Ex-limpador de chão da Unifor se forma em Educação Física e hoje é dono de assessoria esportiva

Anderson Monteiro chegou a ser recriminado entre colegas de sala por trabalhar com limpeza na faculdade. Com garra, concretizou seu sonho

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Publicado em Tribuna do Ceará

Ele limpava o chão, catava folhas e galhos de árvores, além de andar na caçamba de um caminhão juntando lixo no campus da universidade que trabalhava. “Meus amigos da faculdade quando me viam com uniforme de serviços gerais fingiam não me conhecer e chegavam a virar o rosto. Aquilo me doía muito, mas em nenhum momento me arrependo de ter começado de onde comecei”, relembra o assessor esportivo Anderson Monteiro, de 30 anos.

O ex-frentista, que já foi sequestrado no posto de gasolina que trabalhava, também já foi do setor de limpeza da Universidade de Fortaleza (Unifor). O rapaz de fala mansa e sorriso fácil mostra que a persistência em um sonho vai além de preconceitos e dificuldades. Com muito trabalho, garra e suor, hoje concretizou seu desejo de trabalhar e viver do que ama: o esporte.

O início

“Eu sempre quis fazer Educação Física, e meus pais sempre que podiam me ajudavam. Comecei a trabalhar ajudando eles em um mercadinho que tínhamos na Paupina [bairro de Fortaleza]. Depois fui trabalhar em um posto de gasolina, onde passei por um dos piores momentos da minha vida”, recorda o educador físico que, na época durante o serviço, foi assaltado e sequestrado. “Depois disso vi que aquele trabalho não dava pra mim”.

Decidido a investir no seu futuro, Anderson soube que a Unifor dava desconto na mensalidade para os funcionários. “Não pensei duas vezes e arrisquei uma vaga”.

“Meus amigos da faculdade quando me viam com uniforme de serviços gerais fingiam não me conhecer e chegavam a virar o rosto. Aquilo me doía muito”. (Anderson Monteiro)

Em 2004 ele conseguiu o emprego, entrou na empresa como auxiliar de serviços gerais. “Nos três primeiros meses eu era da caçamba, isso foi pra ver se eu aguentava. Até entulho tinha junto, mas eu não desisti”, lembra. Um ano depois prestou o vestibular para Educação Física na própria instituição, e passou.

O abate nas mensalidades por ser funcionário propiciou ao jovem estudar o que tanto gostava. Esse foi só o começo da trajetória. Mesmo com a felicidade de ter conseguido o que almejava, algo machucava o aspirante à educador físico: a indiferença das “amizades”. Na sala de aula, os colegas agiam naturalmente com ele, mas bastava o expediente de Anderson começar e os amigos o verem limpando o chão da biblioteca que tratavam-no como um desconhecido. “Até chorava pelo constrangimento, às vezes penso que isso foi uma prova pra ver se eu saia. Não sai”.

Graças a seu empenho, Anderson passou a mudar de funções dentro da universidade, saiu da limpeza e foi para biblioteca, academia. Depois virou auxiliar na área de odontologia e assistente administrativo. “Estagiei também com iniciação esportiva na prefeitura. Depois consegui passar numa seleção do Serviço Social da Indústria e em outra da Esmaltec”, pontua.

Quando, enfim, chegou ao seu objetivo – atuar em assessoria esportiva -, ele decidiu que estava na hora de montar seu próprio negócio. Afinal, conhecimento ele já tinha de sobra. Se formou, em 2010, e apostou nele mesmo.

AM Assessoria Esportiva

“Comecei do zero, literalmente. Só tinha uma moto, que me levava para todo lugar atrás de patrocínio para fazer as camisas, arranjar uma tenda, garrafas essas coisas. Não queria oferecer um serviço de qualquer jeito, queria fazer diferente. Um colega meu se ofereceu para ajudar”, frisa. No primeiro mês, Anderson e o sócio só tinham um aluno, o que fez o colega do assessor desistir da parceira. Não botou fé no negócio.

Anderson continuou e, hoje, a AM Assessoria Esportiva, como foi batizada em 2011, ano de sua criação, conta com 70 alunos, outro professor formado e dois estagiários para dar conta do trabalho. O carro-chefe da assessoria é o treinamento de caminhada e corrida, que forma novos atletas a cada dia. A AM atualmente atende na Beira Mar, Cambeba, Messejana, Shopping Rio Mar, no Papicu e no Iguatemi, no bairro Edson Queiroz.

“Mesmo nas dificuldades não podemos desistir dos nossos sonhos, sabe. Hoje eu vejo isso, tudo que passei, tudo que vivi e as pessoas que acreditaram em mim me ajudaram a ser quem sou. Nunca mudei meu jeito, e com humildade, hoje posso ajudar as pessoas a realizar seus sonhos também, como treiná-los para participar de corridas e até concursos públicos”. O limpador de chão venceu.

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