Meg Cabot: “Escrever um livro é como planejar uma viagem”

Meg Cabot escreveu Diário de Princesa
Meg Cabot escreveu Diário de Princesa

Debora Rezende, no UOL

Ela tem uma gata de um olho só chamada Henrietta, mais de 25 milhões de cópias vendidas e um fraco por caipirinha. A escritora americana Meg Cabot, famosa pela série O Diário da Princesa, que comemora seu 15º aniversário este ano, aterrissa dia 18 na Bahia para participar da quinta edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira, e aproveita sua passagem pelo Brasil para lançar O Casamento da Princesa, décimo primeiro volume da história de Mia Thermopolis, agora na casa dos 20 e poucos anos e prestes a se casar. Entre uma viagem e outra, a escritora conversou com A TARDE sobre carreira, processo criativo e literatura para jovens adultos.

Você tem mais de 80 livros publicados, tanto em séries quanto em tramas únicas. Como escritora, qual a diferença na abordagem?

Às vezes a história aparece na cabeça de um escritor e ele sabe que vai levar apenas um livro para contar (como em Avalon High ou O Garoto da Casa ao Lado). Às vezes (como em O Diário da Princesa e A Mediadora), sei que vai levar vários livros até que a história esteja terminada. Com séries ficcionais, é divertido revisitar mundos e personagens conhecidos. Quando escrevo um livro único, amo inventar um mundo novo e povoá-lo com personagens novos.

Ao começar uma história, qual a primeira etapa do seu processo criativo?

Primeiro, eu penso no final. Para mim, escrever um livro é como planejar uma viagem. Eu sempre quero saber meu destino final. Mas não preciso saber todos os detalhes antes de começar. Isso seria tedioso.

Antes de ingressar na escrita, você se envolveu com a ilustração. Quando decidiu mudar o rumo da carreira?

Embora eu sempre tenha escrito histórias (especialmente fanfiction de Star Wars), nunca planejei me tornar uma escritora, porque sempre ouvi que era praticamente impossível ganhar dinheiro. Decidi estudar ilustração, e me mudei para Nova York quando me formei. Logo descobri que ilustrar é quase tão instável quanto escrever. Felizmente, consegui um emprego como assistente administrativa de um dormitório na Universidade de Nova York, o que me deu tempo livre para retomar um dos meus hobbies favoritos: escrever. Eu era muito tímida para enviar meus livros para agentes/editoras, porque tinha medo de que fossem rejeitados. Mas meu marido e amigos me encorajaram. E os livros foram rejeitados literalmente mil vezes, mas como eu não tinha mais nada para perder, continuei escrevendo novas histórias, submetendo-as. E, finalmente, uma foi vendida. E aqui estou eu hoje.

Durante a leitura das suas obras, é fácil se conectar com os personagens. Você sente isso enquanto escreve?

Sempre me sinto próxima do personagem que estou escrevendo sobre, e aquele é meu favorito. Então eu sigo para o próximo livro, e ele se torna o que mais gosto. Acho que você precisa dizer isso a si mesmo quando está trabalhando em um livro (ou qualquer projeto) ou nunca vai terminar.

Você se tornou Patricia Cabot para sua avó não saber que escrevia temáticas adultas em romances históricos. Também estava preocupada em manter estes livros longe das crianças e adolescentes?

Eu nunca considerei que isso poderia ser um problema, porque nunca pensei que estaria escrevendo livros para crianças e adolescentes. Eu lia vários livros dos meus pais quando criança – os livros de espião do meu pai, os romances da minha mãe – e eles nunca se importaram, porque, quando me sentia desconfortável com o tema do livro, pulava aquela parte ou mudava para outro (ainda faço isso!). Leitores (mesmo crianças) são bons em descobrir seus limites. A única coisa que já me aconteceu como consequência dos meus pais me permitirem liberdade para ler foi que me tornei uma escritora best-seller.

Você tem livros para crianças, adolescentes e adultos. Como autora, qual a diferença entre as faixas etárias?

Os livros Allie Finkle e From the Middle School Princess são para jovens leitores, o que significa que são curtos e o tema é apropriado para leitores de oito anos para cima. Para mim, isso significa sem sexo ou profanidade, e uma linguagem mais simplificada, já que você não quer que a criança jogue o livro para baixo em frustração porque ele ou ela não conseguiu entender as palavras. Nos meus livros para jovens adultos, que são para leitores de 12 anos ou mais, geralmente tem-se a marca das 300 páginas, e o tema e a linguagem podem ser mais maduros. Nos livros adultos, pode-se ter mais de 400 páginas, e, basicamente, tudo entra. Mas você tem que manter o bom gosto, é claro.

Celebramos em 2015 o aniversário de 15 anos do primeiro livro da série O Diário da Princesa. Para marcar a data, você escreveu um novo romance, dessa vez sobre o casamento dos protagonistas. Por que resolveu trazer essa parte da história da Mia?

Os fãs têm me pedido por anos para escrever sobre Michal e Mia de novo. Quando vi o Príncipe William casar com a Kate Middleton, comecei a pensar como seria o casamento deles. Enquanto o da Kate com o William correu sem nenhum problema, eu sabia que Michael e Mia não seriam tão sortudos. E, claro, pensei que seria maravilhoso ver Mia e suas amigas com seus 20 anos, lutando para encontrar um trabalho. E estava ansiosa para ver como a Grandmere estava indo. Do mesmo jeito, descobri.

Você é um nome de peso na literatura para jovens adultos. O que mais te motiva a escrever para esse público?

Amo escrever para adolescentes porque eles estão em um momento em que está tudo bem não ter se decidido sobre quem querem ser e o que vão fazer. Ainda que secretamente muitos de nós, adultos, nos sentimos do mesmo jeito, não somos permitidos a mostrar isso. Mas quando você é jovem, está tudo bem ainda estar aprendendo quem você é, o que você gosta de fazer, o que te deixa feliz. Eu gosto de escrever sobre pessoas que estão descobrindo isso, e acho que é bom para as pessoas que estão aí fora ouvir a mensagem de que está tudo bem não ser perfeito. Nenhum de nós é.

Você se relaciona bem com os leitores do Brasil no seu blog e Twitter. Mas, em termos da nossa literatura e música, por exemplo, como você se relaciona com a cultura local?

Preciso admitir, o que eu mais gosto sobre o Brasil são as pessoas. Eles são tão calorosos e extrovertidos, e sempre dizem exatamente o que pensam. Já visitei muitos lugares onde as pessoas são tão reservadas, você não pode dizer se gostam de você ou não. No Brasil, definitivamente não tem esse problema. Adoro isso. Claro que também amo a comida – churrasco é o meu favorito, e eu adoro um bom rodízio (falei isso certo? Não me julgue! Você sabe o que eu quero dizer!). Nós não temos isso na América. E quem não ama a caipirinha? Embora eu não possa beber muitas. E sobre escritores e músicos brasileiros favoritos, tenho adoração pela Clarice Lispector, e gosto de colocar Céu para tocar quando tenho companhia para jantar. Isso deixa todo mundo em um bom, relaxado humor.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *