Fora da área

Maioria dos brasileiros com nível superior trabalha em ocupações que nada têm a ver com seu curso de formação

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Antônio Gois, em O Globo

Há um descompasso entre a formação que os jovens estão recebendo nas universidades e a realidade do mercado de trabalho. Esta é uma das constatações que podem ser feitas a partir de um estudo inédito dos pesquisadores Maurício Cortez Reis, do Ipea, e Danielle Carusi Machado, da UFF. Os dois analisaram, a partir do Censo de 2010 do IBGE, uma série de características dos trabalhadores com nível superior, relacionando rendimento e ocupação com a área de formação.

Uma das conclusões é que apenas um terço (33%) dos trabalhadores com nível superior no país estão ocupados em funções diretamente relacionadas ao seu diploma universitário. Considerando também aqueles que exercem funções ao menos parcialmente relacionadas com a formação, este percentual sobe para 48%, o que significa que a maioria desses brasileiros de mais alta qualificação hoje atua em setores que nada têm a ver com seu curso.

O grau de compatibilidade entre formação e trabalho, porém, varia muito de acordo com o curso universitário. Em saúde, por exemplo, a maioria (59%) dos formados atua em trabalhos totalmente relacionados com sua área. O menor percentual foi verificado nas áreas de humanidade e artes, onde apenas 12% trabalham hoje numa profissão totalmente relacionada ao seu curso universitário.

Como a classificação oficial das ocupações muda constantemente, não é possível comparar esses percentuais com estudos feitos em censos anteriores. Mas pode-se constatar que esse descompasso não é de hoje. Com base no censo demográfico de 2000, Edson Nunes e Márcia de Carvalho, do Observatório Universitário, identificaram que 53% dos formados em nível superior estavam em áreas distintas de sua formação. Reynaldo Fernandes (USP-Ribeirão Preto) e Renata Narita (USP) encontraram para 1991 e 1980, respectivamente, percentuais de 62% e 56% de ocupados em áreas diferentes de sua formação.

O trabalho de Maurício Reis e Danielle Machado traz outras conclusões relevantes. Uma delas é que 31% dos trabalhadores com diploma universitário em 2010 estavam em atividades que não exigiam um nível tão alto de qualificação. Como era de se esperar, isso tem um custo, e esses ocupados em setores menos qualificados recebiam, em média, 29% menos em comparação com os que estavam em ocupações de maior qualificação. Estar atuando em área diferente de seu curso de formação, mesmo que em setor também exigente de profissional com superior completo, também afeta negativamente os salários, que ficam, em média, 11% menores.

Outra conclusão é tristemente já conhecida dos professores. Os profissionais formados na área de educação eram os que recebiam, em média, os menores salários entre as dez grandes áreas de formação comparadas. Em seguida aparecem os que concluíram cursos de humanidades e artes. Os melhores rendimentos estavam em engenharia, direito, saúde, agricultura e veterinária.

Sob qualquer aspecto, ter um diploma universitário no Brasil continua sendo um ótimo negócio. Isto é óbvio quando se comparam médias salariais de quem chegou lá com aqueles que pararam no ensino médio ou antes. O estudo, porém, reforça o argumento dos que defendem um ensino superior menos voltado para a formação de trabalhadores para exercer uma ocupação específica, e mais preocupado em dar uma base sólida, que permitirá ao jovem se adaptar melhor no futuro às constantes mudanças no mercado de trabalho.

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