Ex-detento cria editora para publicar livros que escreveu em penitenciária

Ex-presidiário encontra na literatura chance para abandonar vida no crime (Foto: Divulgação / ViisionFilm)
Ex-presidiário encontra na literatura chance para abandonar vida no crime (Foto: Divulgação / ViisionFilm)

Morador de Sorocaba (SP) já escreveu cinco romances.
‘Vou de porta em porta, mas vou sobreviver e ser reconhecido’, diz.

Jomar Bellini, no G1

Tráfico de drogas, decepções amorosas e força de vontade. Estes são os principais capítulos da história de um ex-presidiário de Sorocaba (SP) que encontrou na literatura a motivação para abandonar a vida no mundo crime e seguir adiante. Aos 41 anos, após cumprir pena em seis penitenciárias diferentes, Paulo Henrique Milhan abriu a própria editora para publicar suas obras e driblar o preconceito. A vida dele, inclusive, já virou até um filme divulgado na internet (veja o vídeo abaixo).

Natural de Andirá, no interior do Paraná, Milhan é o terceiro de cinco irmãos e mora com os pais em uma casa no Jardim Santa Bárbara, em Sorocaba. Mas é difícil encontrá-lo na cidade: ele começou uma jornada para divulgar, de porta em porta, o último livro, intitulado “Tarde Demais para Acreditar no Amor”.

A história do ex-presidiário começou há mais de 20 anos, quando se envolveu com o tráfico de drogas. “Comecei sem nenhum motivo específico, foi simplesmente ilusão de ganhar dinheiro rápido, ter carros, casas, mulheres, etc”, conta.

A primeira prisão aconteceu em 1995, na cidade natal. “Gastei um bom dinheiro com advogado, então em 20 dias, o processo estava arquivado”, diz ao explicar que depois se mudou para a cidade de Piedade (SP), na região de Sorocaba.

Em Piedade ele trabalhou em uma oficina com o irmão por seis meses, até voltar a investir na venda de entorpecentes e a ser preso novamente em novembro de 1996, desta vez condenado a três anos de cárcere (sendo dois na cadeia e o restante na rua, em condicional).

Escritor passou por seis prisões diferentes e acumula condenações por tráfico de drogas (Foto: Divulgação / ViisionFilm)
Escritor passou por seis prisões diferentes e acumula condenações por tráfico de drogas (Foto: Divulgação / ViisionFilm)

Em 1998, ele foi preso mais uma vez após se mudar para Sorocaba e morar nos bairros Vila Sabiá e Bairro dos Morros – dois lugares que aparecem com frequência nos boletins de ocorrência envolvendo drogas. “Fui condenado a 5 anos e 10 meses de prisão e levado ao Centro de Detenção Penitenciária (CDP) de Sorocaba na ala D cela 9, onde morei por mais de um ano. Depois fui transferido para Avanhandava e Andradina”, relembra.

Desilusão amorosa
Foi com o concurso de poesias na última penitenciária que Milhan começou a escrever. A inspiração saiu de um amor mal resolvido, interrompido pela prisão. “Escrevi a poesia contando a minha história e o meu sentimento de desprezo pela pessoa que eu estava apaixonado, a Jaqueline, e me inscrevi no concurso”. “Desprezo”, explica ele, porque a moça nunca chegou a visitá-lo enquanto estava preso. “Eu escrevia cartas para a Jaqueline, mas elas nunca foram respondidas.”

Por questões pessoais, Paulo decidiu sair do concurso, mas a poesia serviu de base para escrever o seu primeiro romance. “Ela foi como um roteiro. Outros detentos gostaram e começaram a pedir emprestada para escrever para esposas e namoradas que os haviam abandonados na prisão. Após eu criar a poesia, comecei a idealizar o livro”, conta. Devido a temores de uma possível rebelião, o texto não começou a ser colocado no papel.

Milhan ficou preso durante três anos e seis meses, sendo liberado após uma apelação na Justiça. Poucas semanas depois, voltou para o mundo do tráfico, levando droga para a Bolívia.

“Rapidamente comecei a ganhar dinheiro e montar biqueiras novamente, além de abastecer alguns traficantes. Não fiquei nem um ano na rua e fui preso novamente em agosto 2006 quando entregava drogas pra uma mulher que revendia pra mim no Centro de Sorocaba. Eu havia acabado de chegar com 6 kg de pasta base de cocaína pura da Bolívia.”

Paulo nasceu em Andirá, no Paraná, e mora com a família em Sorocaba (Foto: Divulgação/ViisionFilm)
Paulo nasceu em Andirá, no Paraná, e mora com a
família em Sorocaba (Foto: Divulgação/ViisionFilm)

Ilusão e pesadelo
Foi na na ala B, cela 6, do CDP de Sorocaba que ele começou a escrever o primeiro livro, um tipo de romance policial. “A última vez em que fui preso me fez analisar a vida e percebi que muita coisa era ilusão. O final, na vida do crime, é sempre a cadeia ou o caixão, como aconteceu com muitos conhecidos. Além disso, também falo no livro que não podemos deixar de viver por conta de uma desilusão amorosa”, diz.

A última transferência foi para o presídio de Itapetininga (SP), onde, no raio I cela 45, concluiu o primeiro romance e deu início a vários outros. “Mal acabei de terminar de escrever e já estava com o roteiro do segundo livro pronto na cabeça. Assim também foi o terceiro e o quarto. Então sai do presídio, em junho de 2009, com três romances escritos e o quarto já começado”.

Decidido a não voltar para a vida do crime, Milhan começou a trabalhar. Primeiro como auxiliar de limpeza em uma academia, depois motorista de caminhão em uma fazenda de laranja e instalador de sons e acessórios em uma oficina automotiva.

“Nesse período contratei um editora particular para publicar meu primeiro romance, mas foi uma ‘roubada’. Eles não investiram em nada para melhorar o livro ou em uma impressão de qualidade. Então rompi o contrato e abri minha própria editora”, conta. O escritor também chegou a produzir um vídeo contando a sua trajetória de vida, chamado de “Prelúdio da Liberdade” e que pode ser visto na internet. (Veja vídeo acima).

Após conseguir publicar e começar a comercializar os livros em livrarias, hoje Milhan tenta se manter apenas com a sua editora. Ele, entretanto, conta que tem que lutar com o preconceito de carregar o título de ex-presidiário. “Decidi há uns dois meses sobreviver só com os livros. Há muito preconceito e é muito difícil pra um ex-presídiário arrumar emprego. Porém isso não me derruba. Na rua, praças, rodoviárias e se precisar vou até de porta em porta, mas vou conseguir sobreviver com meus livros e ser reconhecido”, diz ele que estava comercializando o material em Campo Grande (MS).

Paulo conta que já foi “tentado” a voltar para o tráfico de drogas, mas preferiu não retornar para a vida no crime. “Confesso, eu fechei todas as minhas portas. Quando olho pra trás e de toda a experiência na vida do crime, tenho uma conclusão: A vida do crime é uma ilusão. A vida do crime é um sonho que quando você acorda, você acorda na realidade de um pesadelo.”

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