Eles vão como voluntários e voltam cheios de histórias

Cresce a procura por experiências humanitárias em outros países; trabalho enriquece o currículo e pode ajudar a treinar novo idioma

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Publicado em Estadão

As férias de Isabella Cino poderiam ser de compras em Nova York, como o pai sugeriu. Ao contrário, a empresária, de 24 anos, decidiu fazer um roteiro pouco comum: 15 dias de trabalho voluntário com crianças de favelas na África do Sul e outros 15 em um orfanato no Nepal, país atingido em maio por um terremoto. “Não custa sair do conforto da minha cama para ajudar pessoas que nem cama têm”, defende Isabella, acostumada a trabalhos voluntários no Brasil. No Nepal, ela acredita que encontrará um cenário de destruição. “Até terei dias de folga, mas nem sei que turismo vai ser possível fazer lá.”

A procura por oportunidades de intercâmbio para trabalho voluntário cresce entre jovens brasileiros, ansiosos por fazer a diferença e conhecer novas realidades. A experiência, além de ajudar quem precisa, enriquece o currículo e pode valer para treinar outro idioma.

Para a estudante Flávia Ferreira, de 18 anos, que embarcou neste mês para a Cidade do Cabo, na África do Sul, a viagem será um teste para a carreira que pretende seguir. Com o sonho de trabalhar no Médicos sem Fronteiras – organização humanitária internacional -, Flávia faz cursinho atrás de uma vaga em Medicina. No país, trabalhará como voluntária em um hospital infantil por duas semanas. “Espero ver alguns procedimentos médicos e entrar em contato com pacientes.”

A África do Sul é o país mais procurado para esse tipo de intercâmbio e chega a representar até 70% das vendas das agências ouvidas pelo Estado. A região tem projetos diversos, como trabalho voluntário com crianças em creches e hospitais e com animais selvagens em reservas. A possibilidade de ficar afiado no idioma também é um atrativo . “Meu inglês não está tão bom. Acho que consigo me virar, mas será uma boa chance de melhorar”, diz a estudante.

Pela Ásia. Atrás de experiências ainda mais exóticas, os viajantes também buscam países asiáticos. “A Índia chama a atenção pela cultura e a grande quantidade de pessoas que vivem em situação de pobreza”, explica Rosana Lippi, gerente de Produto na Student Travel Bureau (STB), que começou a oferecer pacotes de intercâmbio social neste ano. Segundo ela, localidades que passaram por catástrofes também atraem voluntários.

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or oito semanas, o estudante de Administração Renan Gothard, de 21 anos, trocou a sala na Universidade de São Paulo (USP) por uma em Taiwan. Os papéis também se inverteram: de aluno, passou a professor. Ensinou inglês e português para crianças de 6 a 12 anos e, em troca, teve “aulas” de mandarim. Interessados na cultura brasileira, os pequenos aprenderam dribles do futebol e conheceram o brigadeiro.

“Logo que voltei, recebi mais ou menos 500 bilhetinhos das crianças. Muitas falavam que ganharam a vontade de aprender inglês e conhecer o mundo.” O estudante viveu em casas de três famílias taiwanesas: da dona da escola, da diretora e de uma professora. “Me puseram nessas três classes sociais para que eu conhecesse mais a cultura.”

Para ele, a experiência valoriza a formação profissional. “Precisava desenvolver algumas competências relacionadas à comunicação. Quando voltei, percebi que as empresas davam mais atenção para mim por ter um intercâmbio voluntário no currículo.”

Para a presidente da Associação Brasileira de Organizadores de Viagens Educacionais e Culturais (Belta), Maura Leão, o contato com pessoas de diferentes países é uma das vantagens desse tipo de viagem social. “Multinacionais valorizam quem está disposto a conhecer o novo. Isso torna as pessoas mais resilientes e preparadas para mudanças.” Em época de crise, saber lidar com situações extremas também é uma habilidade exigida. “Saem ganhando pessoas que quebram paradigmas e atravessam barreiras.”

Antes de Taiwan, Gothard já havia feito intercâmbio na Alemanha e nos Estados Unidos. Jovens entre 20 e 25 anos que já tiveram alguma experiência internacional são os que mais procuram esse tipo de viagem humanitária.

Para aproveitar a experiência, o intercambista precisa estar disposto a ajudar. “As acomodações são rústicas, e as tarefas, determinadas pelo projeto local”, explica a diretora da agência Roda Mundo, Roberta Gutschow.

Em menor número, pessoas mais velhas e famílias também já se aventuram no voluntariado. “Estamos atendendo uma mãe que quer ir com um filho de 10 anos”, exemplifica Eduardo Frigo, gerente de produtos da CI – Intercâmbio e Viagem. A agência calcula aumento de 20% a 30% nas vendas de intercâmbio social no último ano.

Pacotes de até um mês atraem quem tem menos tempo para viajar. Um intercâmbio de 15 dias na África do Sul, com acomodações e refeições, custa a partir de R$ 3 mil. As passagens aéreas não estão incluídas. Em algumas agências, é possível aliar o trabalho voluntário a cursos de idiomas.

 

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Multicultural. Quando esteve em Medellín, na Colômbia, Marcella Sales, de 21 anos, conheceu muito mais do que um país. Cerca de 40 estrangeiros também atuavam como voluntários em organizações não governamentais e orfanatos da cidade. Nos fins de semana, viajavam juntos. “Conheci um menino da Arábia Saudita. É uma realidade totalmente diferente da nossa”, conta ela, que estuda Ciências Contábeis e foi pela Aiesec, organização estudantil que faz intercâmbios.

No intercâmbio, Marcella teve a chance de ajudar meninas que foram violentadas. “Nunca imaginaria me apegar a pessoas que não conhecia.” A estudante mantém a vontade de voltar a viajar pela América Latina e estudar o espanhol. “Agora tenho um encantamento muito grande pelo idioma.”

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