Flanelinha escreve livro de 800 páginas e sonha com publicação

Apesar de gostar de literatura, Zélia Guimarães não concluiu os estudos.
Aposentada de Sorocaba de 71 anos quer ter livro nas escolas brasileiras.

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Publicado em G1

Um papel, uma caneta e a inspiração no vai e vem dos carros. É assim que Zélia Rodrigues Ferreira tenta realizar o sonho de se tornar uma “poetisa da rua”. Flanelinha, a aposentada de 71 anos cuida dos veículos no centro de Sorocaba (SP) e aproveita para buscar um sonho: ter o seu livro de ficção de mais de 800 páginas publicado e nas mãos de crianças de todo o Brasil.

“Deixem-me sonhar” é o título do livro de ficção escrito em casa pela poetisa que não concluiu os estudos. “Eu preciso me fazer feliz. Sempre gostei de literatura. Na minha época só tinha até a quinta série, fiz até a quarta. Era muito boa em português, a melhor aluna da sala. Ajudava até a professora, nasci com esse dom. Mesmo fora da escola, nunca perdi o interesse em ler”, afirma Zélia.

Após ter os estudos interrompidos para ajudar a família, Zélia voltou à escola para fazer um supletivo e, enfim, conquistar o diploma do ensino fundamental. Foi quando decidiu, por influência de um professor, se dedicar a literatura, mas ela novamente teve que abandonar os estudos para se dedicar ao trabalho e aos filhos.

“Com 12 anos comecei a escrever meu primeiro livro e, com 14, fiz um poema para o meu primeiro namorado. Sempre usei cadernos para colocar minhas histórias no papel, mas acabei perdendo muita coisa mudando de casa. Tive que parar de escrever para trabalhar. Quando estava no supletivo, uma professora me incentivou muito para me dedicar a esse sonho de ser escritora”, conta a poetisa.

Histórias nas ruas
Apesar do incentivo na escola, as dificuldades financeiras têm atrapalhado Zélia na elaboração de mais obras. Com vários rascunhos em casa, a aposentada tem que trabalhar todos os dias como flanelinha para poder complementar a renda e pagar o aluguel da casa onde mora. “Não tenho como ganhar dinheiro de outra forma. Não acredito que olhar carro na rua seja um trabalho ilícito. Não tenho casa própria, ganho um salário mínimo e pago um aluguel alto para morar em uma casa que considero ruim. Mas a rua te permite conhecer histórias, viajar na imaginação e se inspirar a escrever outras coisas.”

Aos 71 anos, Zélia mora sozinha em uma casa alugada na Zona Norte de Sorocaba. Mãe de três filhos, avó de três netos e com uma bisneta, a flanelinha conta que a grande influência e motivação para escrever são as crianças. “Espero que esse livro ajude as crianças, penso e aprendo muito com elas. Tudo que faço é dedicado as crianças. Não precisa ser um best-seller, mas tem que ser divulgado. Gostaria muito que as bibliotecas das escolas pudessem ter esse livro para as crianças. A leitura é o caminho para a educação e a valorização da natureza, que temos perdido a cada dia.”

As mais de 800 páginas escritas em oito cadernos relatam a história de uma criança que se perde na cidade de “Dedolândia”. Levado para lá por uma borboleta, patriota e que se sente injustiçada pela falta de respeito do homem com a natureza, vive aventuras no reino encantado. “O personagem principal, que se chama Enzo, é o meu neto. Pensei nele e nos seus olhos encantados para imaginar essa história. Ele fala de coisas que o ser humano perdeu com o tempo. É a ficção e a realidade próximas uma das outras”, diz Zélia.

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One thought on “Flanelinha escreve livro de 800 páginas e sonha com publicação

  • 9 de setembro de 2015 em 9:22
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    Poxa que maravilha. Bom quando sonhos não morrem, mesmo através das dificuldades. Em tempos onde histórias fúteis viram best-sellers, espero que ela tenha uma chance com alguma editora. Deus abençoe.
    Ps: ótima matéria.

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