‘Quero voltar a estudar para meu filho ter um futuro melhor’, diz mãe aos 17

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Publicado no G1

É com dificuldade que Sheila Andrade de Oliveira sobe a ladeira perto de sua casa, no bairro Parque Regina, Zona Sul de São Paulo, na tarde de terça-feira (24). Com seu metro e meio, ela carrega uma bolsa de plástico azul marinho, de onde se penduram uma mamadeira e um pano branco. Ao seu lado caminha a prima, que leva Brayan, o filho de seis meses de Sheila, mãe aos 17. O destino da adolescente é o posto de saúde do bairro, para a visita mensal do bebê ao pediatra.

Brayan ainda não entrou na creche, e Sheila ainda não terminou o ensino médio. Ela desistiu do trabalho como babá e da escola, a poucos meses de conseguir o diploma e pouco depois de descobrir a gravidez.

Hoje, ela diz que planeja retomar os estudos, mas, sem vaga para o filho em uma creche pública e sem dinheiro para pagar um berçário, a adolescente passa os dias em casa, cuidando do bebê.

Filha de uma lavadeira e um funcionário de uma empresa de manutenção, que não terminaram o ensino médio, Sheila diz que ainda tem planos de retomar o terceiro ano na escola estadual em que estudava.

“Pretendo voltar a estudar, só pra terminar o terceiro, pra mais pra frente ter um futuro melhor, né? Eu quero que meu filho tenha um futuro melhor do que o meu”, disse a jovem, que ainda não completou 18 anos.

Sheila e mais 309 mil meninas de 15 a 17 anos que já tiveram filho estão fora da escola, segundo levantamento feito pelo Todos pela Educação, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), ao qual o G1 teve acesso.

Esse número representa 75% de todas as mães adolescentes do Brasil.

Entre elas, 52 mil têm trabalho e 257 mil não têm nenhuma ocupação além da criação dos filhos.

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Sonhos interrompidos

Sheila nunca pretendeu cursar a faculdade e quer usar o certificado de conclusão do ensino médio para conseguir um emprego de carteira assinada. Mas outras meninas tinham planos de estudos que foram interrompidos pela gravidez. Para Victtoria Leite, isso aconteceu no sétimo ano do ensino fundamental.

A adolescente, que hoje tem 16 anos, mora no Itaim Paulista, em São Paulo com o filho de quase 2 anos. Ela engravidou aos 14 e não se matriculou no ano seguinte por não ter quem cuidasse de seu filho. “Eu não podia continuar, porque eu ia ter que parar [de estudar] de qualquer jeito. Só tinha eu para cuidar do meu neném”, conta Victtoria.

Após o nascimento de Deric, ela procurou empregos, mas não foi aprovada em nenhum, por falta de escolaridade. Há uma semana, decidiu terminar o ensino fundamental com o projeto de Educação de Jovens e Adultos (EJA). “Depois que eu terminar, começo o ensino médio na escola mesmo, direitinho”, explica.

A vontade de voltar a estudar tem uma razão. “Eu quero ser radiologista. Eu sei que é difícil arrumar emprego nessa área, que tem pouca demanda, mas eu quero.”

Para ir à escola, a jovem deixa o filho com a sogra, que mora perto de sua casa. Há um ano e dois meses ela mora com o pai do seu filho, que tem 19 anos e trabalha na área de limpeza de um prédio.

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Evasão escolar após o parto

Sandriele Barbosa da Silva tem 15 anos e também mora com o marido, na mesma casa que seus pais, os dois irmãos, uma cunhada e sua filha de um ano, em Vitória do Xingu, a 800 km de Belém do Pará. Ela tinha 13 anos quando engravidou pela primeira vez.

Com o nascimento da filha Sariane, a jovem teve que parar de estudar na quinta série. Hoje, está grávida de 7 meses do segundo filho, ainda sem nome decidido.

Seu marido tem 23 anos e é pai do segundo filho. Os dois estão casados há um ano. Ele trabalha fazendo tijolos enquanto Sandriele se dedica a cuidar da saúde da filha, que não consegue se curar de uma gripe. “Desde os três meses ela tem falta de ar, tosse. A gente leva ao médico, ela toma remédio e não melhora”, afirma a jovem.

Em abril de 2014, a jovem percebeu que a filha precisava de atenção especial, parou de ir à escola e não pode trabalhar. “Eu queria voltar a estudar, fazer faculdade. Queria ser enfermeira”, conta a jovem, que durante a escola tinha a língua inglesa como disciplina preferida.

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