Agredida por pai de aluno, diretora diz que educador não tem reconhecimento

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Publicado na Folha De S.Paulo

V.M.K., 48, diretora de uma creche municipal na região de Ermelino Matarazzo (zona leste de São Paulo), está afastada do trabalho por ter sido agredida por um pai de aluno, na entrada da própria escola. Ela se protegeu com o braço para não levar um tapa no rosto e ficou com hematomas.

Quase um mês depois da agressão, ela afirma que ainda não tem condições emocionais para retornar ao trabalho. No boletim de ocorrência registrado na polícia, o pai disse que foi ele o agredido, depois de uma discussão.

A diretora pediu para que os nomes não fossem revelados, por temer retaliações.

…Depoimento a
FÁBIO TAKAHASHI
DE SÃO PAULO

No começo deste mês fui perguntar a esse pai por que o filho dele não foi à escola nas férias. A Justiça obrigou todas as creches a abrirem em janeiro se as famílias mostrassem interesse.

Explicamos aos pais que é importante as crianças ficarem um tempo com a família. E que abrir em janeiro significa que os professores terão de tirar férias durante o ano letivo, prejudicando as atividades.

Esse pai disse, lá atrás, que precisava do atendimento ao filho. Ele e mais 29 foram inscritos. Nove apareceram. O dele, não.

Ao ouvir minha pergunta, na entrada da escola, ele se descontrolou. Falou que fazia o que bem entendia, que éramos empregados dele.

Respondi que somos servidores públicos, sim. E, por isso, temos de garantir que as crianças tenham as melhores condições.

Ele levantou a mão em minha direção. Perguntei: “Você vai me bater?” Ele disse: “Se você continuar a me provocar, sim.”

Então, ele veio para dar um tapa na minha cara. Me protegi com o braço, levei a pancada. Em seguida, ele agarrou meu outro braço. Funcionários da escola o afastaram. Fiquei com hematomas.

Era hora da entrada, as crianças ficaram assustadas, choraram. Fomos à delegacia registrar boletim de ocorrência. Levei testemunha. O pai disse que eu o encurralei, que ele era vítima. Tenho 1,59 m, ele deve ter 1,80 m!

A situação fez com que eu pedisse afastamento da escola por um tempo. Em abril, farei nova perícia para verificar se posso voltar. Enquanto isso, a escola sofre. Só eu posso assinar alguns gastos. Como não estou lá, estamos devolvendo dinheiro para a prefeitura, com tanta coisa para fazer na escola –telhas quebradas, lâmpadas queimadas.

O pior é que a agressão que sofri é corriqueira na educação. As famílias não valorizam nosso trabalho, querem saber apenas se a criança tem onde ficar. E nos sentimos desamparados. Quando ocorre um problema desse, a GCM [Guarda Civil Metropolitana] até chega rapidamente, mas eles não estão lá todo dia para evitar o problema.

Tenho duas graduações, uma pós-graduação, 22 anos de magistério. A três anos de me aposentar, posso dizer que me arrependo de ter escolhido o magistério.

Ganho R$ 4.500 líquidos hoje, como diretora de um centro de educação infantil com 150 crianças.

Meu marido tem uma empresa que fabrica peças. Uma delas, que demora duas horas para ficar pronta, vale mais que o meu salário do mês. Trabalho muito, ganho pouco e não tenho reconhecimento.

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