As histórias infantis de James Joyce

Além de romances celebrados e desafiadores para o leitor adulto, o escritor irlandês escreveu para crianças – textos cheios de ironia, jogos de palavras e felinos

Ruan de Sousa Gabriel, na Época

Stephen tinha 4 anos e morava com os pais em Villers-sur-­Mer, na França, quando recebeu uma carta do avô, um irlandês que morava em Paris. Ele vivera alguns anos na Itália, preferia ser chamado de Nonno e gostava de nomes italianos (seus filhos, o pai e a tia de Stephen, chamavam-se Giorgio e Lucia). Na carta, enviada em 10 de agosto de 1936, o avô contava a história do gato de Beaugency, uma cidade francesa às margens do Rio Loire que precisava desesperadamente de uma ponte. O diabo faz um trato com o prefeito: construiria a ponte, mas com um preço – a alma do primeiro que a atravessasse. E o primeiro a caminhar pela ponte foi um gato. Nonno gostava dos felinos, por ter sido atacado por um cachorro na infância. Já havia presenteado o neto com um gatinho de brinquedo recheado de doces, uma espécie de cavalo de Troia para despistar os adultos. O nome do vovô brincalhão e contador de histórias era James Joyce (1882-1941), um dos maiores expoentes da literatura em todos os tempos.

NO COLO DO VOVÔ James Joyce e seu neto Stephen em 1932. Gatinhos são os protagonistas das histórias infantis que o irlandês escrevia (Foto: Bettmann/Corbis)
NO COLO DO VOVÔ
James Joyce e seu neto Stephen em 1932. Gatinhos são os protagonistas das histórias infantis que o irlandês escrevia (Foto: Bettmann/Corbis)

Semanas depois, Joyce enviou outra história ao neto, inspirada em sua viagem à Dinamarca, uma terra que ele considerou cheia de policiais preguiçosos e escassa em gatos. As duas histórias, O gato e o diabo e Os gatos de Copenhagen, estão reunidas num livro (40 páginas, R$ 38) com lançamento marcado para 22 de outubro pela Lumme. A pequena editora de Bauru, interior de São Paulo, é responsável por uma nova leva de traduções da obra de Joyce – incluindo os livros adultos. A equipe de tradutores, liderada por Eclair Antonio Almeida Filho, professor da Universidade de Brasília (UnB), só não se atreverá a retraduzir Ulysses, a obra-prima do autor.

Joyce publicou Ulysses em 1922, dez anos antes do nascimento de Stephen. A epopeia do judeu Leopold Bloom, um marido traído que vaga pelas ruas tortuosas de Dublin, capital da Irlanda, num dia de junho de 1904, desafia os leitores mais esforçados por sua linguagem elaborada e repleta de referências. Uma das marcas do romance – e de toda a literatura de Joyce – é o fluxo de consciência, uma técnica que procura transcrever o processo de pensamento do personagem misturando raciocínio e impressões subjetivas. O resultado rompe as regras de construção gramatical e a pontuação. Nos contos para o neto, Joyce simplificou a linguagem e encurtou os parágrafos, o que pode reaproximá-lo do leitor que não conseguiu transpor as mais de 1.000 páginas de Ulysses.

Joyce criou histórias sobre gatinhos para agradar às crianças que tinha em casa. A pressão de pequenos leitores levou outros grandes autores a escrever para o público infantil. Clarice Lispector publicou quatro livros para crianças a pedido de seus filhos, Pedro e Paulo. Os filhos de Oscar Wilde se deleitavam com as fábulas que o pai criava (leia no quadro abaixo). Joyce também compôs poemas para sua filha Lucia e reescreveu fábulas do francês Jean de La Fontaine (1621-1695). As versões joyceanas de A raposa e as uvas e A formiga e a cigarra foram incluídas em Finnegans wake, o romance em que ele trabalhava quando escreveu sobre os gatinhos. Apesar da linguagem apropriada para crianças e despida de experimentalismo, outras características marcantes de Joyce aparecem nos contos infantis: a oralidade, os jogos de palavras, a dualidade, a música, a subversão da realidade, o uso de vários idiomas e a ironia. “A oralidade, ligada ao fluxo de pensamento, é uma marca do estilo joyceano, mas se perde em algumas traduções”, afirma Almeida Filho, o tradutor dos continhos. “Há uma tendência de complicar o que não é complicado em Joyce, como se o leitor já esperasse dele uma linguagem difícil”, afirma. Ele agora se debruça sobre Finnegans wake, cuja nova edição brasileira ganhará um título triplo: Vigília/Incelença/Elegia para Finnegan.

(Fotos: Bettmann/Corbis, Corbis, W. & D. Downey/Hulton Archive/Getty Images, Arquivo/Estadão Conteúdo)

Os jogos de palavras repletos de subentendidos e referências também divertem nas histórias felinas. No original, o “senhor prefeito”, que faz negociatas com o cão, é chamado de “lord mayor”. Aos ouvidos ingleses, “lord” remete também ao Senhor Deus, velho inimigo do diabo engenheiro. Joyce, o Nonno, gostava de experimentar com diferentes idiomas e inventou uma língua falada apenas pelo diabo: Bolzebubabebil. Mesmo quem não é poliglota ou já passou da primeira infância se diverte ao tentar ser fluente nesse idioma. O diabo também arrisca um francês meia boca, traduzido em notas na edição da Lumme. O humor e a ironia agradam a leitores adultos. Os gatos de Copenhagen é uma fábula sobre uma cidade onde nada é o que parece. “Um leitor adulto (e, sem dúvida, uma criança muito inteligente) lê Os gatos… como um texto contra o sistema, crítico dos fat-cats (gananciosos ou corruptos, na gíria inglesa) e de algumas autoridades, e que defende o exercício do bom-­senso, da individualidade”, disse ao jornal britânico The Guardian Anastasia Herbert, responsável pela primeira edição do livro, em 2012.

Os gatos de Copenhagen foi publicado pela Ithys Press, uma pequena editora dublinense, com uma tiragem de 200 cópias que custavam entre € 300 e € 1.200 cada. A carta em que o irlandês escrevera o conto foi doada à Fundação James Joyce de Zurique, na Suíça, por Hans Jahnke, filho da madrasta de Stephen. O presidente da Fundação, Fritz Senn, reclamou da publicação do conto sem sua autorização e alegou violação de direitos autorais. A obra de Joyce estava em domínio público desde o início de 2012. Mas, segundo a Fundação, o domínio público abrangia apenas as obras já publicadas. A controvérsia não envolveu O gato e o diabo, cuja primeira edição data de 1965.

Stephen James Joyce, o neto que recebeu a carta sobre o gato em 1936, completou 83 anos em fevereiro e vive na França com a mulher, Solange. O casal não tem filhos. Stephen é o último descendente vivo do escritor irlandês e administrador de seu espólio literário. Antes que a obra de seu avô caísse em domínio público, ele deu muita dor de cabeça a biógrafos, editores e acadêmicos. Ameaçava processar qualquer um que ousasse citar trechos de Joyce. A fúria do herdeiro atingiu até o governo da Irlanda por propor leituras públicas de Ulysses num festival em homenagem ao escritor. Melhor seria terem sugerido leituras de O gato e o diabo ou Os gatos de Copenhagen. A lembrança das cartas e dos doces escondidos em gatinhos de brinquedo talvez amolecesse o coração de Stephen. E seria uma maneira agradável de apresentar James Joyce a leitores novatos. “É bom começar pelos livros infantis”, afirma Almeida Filho. “Neles, já encontramos todo o universo de Joyce, um contador de histórias irônico e contestador.” E apaixonado por gatos.

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