio tempo, fica intrigada com janelas que se fecham sem explicação, cortinas que se movem sozinhas e ventos desproporcionais soprando pela propriedade. E então coisas realmente assustadoras começam a acontecer…” Fonte

Comecei a ler A Casa Assombrada cheia de expectativa; estamos falando de John Boyne, afinal, um dos meus escritores favoritos. Além disso, é a primeira obra adulta que leio dele desde O Ladrão do Tempo, primeiro livro que li do autor e que ainda considero meu favorito. Por isso, me espantei quando percebi que a leitura não estava avançando rápido como sempre acontece; de início, torci o nariz, desconfiada, mas à medida que o livro avançou, compreendi o porquê desse início arrastado. Sabem a sensação de ler um livro clássico? Um Machado de Assis, um Charles Dickens? Pois é, John Boyne, com maestria, conseguiu resgatar essa sensação, tal qual fosse um autor clássico. Totalmente impressionante a capacidade desse escritor de se reinventar.

“É um dos aspectos decepcionantes de ficar mais velho. Temos mais medo e, por isso, fazemos menos coisas.” Página 182

Passado o baque inicial de estar lendo não apenas Boyne, mas um Boyne “clássico”, me acostumei ao estilo e segui em frente. E o livro só evoluiu e ficou ainda melhor. Surpreendentemente, o autor conseguiu pegar um tema batido, um lugar comum em histórias clássicas de terror (uma governanta com um casal de crianças solitárias, em uma casa mal assombrada), e transformar o clichê em uma história interessante e, muitas vezes, apavorante. Nem adianta ficar me desdobrando aqui ao explicar a história: a sinopse já diz tudo e, se você parar para pensar, é uma história muito simples. Mas nada é simples nas mãos competentes de John Boyne.

Está certo que já sabemos, pelos livros anteriores dele, especialmente pelo premiado e famosíssimo O Menino do Pijama Listrado, que a especialidade de John Boyne é emocionar. Mas essa é uma história de terror e eu esperava os arrepios (que vieram!), mas acabei, novamente, derramando lágrimas e sendo tocada pela sensibilidade inegável do autor. Em um final brilhante e cheio de emoção, Boyne provou que, sim, é possível fazer um terror arrepiante, mas também é possível tocar o coração do leitor com esse gênero. Terror não é apenas sustos e sangue, mas sim tocar em certos assuntos, certas coisas que acontecem em nossa vida, que podem não ser aquilo que se vê nos filmes, mas contra as quais é necessária muita coragem para enfrentar e superar o medo que carregam consigo.

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Outro fato muito bem-vindo no livro são os personagens, todos extremamente bem construídos, em especial a protagonista Eliza Caine. Em uma época em que as mulheres valiam quase nada e seu intelecto era rebaixado, Eliza prova que é uma mulher de muita fibra, caráter e extrema inteligência. Há pensamentos seus, frases que diz e atitudes que demonstra que vão orgulhar as leitoras (e, espero, os leitores também). Em um livro que se passa em um século passado e com um tom clássico, Boyne nos brinda com uma protagonista muito mais forte e bem construída do que muitas personagens femininas de livros contemporâneos.

“- Se existe uma condição com a qual estou acostumado é a tendência do sexo frágil a sofrer de ansiedade nervosa.
Ele fez uma reverência educada e cogitei pegar o grande peso de papel sobre a mesa – que tinha o formato da Irlanda – e golpear seu crânio. Algum tribunal nesse mundo me condenaria?” Página 128/129.

A edição da Companhia das Letras está impecável, como sempre. A capa é aveludada, as páginas são confortáveis e não encontrei um erro sequer em todo o livro. E, claro, o cheiro desse livro… Não há nada como cheirar um exemplar da Companhia das Letras.

Com uma narrativa clássica, mas ainda fluida e instigante, e uma trama arrepiante, mas sensível, A Casa Assombrada é certamente mais uma obra brilhante de John Boyne. Quero mais!

Livro gentilmente cedido para resenha pela Editora Companhia das Letras.

Ficha Técnica
Título: A Casa Assombrada
Autor: John Boyne
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 296
Avaliação:

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