Para especialista, ensinar não deve ser visto apenas como uma arte

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Fábio Mazzitelli, em Folha de S.Paulo

A melhoria da qualidade do ensino público no país passa pela mudança da ideia de que educar é uma arte ou um sacerdócio.

Esse olhar conceitual foi um dos principais pontos abordados por especialistas que participaram, no último dia 12, de debate promovido pelo Instituto Unibanco, em São Paulo.

“É muito comum ouvir nas faculdades que educação é uma arte”, afirmou o ex-professor e diretor de escola pública Alexsandro Santos, que hoje trabalha como consultor técnico para educação na Câmara Municipal de São Paulo.

“Precisamos transitar da noção de ‘arte de ensinar’ para a de ‘profissional de educação’, o que significa encarar os protocolos não como um controle ‘malvado’ do trabalho, mas como algo para dar segurança dos procedimentos básicos da atividade”, disse Santos.

De acordo com o pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais Nigel Brooke, todos os processos de implementação de avaliação externa provocaram alterações nas escolas ao longo dos últimos 20 anos. “Cada vez mais se entende esses números, mas é preciso encontrar uma forma de interpretá-los adequadamente e fazer uso desses resultados.”

Brooke também pontuou as principais críticas à gestão educacional para resultados feitas pela perspectiva dos professores, como por exemplo eventuais “efeitos perversos” que reduziram as definições de qualidade, de currículo e do ensino como um todo.

Para ele, parte de tais questionamentos podem ser superados com o real entendimento da política educacional. “Descobrimos ao longo desses anos o quão pouco os professores entendem desse material.”

 

RESPONSABILIDADE

Para quebrar a eventual resistência de docentes à gestão para resultados, é necessário, na visão dos especialistas, que outros elos da cadeia educacional chamem para si as respectivas responsabilidades, como os secretários de Educação e os supervisores de ensino.

“O supervisor é o responsável por levar à escola a ordem de mudança do dia, do projeto que foi escolhido pelo órgão responsável como prioridade ou como política, geralmente visando a melhoria dos resultados”, lembrou Nigel Brooke.

“Havendo resistência entre escola e secretaria, é claro que esse papel de agente de mudança [do supervisor] fica muito mais difícil”, disse.

Gerente de ensino médio da Secretaria de Educação do Espírito Santo, a pedagoga Andréa Guzzo Pereira expôs um exemplo de como a pactuação bem feita de metas de desempenho e da gestão para resultados na escola pode surtir efeitos positivos.

Em pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Pernambuco, com dados de 2009 do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), as escolas públicas do Estado com as maiores notas atribuíram o bom desempenho ao comprometimento do professor e ao esforço de todos, incluindo da administração da escola.

Os colégios com menor Ideb, por outro lado, justificaram os resultados citando fatores externos, como condições precárias da comunidade e problemas estruturais.

“O grande desafio é dar meios para a escola fazer suas escolhas dentro do sistema”, afirmou Andréa.

O consultor Alexsandro Santos acredita que é possível melhorar a aplicação das políticas públicas em educação prevendo algumas das alterações sofridas ao longo do processo de implementação delas.

O consultor Alexsandro Santos acredita que, para tornar as políticas públicas de educação mais eficazes, uma boa estratégia seria tentar prever quais alterações elas podem sofrer ao longo de seu processo de implementação.

“A política elaborada no gabinete será sempre reformulada a cada nível que descer, até chegar ao dia a dia da escola”, diz Santos. “É preciso definir padrões de qualidade, protocolos de trabalho e mecanismos de monitoramento e avaliação”, afirmou Alexsandro.

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