O que é melhor: o livro original ou a adaptação para o cinema?

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Publicado em Revista Escola

As adaptações cinematográficas sempre foram alvos da revolta de fãs dos livros que as precederam. Há quem diga que um filme nunca irá superar a qualidade de uma obra literária. Um título em que senti esse desapontamento foi a versão cinematográfica de O Caçador de Pipas, livro sobre o qual já comentei aqui no blog. Fiquei com a impressão de que o caráter do protagonista mudou muito e empobreceu a obra. Então, saí pensando que deveria ser porque filmes não superam livros.

Para pesquisar o tema, voltei às décadas de 1950 e 1960 e revisitei a obra do grande cineasta Alfred Hitchcock (1899-1980), que produziu várias adaptações. A mais famosa se tornou o clássico Psicose (1960), baseado no livro homônimo de Robert Bloch (1917-1994). O cineasta acreditava que livros medianos podiam dar belíssimos filmes, enquanto obras-primas se tornavam filmes medíocres.

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Certa vez, em entrevista ao diretor francês François Truffaut, ele comentou sobre a impossibilidade de se adaptar obras como Crime e Castigo, do russo Fiódor Dostoiévski. “Jamais a deformaria. Não compreendo como alguém pode se apoderar da obra de outro que demorou anos e anos para escrevê-la e que é toda a sua vida”, afirmou, defendendo que um filme sério sobre tal livro deveria ter pelo menos 6 horas de duração! Apesar do exagero, penso que Hitchcock está correto ao enfatizar que não é possível comparar as obras nas duas linguagens.

Eu me lembro de que, quando ainda estagiava na antiga revista BRAVO!, dedicada à cultura, tive a oportunidade de conversar com o jornalista de cinema Rodrigo Salem. Foi ele quem me apontou que um filme não é a “materialização” de um livro e, sim, uma nova obra que toma como base o texto escrito. Concordo com ele.

Mas por que as pessoas têm essa sensação de que um é melhor do que o outro?

Rubens Rewald, professor de roteiro em audiovisual da Universidade de São Paulo (USP), diz: “Provavelmente esse julgamento tem a ver com a relação anterior que o indivíduo estabeleceu com o livro”. Para Rewald, a tendência é de que as pessoas gostem mais da primeira obra com a qual tiveram contato – seja um livro ou um filme. Seria uma dificuldade que nós leitores e espectadores temos de nos desvencilhar da ideia da história que formamos originalmente em nossa cabeça.

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