Produtor ajuda a levar escola de SP da UTI ao topo do Enem

marcio

Publicado em Folha de S.Paulo

Há pouco mais de uma década e meia, o produtor cultural Marcio Lozano, 32, se matriculava em um colégio cujo fechamento era dado como certo.

A Escola Estadual Prof. Antônio Alves Cruz, em Pinheiros (zona oeste), passava por uma crise.

A gravidade uniu ex-alunos, professores e estudantes, como Lozano, a escola se reestruturou e tornou-se a estadual mais bem avaliada da cidade no Enem (sem considerar as técnicas).

Eu tinha 14 anos quando entrei na Alves Cruz. Era meu primeiro ano do ensino médio. Tinha acabado de sair da escola em que estudei a vida inteira porque, quando entrei na sala de aula, vi amigos fazendo um mapa de assalto a uma farmácia.

A Alves Cruz também tinha uma energia agressiva, de consumo de drogas no pátio, no banheiro. Eu estudava à noite, e a escola tinha pouquíssimos alunos. Sempre ouvi da direção e dos professores que ela iria fechar.

Em 2000, um grupo de ex-alunos dos anos 70 resolveu fazer uma festa para homenagear seus professores.

No processo de produção, descobriram que a escola estava fechando e decidiram que tinham que fazer alguma coisa a respeito.

Aquilo me tocou, vi que tinha algo de interessante a ser feito. Comecei a participar de reuniões no horário da aula, à noite. Éramos só um grupo de pessoas que resolveu defender aquele lugar.

Começamos com um fórum de educação no mesmo ano. Era, no fundo, uma forma de discutir sobre os problemas da escola pública.

Como tinha muita gente mais velha e em várias posições, conseguimos mobilizar a mídia, captar recursos, organizar uma série de coisas.

Concluímos que tínhamos três caminhos a seguir: lutar para reformar o prédio da escola, fornecer para os professores ferramentas para viabilizar o trabalho dentro de sala de aula e ocupar os espaços ociosos da Alves Cruz.

Queríamos que ela fosse aberta para a comunidade nos fins de semana, como forma de dizer que estávamos lá.

Criamos uma ONG, a Fênix, porque precisávamos captar dinheiro. Cada um começou a ajudar com o que sabia fazer.

Fizemos oficinas de produção de velas, violão, mangá. Fizemos campanhas de matrícula no metrô, divulgando as oficinas. Começaram a aparecer alunos, e os projetos trouxeram pessoas para a escola. A Alves Cruz saiu da UTI, mas, mesmo assim, ficou aos trancos e barrancos por alguns anos.

Em 2005, a chegada da Solange [diretora atual] foi um divisor de águas. A escola começou a melhorar nas avaliações oficiais e a ganhar a atenção pública.

Ao mesmo tempo, as atividades de final de semana cresceram, criamos o projeto do maracatu e acho que recebemos umas 10 mil inscrições nas oficinas até hoje.

Depois de alguns anos, a Alves virou um espaço de cultura que não era só do bairro, era da cidade.

Por volta de 2012, a Secretaria de Educação chamou a Solange para uma reunião. Ela foi achando que a escola seria fechada, mas voltou com a notícia de que a Alves foi escolhida para gestar o programa de educação em tempo integral do governo do Estado.

A Alves Cruz era uma escola que ia fechar e agora tinha a oportunidade de ajudar o governo a pensar alternativas para a educação pública. Isso foi muito significativo.

Sempre fui da ONG. Tornar-me diretor da Fênix foi consequência desse percurso de trabalho na escola.

Estou lá em quase todos os finais de semana há 15 anos. E meu filho sempre esteve lá também.

Quando eu era criança, escola pública era sinônimo de escola do governo. Para o meu filho, é o lugar em que a gente vai brincar nos finais de semana. Quando ele chegou no ensino médio e a gente o matriculou na Alves Cruz, foi porque era uma escola boa.

E nós somos a escola. Cada pessoa interessada em cuidar daquele lugar e trabalhar por esse objetivo é a escola.

Eu me sinto feliz e responsável. Não pelo que passou, mas por continuar mantendo aquele lugar, porque o trabalho não tem fim. Enquanto pudermos, temos que continuar dizendo isso às pessoas: é preciso cuidar das escolas.

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