Falta de estrutura e conteúdo diferente prejudicam no Enem, dizem escolas

Fachada do Centro Educacional 04 de Brazlândia, escola do DF com pior colocação no Enem 2013. (Foto: Isabella Calzolari/G1)
Fachada do Centro Educacional 04 de Brazlândia, escola do DF com pior colocação no Enem 2013. (Foto: Isabella Calzolari/G1)

‘Exame não retrata realidade’, diz diretores de 4 piores colocadas em 2013.
‘Função do ensino público é dar escolarização à população’, diz subsecretário.

Izabella Calzolari, no G1

Escolas do Distrito Federal com piores colocações no Enem 2013 afirmaram que a falta de infraestrutura nas unidades e a diferença entre o conteúdo da rede pública com o que é explorado no exame afetam o resultado final dos alunos. O G1 conversou com diretores de quatro escolas com menor média na prova objetiva de linguagens e códigos do Enem 2013. Todas estão localizadas em zonas rurais – duas em Brazlândia, uma em Planaltina e outra no Paranoá. A pior escola do ranking foi o Centro Educacional 04 de Brazlândia.

O subsecretário de Educação Básica da Secretaria de Educação, Gilmar Ribeiro, afirmou ao G1 que a proposta curricular da rede pública não tem como objetivo preparar para exames e vestibulares. “A escola pública tem a função social de dar a escolarização e de trabalhar com os conhecimentos globais e locais para dar formação à população e não tem como objetivo preparar para exames e vestibulares”, disse. “Os projetos pedagógicos das escolas podem, além da proposta curricular, desenvolver projetos extras ligados aos exames e vestibulares, mas isso é uma definição de cada unidade.”

A diretora do CED 4 de Brazlândia, Francisca Zenilda da Conceição (Foto: Isabella Calzolari/G1)A diretora do CED 4 de Brazlândia, Francisca Zenilda da Conceição (Foto: Isabella Calzolari/G1)
A diretora do CED 4 de Brazlândia, Francisca Zenilda da Conceição (Foto: Isabella Calzolari/G1

Além das reclamações, os diretores também foram unânimes ao considerarem que o Enem não retrata a realidade dos estudantes das escolas rurais. No caso do CED 4 de Brazlândia, a diretora da instituição, Francisca Zenilda da Conceição, afirmou que a análise dos resultados do exame dão uma sensação de “inverdade”.

“Quem vê essas notas pensa que a escola é ruim, que os alunos não são inteligentes, mas a qualidade do ensino aqui é muito boa”, disse. “Quando os alunos daqui fazem avaliações, eles sempre se destacam. Se eu passo esse resultado para os alunos e digo que eles estudam na escola pior colocada no Enem, isso vai desestimular com certeza.”

A escola, localizada em uma zona rural de Brazlândia, é formada por filhos de agricultores, caseiros e moradores de fazendas e chácaras. São 11 professores para 186 alunos do ensino fundamental e médio. Para Francisca, o grande problema da escola está na questão estrutural.

A diretora contou que o ensino médio foi implantado na escola recentemente a pedido dos moradores da região, mas não houve nenhum tipo de construção na escola para receber a nova demanda. A coordenação da unidade dividiu uma sala de aula de 30m² em duas. Na sala cabem no máximo dez alunos, mas atualmente ela é ocupada por 17. Uma parte do pátio também foi usada para os professores construírem uma nova sala improvisada para guardar os livros. A escola não tem biblioteca nem sala de estudos.

Sala improvisada feita em pátio da escola para guardar os livros usados pelos alunos (Foto: Isabella Calzolari/G1)
Sala improvisada feita em pátio da escola para guardar os livros usados pelos alunos (Foto: Isabella Calzolari/G1)

“Não temos problemas com relação à parte pedagógica. O que existe é um grande problema no espaço físico reduzido. Não temos laboratórios, para biblioteca improvisamos um espaço pequeno para colocar os livros, mas não há um espaço em que os alunos podem sentar e estudar concentrados”, disse. “Além disso, como a escola funciona o dia inteiro, se o aluno estuda de manhã, a gente não consegue propor nenhuma atividade extra direcionada para o Enem porque não tem local para realizá-la.”

O professor Ezequias Abreu ajudando na reforma da escola (Foto: Isabella Calzolari/G1)
O professor Ezequias Abreu ajudando na reforma da escola (Foto: Isabella Calzolari/G1)

Para receber os alunos na unidade, o professor de educação física Ezequias Abreu resolveu usar o resto das férias para ajudar na reforma da escola. “Sempre que precisa a gente faz algo a mais. Quando a gente ama o que faz a gente faz de tudo para agradar”, disse. “Aqui [quadra de esportes] é o ambiente que eles mais gostam, então temos que deixar tudo arrumadinho.”

Francisca atribui o baixo desempenho da escola no exame ao número de alunos inscritos. “Temos 45 alunos no ensino médio. Se 10 fazem e 5 não conseguem, a média já cai”, afirmou. “Já formamos 148 alunos e 70 deles estão fazendo faculdade. É uma turma esforçada, que gosta de estudar.”

O diretor do CED Irmã Maria Regina Velanes Regis, em Brazlândia, afirmou que considera o contexto socioeconômico e a localização da escola fatores determinantes para o baixo desempenho dos alunos no Enem.

“A nossa escola está situada em área rural e ela está em uma região que em torno dela tem seis assentamentos de sem terra, além de chácaras e fazenda”, disse Sérgio de Oliveira. “Nosso principal público são trabalhadores rurais, filhos de trabalhadores rurais, assentados e filhos de assentados. A realidade é diferente do estudante de área urbana. As perspectivas deles são outras, eles não têm o Enem como referência.”

A escola funciona em três turnos, com 90 professores para atender cerca de 1.250 alunos. Oliveira contou que, apesar do objetivo central dos estudantes não ser o Enem, a maior parte dos que se formam na instituição estão matriculados em faculdades. “Se você pega os 35 alunos do 3º ano que se formaram no final do ano, mais os 16 da educação de jovens e adultos, quase 70% conseguiu aprovação em instituição de nível superior particular com financiamento do Prouni e dois tiveram aprovação na UnB.”

Pátio do CED Irmã Maria Regina Velanes Regis, em Brazlândia (Foto: Isabella Calzolari/G1)
Pátio do CED Irmã Maria Regina Velanes Regis, em Brazlândia (Foto: Isabella Calzolari/G1)

‘Falta investimento’
Silvânia da Silva é vice-diretora do PAD-DF, no Paranoá. A escola foi a penúltima colocada no ranking analisado pelo G1. De acordo com Silvânia, a escola precisa de reforma emergencial. “Não temos infraestrutura, faltam salas de aula, o prédio é muito antigo, mais de 20 anos que não faz reforma”, disse. “Já foram feitos reparos, mas não atende a quantidade de alunos. Espaço nós temos para construir, mas não temos verbas.”

Ela contou que muitos alunos acabam desistindo de participar do Enem por conta da falta de transportes, de informação e de investimento. “A gente disponibiliza para todos os alunos as máquinas para fazer inscrição, mas como aqui é zona rural, muitos não têm identidade, CPF, e às vezes eles têm que andar mais de 50 km para se inscrever ou fazer a prova e daí acabam desistindo. Muitos nem tem comprovante de residência.”

O Centro Educacional Taquara, na zona rural de Planaltina, também ficou entre os cinco piores colocados no Enem 2013. Para o diretor Volemar Ornelas, o problema da instituição está na falta de professores especializados, no desinteresse dos alunos e na falta de infraestrutura. Ele considera que falta investimento pedagógico nas escolas.
“Tem que ser feito muita coisa, muito investimento no pedagógico, os professores deveriam ter mais cursos, o conteúdo programático tem que ter uma ligação com o conteúdo do MEC, voltado para o Enem. Às vezes o professor pega um livro e quando vai ver o conteúdo do PAS, do Enem, não tem nada a ver com o conteúdo que a secretaria coloca.”

Ele afirma que os professores estão sobrecarregados com a grande demanda e que a escola atualmente trabalha com apenas um coordenador. “Hoje temos professores de ensino médio que também dão aula no ensino fundamental. Nós temos muitos alunos fora da faixa etária também”, disse. “Essa colocação também está ligada a falta de interesse dos alunos, porque a parte pedagógica da escola fica muito a desejar. A gente não consegue dar o suporte extra necessário.”

Fachada do PAD-DF, no Paranoá, escola com penúltima colocação no ranking analisado pelo G1 (Foto: Silvânia da Silva/Arquivo Pessoal)
Fachada do PAD-DF, no Paranoá, escola com penúltima colocação no ranking analisado pelo G1 (Foto: Silvânia da Silva/Arquivo Pessoal)

Ele contou que os alunos reclamam da falta de transporte na região. “Nós atendemos alunos de várias áreas, tanto rural quanto urbana. São alunos que tem 21, 22 anos no ensino médio. Eles não têm como estudar na cidade à noite porque não tem transporte”, afirmou.

O subsecretário de Educação Básica afirmou que irá estudar as condições em que as escolas citadas na reportagem estão funcionando. “Temos que ver as questões administrativas e de recursos humanos em que essas escolas estão passando e aí sim podemos estudar quais são as ações que serão feitas junto com as regionais de ensino e ver quais são as ações que podemos implementar para a melhoria das aprendizagens nessas escolas”, afirmou Ribeiro.

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