“Se a palavra é substituída pela imagem, a imaginação corre perigo”, diz Vargas Llosa

Caño e Vargas Llosa. / FOTO: C. R. / VÍDEO: Carlos Rosillo / REUTERS LIVE
Caño e Vargas Llosa. / FOTO: C. R. / VÍDEO: Carlos Rosillo / REUTERS LIVE

Em diálogo com o diretor de EL PAÍS, Vargas Llosa adverte sobre os riscos da cultura digital

, no El País

“Se o mundo continuar o processo no qual a palavra escrita está sendo substituída pela imagem e pelo audiovisual, corremos o risco de que desapareça a liberdade, a capacidade de refletir e imaginar, além de outras instituições como a democracia”, advertiu no sábado Mario Vargas Llosa em diálogo com Antonio Caño, diretor do EL PAÍS, durante o I Fórum Internacional do Espanhol 2.0, realizado na Ifema.

Perante 300 pessoas, muitos deles jovens, Caño perguntou ao prêmio Nobel peruano se concordava com o prognóstico do desaparecimento do jornal tradicional e dos livros impressos. O escritor disse que é uma possibilidade, mas não acredita nisso. Se acontecer, insistiu, o resultado seria trágico sobretudo para a cultura da liberdade: “Seria o pesadelo de Orwell, de uma sociedade transformada em robôs, onde tudo é organizado por poderes invisíveis”. Embora não acredite que isso possa acontecer porque está convencido de que sempre haverá gente suficiente para ler livros e jornais em papel. Seu temor é que a cultura da tela seja cada vez mais puro entretenimento e “isso aboliria o espírito crítico”.

Faz esta advertência ao considerar que a palavra lida, a linguagem comunicada de maneira impressa, tem um efeito no cérebro que completa e complementa o que é lido. Por outro lado, o autor de Conversa na Catedral, afirmou que “as imagens não produzem o mesmo mecanismo de transformação da maneira que as palavras, ao serem lidas, criam imagens. Na leitura há um esforço criativo e intelectual que quase é eliminado com o visual”.

O autor de A Guerra do Fim do Mundo defende a criação de mecanismos para que isto não aconteça: “Porque pode acontecer um retrocesso para a barbárie; um mundo sem liberdade, manipulado a partir dos poderes, tendo a tecnologia a seu favor”. O escritor deixou claro que é partidário da tecnologia, à qual agradece muitas coisas, e vê outras muito positivas, como o acesso à cultura.

Em relação ao entusiasmo vivido hoje pelas séries de televisão que alguns homologam a função que desempenha a literatura, o criador de A Festa do Bode acha que são produtos bons e são divertidos, mas “totalmente efêmeros”. Por isso considera importante defender o livro, “a leitura não só entretém, mas produz um efeito mais profundo, cria cidadãos mais responsáveis e críticos, e contribui para um mundo melhor”.

Realidades, utopias e distopias à qual chegaram Vargas Llosa e Caño meia hora depois de uma conversa nascida sob o título de A linguagem e o jornalismo. E linguagem é a palavra que une esses dois ofícios. Os dois estão feitos do mesmo material, mas sua missão e destino são diferentes. Mostram as duas caras da natureza da linguagem: paixão, imaginação e nenhum limite na literatura e na razão, realidade e leis claras no jornalismo. É verdade que as duas dividem fronteiras, às vezes movediças. “O jornalismo tem uma linguagem mais impessoal a serviço de um objetivo que é comunicar, sem renunciar à criatividade. A literatura tem uma linguagem mais visível, mais criativa”, opinou Vargas Llosa minutos antes de dialogar com Antonio Caño. Para o diretor do EL PAÍS, trata-se de duas artes que “nem sempre são bons sócios. E funciona se a literatura consegue imprimir no jornalista a capacidade de transmitir ideias e contar melhor os fatos”.

Vargas Llosa tinha quinze anos quando começou no jornalismo. Foi no verão entre o penúltimo e último ano do colégio. Pensou que poderia ser sua profissão complementar à vocação de escritor. Pediu a seu pai e este o ajudou a conseguir um trabalho no jornal La Crónica de Lima. Desde então, o jornalismo foi seu companheiro. Mais ainda, falou, “essas lembranças serviam depois como matéria-prima para alguns de meus romances. Sem o jornalismo não existiria boa parte dos meus livros”.

Diz um autor que passou por quase todos os gêneros e seções jornalísticas. Escreveu sobre literatura, e sobre o Congo ou o Iraque. Sempre soube a “interessante e maravilhosa” relação entre jornalismo e literatura. Recordou os casos em que o jornalismo foi feito por grandes escritores. “O jornalismo deve comunicar e deve levar ao leitor ao que quer transmitir, sua linguagem não deve ser uma barreira entre quem escreve e lê; deve ter grande precisão, buscar a invisibilidade da linguagem de tal maneira que a matéria pareça autossuficiente. Há jornalistas que escrevem mal ou bem e outros muito bem, e alguns são esplêndidos escritores e jornalistas.” Clareza, objetividade e não se contaminar com a linguagem da área que se cobre são as recomendações de Caño.

A confluência do analógico e digital preocupa Vargas Llosa no sentido de que está se perdendo a hierarquização da informação e aumenta a vulgarização da linguagem. “Há uma razão para estarmos satisfeitos com a tecnologia”, disse Caño, “é o de ser um mundo onde todos contam, se comunicam de maneira permanente. O jornalismo é hoje uma grande conversa onde os jornalistas são mais um.”

E da Linguagem e o jornalismo, o fórum tem como convidados neste domingo às 11:30 a filóloga e acadêmica Inés Fernández Ordóñez, o escritor Juan José Millás e o jornalista Álex Grijelmo para falar de A ética e a palavra.

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