Notas vermelhas quando a violência é presente

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Publicado em O Globo

Além da pobreza, relatada já em diversos estudos como um dos fatores mais fortes a influenciar negativamente o desempenho escolar, colégios em áreas de confronto possuem a violência como desafio a ser superado.

Uma pesquisa feita por Joana Monteiro (PUC-RJ) e Rudi Rocha (UFRJ) mostra que o desempenho de alunos em favelas cariocas cai significativamente em anos em que os tiroteios são mais intensos. Em resumo, a violência externa piora o aprendizado, especialmente em escolas dentro de favelas, porque faz os professores faltarem mais, se sentirem mais acuados, e leva os diretores a fecharem mais suas unidades.

Em números, os alunos de escolas que tiveram nove ou mais dias de conflitos durante o ano letivo tiveram desempenho duas vezes pior que os de escolas expostas à violência durante dois ou mais dias. A pesquisa mostra que, quanto mais próxima de uma favela, maior o impacto. Em anos com conflitos na região onde o colégio está inserido, os professores faltam 5,8% mais.

A rotatividade também é destacada como um problema a ser enfrentado. Em épocas de conflito, a chance de um diretor ficar menos de dois anos no cargo aumenta 12%.

Se por um lado fica claro que o cotidiano hostil gera notas vermelhas, as políticas de segurança já mostram melhoras em indicadores de ensino, segundo levantamento feito por Eduardo Ribeiro, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj.

— A violência tem relação direta com a interrupção de aulas. Vimos que regiões com taxa alta de homicídio tiveram mais dias de aula perdidos — reforça Ribeiro.

O pesquisador afirma que esta realidade começa a mudar com a entrada de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs):

— Dois indicadores muito importantes tiveram variação com a entrada de UPPs. O número de abandono de alunos e de aulas perdidas diminuíram quando o entorno do colégio se tornou mais pacífico.

Em média, escolas no Rio em áreas de conflito perdem dois dias de aula por causa da violência. Porém, quando este número é destrinchado, observa-se uma disparidade: 71% dos colégios não tiveram interrupção em nenhum momento de 2009 a 2013, mas 3% pararam suas aulas mais de 20 vezes devido à violência.

— Quando vemos a notícia de que cinco mil alunos do Complexo do Alemão não tiveram aula por causa da ocupação, achamos que é muito. E é. Mas também é pontual, não reflete o que acontece cotidianamente na rede — afirma o pesquisador.

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