‘Farei prova com a alma’, diz haitiano que fará o Enem pela 1ª vez em MT

Ele deixou mulher, 3 filhos e pais no Haiti e pretende cursar de engenharia.
Cerca de 6 haitianos do Ceja Almira de Amorim Silva farão o vestibular.

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Publicado em G1

Vivendo em Cuiabá há um ano e oito meses, Carnes Iloizes, de 37 anos, é um dos seis haitianos que estudam no Centro Educacional de Jovens e Adultos (Ceja) Professora Almira de Amorim Silva, o Bairro CPA 3, em Cuiabá, e farão o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste final de semana.

Ele conta que deixou três filhos pequenos, mãe, pai e irmãos no Haiti para tentar uma vida melhor no Brasil. Antes de chegar ao país, passou pela República Dominicana, Equador e Peru.

Depois que chegou a Cuiabá, ele nunca mais voltou ao país de origem e só se comunica com a família por mensagens em um aplicativo de mensagens de celular. “Nós [haitianos] vimos e sentimos que o Brasil oferece oportunidades e está de braços abertos para nós. Por causa disso, vim para cá para continuar meus estudos e trabalhar”, afirmou.

Ele trabalha na construção civil, na capital. Ilozier confessa que gosta de física e matemática e que a grande dificuldade é o português.

“Minha maior dificuldade é o idioma e a matéria de língua portuguesa. Às vezes, escrevo alguma coisa e acho que está bom, mas daí o professor vem e corrige”, disse.

Sobre o Enem, ele afirma estar tranquilo e confiante na conquista de uma vaga. “Não estou nervoso, nem um pouco. Quero ser aprovado e farei a prova com a alma. Deus vai me ajudar, tenho certeza”, relata sorridente.

O também haitiano Anel Monelus, de 27 anos, está no Brasil há dois anos e meio e já fala o português quase que fluentemente. A família dele trabalha com agricultura no Haiti e ele deixou o país devido à falta de perspectiva.

“Cursava economia quando decidi viajar para o Brasil. Estava no 3º ano. O problema de lá é que você termina uma graduação, mas não vê futuro na carreira”, explica.

Trabalhador do setor de construção civil em Cuiabá e quer cursar engenharia civil na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Monelus reitera a posição do colega compatriota e afirma que a língua é a maior dificuldade, mas suaviza a questão. “A prova, na verdade, será difícil para todo mundo. E todos estarão nervosos, inclusive os brasileiros”, avaliou.

Único ponto negativo de se viver no Brasil é a distância da família e amigos, segundo ele. “Não troco Cuiabá por nada”. Ele relata que o calor na cidade é igual ao do Haiti e que a violência por aqui é menor do que a de lá.

Dedicação
Segundo a diretora do Ceja Professora Almira de Amorim Silva, Marisa Giraldelli, a escola oferece aos haitianos a oportunidade de serem inseridos no contexto cultural brasileiro. “O trabalho mais importante que realizamos é o de integração. Eles chegam aqui e precisam de um ambiente para se sentirem incluídos”, explica.

Cerca de 50 haitianos estudam na escola em diferentes turmas e áreas do conhecimento, por causa da didática da instituição. De acordo com ela, eles são extremamente inteligentes e educados. “Eles falam ‘com licença’ e ‘por favor’ para tudo, é muito bacana”, revelou.

Para auxiliar no processo de adaptação e aprendizado da língua portuguesa, a escola conta com o professor Rafael Alexandre Lira, que fala crioulo. Rafael, que fez trabalhos voluntários por nove meses no Haiti, explica que lá todos os materiais didáticos estão em francês, mas que, entre eles, a língua falada majoritariamente é o crioulo.

Para ele, a característica mais marcante dos haitianos é a alegria. “É impressionante a força de viver e a felicidade que eles têm. Apesar das dificuldades que eles passam, é raro você vê-los sem um sorriso no rosto”, conta.

As provas
No sábado, dia 24, serão realizadas as provas de ciências humanas e ciências da natureza, com duração de 4 horas e 30 minutos. No domingo, 25, será a vez de linguagens, matemática e redação, com duração de 5 horas e 30 minutos.

Inscritos
Até esta quinta-feira (22), cerca de 26% dos inscritos em Mato Grosso, o que equivale a 37,6 mil pessoas ainda não haviam acessado o cartão de confirmação na Página do Participante no endereço enem.inep.gov.br/participante.

O cartão informa o horário e o local onde o candidato fará as provas, no sábado (24) e domingo (25). No estado, 176,5 mil pessoas se inscreveram no Enem.

Nesta edição do Enem, os cartões não serão enviados pelos Correios, somente serão disponibilizados pela internet. O cartão informa ainda os dados do participante como nome; CPF; número de inscrição no Enem; opção de língua estrangeira (inglês ou espanhol); necessidade de atendimento especializado ou específico (quando houver); e indicação de solicitação de certificado do ensino médio (se for o caso).

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