Universidade integrada: o futuro do ensino superior?

Uma formação que um estudante demoraria cerca de 12 anos para obter, ele pode conseguir em apenas cinco
Uma formação que um estudante demoraria cerca de 12 anos para obter, ele pode conseguir em apenas cinco

Cursos fragmentados e enrijecidos em planos curriculares aos poucos vão cedendo espaço para modelos que priorizam a mobilidade e integração

Eber Freitas, no Administradores

Último ano de faculdade. O momento onde os alunos vislumbram o fim de anos de luta e o TCC é a única divisória entre duas etapas da vida. Foi neste ponto que a curitibana Catarina Strapação decidiu abandonar o curso de Licenciatura em Letras na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). “Eu odiava a sala de aula tradicional, não queria ser professora. Fui ficando desmotivada”, afirma. Participou de outro processo seletivo para ingressar no curso de Biblioteconomia na mesma instituição, começando do zero; está no quinto período.

Rachel Madeira, engenheira civil, já sabia o que queria para seu futuro desde os 13 anos de idade, mas reclama do foco excessivo do curso de Engenharia nas disciplinas exatas. “Sinto falta de uma formação maior em gestão”, diz. “Ao menos na Engenharia, só estudar Física e Matemática nos dois anos iniciais, principalmente para quem nem sabe a diferença entre o engenheiro e o arquiteto, não significa nada, não dá paixão”, acredita.

Interesse e paixão pela escolha do curso são essenciais para que o estudante obtenha um bom aproveitamento. Mas não é isso o que acontece com 20,9% dos alunos: esse é o percentual de evasão no ensino superior, segundo o último Censo da Educação Superior. A escolha precoce da carreira, a estrutura curricular dos cursos e o longo tempo para obter uma formação completa são alguns dos fatores apontados como desestimulantes.

O cenário fica mais interessante quando pensadores como Edgar Morin engrossam o caldo: “Estou cada vez mais convencido de que os conceitos dos quais nós nos servimos para conceber a nossa sociedade – toda sociedade – são mutilados e resultam em ações inevitavelmente mutilantes”, acredita. Conceitos mutilados? Como o conceito de Educação?

Sim. Ao menos como a Educação, especificamente superior, é praticada hoje: criada para formar “especialistas” que, no fim das contas, não veem outra saída a não ser integrar o quadro de docentes e pesquisadores da universidade. “Precisamos de um conceito sistêmico que exprima ao mesmo tempo unidade, multiplicidade, totalidade, diversidade, organização e complexidade”, propõe Morin. No âmbito do ensino superior, é necessário reformular a arquitetura acadêmica.

A lógica pela qual funcionam a academia e a produção científica se baseia no velho pensamento cartesiano, que propõe a quebra do conhecimento em vários pedaços pequenos, mensuráveis e altamente especializados. A universidade moderna, onde o ensino e a pesquisa estão atrelados, foi proposta por Humboldt e aplicada pela Universidade de Berlim no século XIX. Esse ainda é o modelo predominante nas instituições brasileiras de ensino superior que, além de inadequado para as necessidades atuais, foi fundado sobre uma série de distorções históricas – começando pela forma excludente de acesso.

Experiência europeia

Alguns anos após a fundação da União Europeia, o bloco promulgou a chamada Declaração de Bolonha – um documento contendo diretrizes para uma formação integrada não apenas no nível curricular, mas entre as universidades dos próprios países-membros. Por exemplo, um estudante pode iniciar seus estudos em Portugal e concluir na Bélgica sem perder nada. Apesar do caráter protecionista e relacionado à empregabilidade, uma alteração importante foi necessária para que o plano pudesse ser operacionalizado: a adoção dos princípios de aprendizagem ao longo da vida, o envolvimento dos estudantes na gestão das instituições e a promoção da atratividade do Ensino Superior.

As medidas, adotadas ao longo dos anos, reduziram e simplificaram as nomenclaturas acadêmicas (divididas em ciclos) e tornaram acessível um modelo mais interdisciplinar, móvel e integrado. A formação superior passou a ser antecedida pela graduação com duração de três anos (primeiro ciclo) e, caso o aluno obtenha bom desempenho, ingressa na pós-graduação equivalente ao mestrado (segundo ciclo) por mais dois anos. Daí em diante, ele pode optar pelo terceiro ciclo (doutorado), caso queira se dedicar à pesquisa.

Experiência norte-americana

Nos Estados Unidos e Canadá foi implementado um modelo semelhante. Em instituições como o MIT, por exemplo, o estudante pode optar por diplomas minors ou majors. Nos primeiros anos, os estudantes iniciam sem declarar um curso major, equivalente a uma graduação com especialização. Durante esse período, ele pode participar de atividades acadêmicas que, agregadas, vão definir a sua formação (undergraduate). Após esse período, o aluno escolhe o curso major do seu interesse.

Na prática, os minors são disciplinas que um aluno tem curiosidade de conhecer ou que podem melhorar o seu entendimento em determinada área, que não necessariamente definirá sua carreira. É como cursar Administração e ter aulas de programação e design. Em outros casos, um minor pode definir a profissão. Cursos como Jornalismo em algumas instituições não são admitidos como majors: é preciso cursar Filosofia, Direito ou Sociologia, por exemplo, e fazer Jornalismo como minor.

Entretanto, uma realidade cruel cerca os universitários norte-americanos: como a maior parte das universidades é privada e o valor da mensalidade é alto, muitos passam anos a fio pagando empréstimos que fizeram para quitar os estudos.

A experiência brasileira

Anísio Teixeira conseguia enxergar longe. Ele sabia que a universidade brasileira precisava mudar; proclamava que a Educação não poderia ser um privilégio, e tinha ideias acerca da interdisciplinaridade da ciência. Idealizador da UnB, ele era um dos poucos pensadores nacionais que propunham uma reformulação coerente do ensino superior, conforme a realidade brasileira. Infelizmente viveu na época errada: passou os primeiros anos da Ditadura Militar (1964 – 1985) exilado, assistiu à implantação de um modelo militar de ensino universitário em 1968 – voltado para o fortalecimento da estrutura coercitiva do Estado -, e morreu sob circunstâncias suspeitas em 1971.

Teixeira antecipou que a universidade tinha um papel dualista, oscilando entre a consolidação do conhecimento científico e a formação de profissionais para o mercado. Mas, certamente, considerava as instituições de ensino superior como as principais responsáveis por recriar continuamente a cultura, a partir de um olhar crítico do mundo ao redor, capaz de evitar a própria obsolescência.

Em 2008, a Universidade Federal da Bahia (UFBA), à parte da Reforma Universitária em curso, propôs um novo modelo de graduação em um programa nomeado como Universidade Nova. A ideia, basicamente, é adaptar experiências bem-sucedidas no exterior, para reformular o modelo de formação superior. Os objetivos são vários: desde a implantação de novas modalidades de processo seletivo até a criação do bacharelado interdisciplinar.

A promessa é superar diversos gargalos da educação superior: ausência de integração, desarticulação entre a graduação e a pós-graduação, arquitetura curricular complexa e pouco compatível com outras realidades, dentre outros. O projeto propõe o ingresso através do Enem (com adaptações), bacharelado interdisciplinar, integração entre cursos, instituições e níveis de graduação.

Outros casos

Em João Pessoa (PB), o Unipê é a primeira instituição a adotar um modelo de graduação similar ao proposto pela UFBA. Serão implantadas escolas integradas, onde várias disciplinas e cursos poderão constituir uma formação de acordo com o interesse do estudante. A primeira experiência é a Business School, que abrange seis cursos superiores, 14 MBAs integrados e outros cursos de aperfeiçoamento.

Segundo o professor George Washington Mello, assessor de planejamento da reitoria da instituição, uma formação que um estudante demoraria cerca de 12 anos para obter, ele pode conseguir em apenas cinco. “O programa obedece rigorosamente às diretrizes curriculares do MEC”, garante. Em breve, cursos da área de TI e Saúde passarão a funcionar sob o novo modelo, que requer planejamento e um longo tempo para efetivamente entrar em vigor. “Para implantar uma nova matriz curricular, são necessários pelo menos quatro anos”, diz.

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) também pretende experimentar o novo modelo. Os novos campi do litoral, quando inaugurados, passarão a oferecer o bacharelado interdisciplinar. De acordo com Sérgio Franco, pró-reitor de Graduação, as mudanças também devem se estender à forma de acesso, substituindo aos poucos o vestibular pelo Sisu – no início, 30% das vagas.

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