Jovem da periferia de SP é aprovado em faculdade de elite nos EUA

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Publicado em Folha de S.Paulo

O Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, é um dos bairros mais pobres da cidade. De acordo com a pesquisa DNA Paulistano, do Datafolha, 35% das famílias ganhavam até R$ 1.244 em 2012 e 42% da população tinha apenas o ensino fundamental completo.

Foi lá onde cresceu Gustavo Torres, 17. Ele estudou a maior parte da vida na rede pública estadual e foi, neste mês, estudar na Universidade Stanford (EUA), uma das mais prestigiadas do mundo.

Fui criado no Capão Redondo e estudei até a oitava série em escola pública. Na sexta série, minha professora de matemática contou de um processo seletivo que me daria bolsa de estudos. Tentei e ganhei a bolsa.

Sempre fui o nerd da sala. Nos últimos anos, comecei a ajudar bastante o pessoal da escola a estudar, até o pessoal do fundão. Quem era visto como bagunceiro começou a tirar nota alta em matemática.

No ensino médio, fui estudar integralmente na escola particular. Era muito melhor. O engajamento dos alunos era maior. A realidade era diferente da minha, então tive desafios na adaptação.

Meus pais não teriam condição de pagar esse colégio. Minha mãe é cuidadora de idosos e meu pai é técnico em elétrica. Mas deu muito certo e consegui fazer amizades boas. A gente se ajudava. Fui bem-sucedido.

Em 2013, recebi um e-mail falando de um programa de férias de três semanas em Yale. Era bem caro, custava US$ 7.000, mas tinha uma parte reservada para bolsas.

Só que ia ter competição no mundo todo, e era difícil conseguir. Pensei: qual é a chance de eu, do Capão Redondo, conseguir isso? Aquilo foi me incomodando e decidi tentar.

Procurei ajuda e ralei muito para conseguir fazer o processo todo. Deu certo, consegui a bolsa e fui para Yale.

Quando pisei lá, falei: cara, se do Capão Redondo eu estou aqui em Yale, a partir de agora qualquer coisa vai ser possível. Foi bem importante para mim, porque eu estava acreditando mais no meu potencial.

Decidi estudar fora porque sabia que ia ser um desafio enorme. Fui aprovado em Columbia, Duke, MIT, Harvard e Stanford, todas nos EUA. No Brasil, fui aprovado na USP, em engenharia elétrica, e na UFSCar (federal de São Carlos), em engenharia física.

Escolhi ir para Stanford. Consegui uma bolsa da própria faculdade que paga 91% dos gastos que vou ter lá, anuidade, moradia, alimentação, seguro-saúde.

Ninguém sabe como vai ser, é uma coisa completamente nova. Meus pais estão muito felizes por mim, mas com aquele frio na barriga.

O maior desafio que as pessoas que crescem em periferia enfrentam é a falta de acesso a oportunidades e a falta de conhecimento sobre oportunidades.

Justamente por não saber que é possível a gente não tenta. A tendência é o sonho não ser grande, é se contentar com pouca coisa.

Sou uma exceção, porque não é todo dia que alguém do Capão passa em Stanford, mas não sou uma exceção no sentido de capacidade.

Acredito que qualquer pessoa poderia ter feito isso. Eu estava no lugar certo, na hora certa, tive oportunidades muito marcantes.

Um dos meus objetivos é conseguir democratizar isso, conseguir que isso não seja mais uma exceção, que as pessoas consigam concretizar o potencial delas para conquistar coisas tão grandes ou maiores que isso.

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