David Nicholls: “Detesto livros que pretendem nos dizer como a vida é”

O autor visitará o Brasil em setembro, na Bienal do Livro do Rio Foto: Chal Shinnie / Divulgação
O autor visitará o Brasil em setembro, na Bienal do Livro do Rio Foto: Chal Shinnie / Divulgação

Leia entrevista com o escritor britânico David Nicholls, autor de “Um Dia” e “Nós”

Alexandre Lucchese, no Zero Hora

Autor do best-seller Um Dia (2009), que se tornou filme estrelado por Anne Hathaway em 2011, o escritor britânico David Nicholls tem data para conhecer o Brasil. No dia 5 de setembro, ele estará na Bienal do Livro do Rio para divulgar seu novo romance, Nós, sobre o qual conversou por telefone com o 2º Caderno.

Nós é um livro sobre o fim de um casamento, mas também é uma narrativa de viagem, pontuada com humor. Foi uma opção consciente falar de um tema pesado com leveza?

Quando comecei como escritor, já escrevia comédias para a TV. A comédia é algo instintivo para mim, mesmo quando escrevo roteiros para projetos sobre temas mais obscuros, como solidão, envelhecimento e fins de relacionamentos. Eu não havia viajado muito até as turnês de promoção de Um Dia (best-seller lançado em 2009). A partir daí, fiquei empolgado para fazer um livro sobre os aspectos difíceis das viagens, que podem ser estressantes e desastrosas.

E também é um modo de dar mais movimento a uma história muito íntima, que poderia ser monótona caso se desenrolasse em um mesmo lugar.

Exatamente. O maior desafio para quem quer escrever sobre amor, família e relacionamento é manter a história empolgante. Há uma grande tradição de comédia sobre o cotidiano na Grã-Bretanha, mas queria escrever algo com aventura, meio épico.

Um Dia virou filme. Você já pensou em escrever uma sequência, transformá-lo em uma série?

Muita gente me pede isso, mas não sei como poderia ser desenvolvida ou melhorada uma história que, para mim, acabou definitivamente. Além disso, Um Dia tem uma estrutura que só pode ser usada uma vez: os capítulos narram um dia a cada ano na vida dos personagens. O que eu poderia fazer para continuar? Escrever o dia de amanhã? Os próximos 20 anos? Isso faz com que não consiga voltar a essa história, por mais que goste dela.

Você também é roteirista. Quando escreve um livro, pensa que ele poderá se tornar filme?

Não. Quando tenho uma história, penso muito para decidir onde funcionará melhor. Há benefícios e problemas diferentes que a ideia terá de enfrentar ao ir para as telas ou se tornar um livro. Na tela, é difícil mostrar as pessoas envelhecendo, por exemplo, e você precisa contar uma história em duas horas. As melhores piadas de um livro não estão nos diálogos, é preciso pensar de que modo podem funcionar na tela. Por outro lado, claro que sou muito influenciado pelo cinema, por isto meus romances têm muito movimento. Mas não acho que livros devem ser tratados como filmes não realizados, e sim como… livros.

Escrever é um modo de encontrar soluções para suas próprias questões?

Nunca encarei a escrita como uma terapia, e certamente nada do que já escrevi me deu alguma resposta. Inevitavelmente escrevemos sobre o que acontece conosco, o que nos assusta e nos mantém acordados à noite, no entanto jamais abordei essas coisas diretamente. Acredito que bons livros nos fazem olhar melhor para nossas perguntas, mas sem trazer respostas. E é bom que seja assim. Detesto livros que pretendem nos dizer como a vida é.

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