‘Estava na hora’, diz ator sobre Enem tratar da violência contra as mulheres

Cadu Paschoal vê tema da redação do Enem como essencial para o debate.
Nonô Lellis e Anna Rita Cerqueira relatam como o assédio as intimida.

pascoal

Publicado em G1

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ganhou a aprovação dos atores Cadu Paschoal e Anna Rita Cerqueira e da cantora Nonô Lellis. O trio concorda sobre a relevância de debater a violência contra a mulher – e conta que presencia o desrespeito ao gênero feminino no cotidiano.

Cadu Paschoal, que atuou em Caminho das Índias e estreia na novela Totalmente Demais, vê coerência na escolha do tema. “O Enem quer um indivíduo pensante. Estava na hora de discutir sobre essa série de desacatos à mulher. E levar isso para a área acadêmica”, diz.

“Vivemos em uma sociedade ainda patriarcal. Isso gera absurdos como a violência à Taís Araújo, excelente atriz, mulher e negra. Isso assusta”, afirma, fazendo referência ao episódio em que Araújo sofreu ofensas racistas no Facebook.

O ator também comentou sobre as críticas feitas ao tema do texto – os deputados Jair Bolsonaro e Marcos Feliciano, por exemplo, acusaram o Enem de doutrinar os alunos.

“É fácil perceber grandes figuras femininas no teatro e na música, por exemplo. Temos Dalva de Oliveira, Elis Regina, Dercy Gonçalves. Acho que isso choca os conservadores”, afirma Cadu.

“Com a informação que temos, esconder um assunto desses é impossível. Querem embate e agressão, não debate.”

Nonô Lellis, ex-participante do The Voice, também crê na importância do debate. “Na redação, foquei na violência física e no trabalho. Sobre como a mulher ainda ganha menos que os homens – a violência começa aí, na desigualdade entre os gêneros. É absurdo criticar o tema”, afirma.

“O Enem não inventou isso, o assunto existe e não dá para combater fatos. É mais fácil fechar os olhos”, ironiza.

Propostas

Anna Rita Cerqueira, ex-Malhação, levou em conta a importância da educação em casa para evitar o preconceito e a violência. Na redação do Enem, ela propôs como intervenção social que as famílias conversem e estimulem o pensamento de que não existe diferença.

“Não devem criar os filhos de forma desigual. E também acredito que a mídia deveria tratar mais desse tema, lembrar de como é sofrido sofrer a violência”, conta. “Isso pode ajudar mulheres a terem coragem para denunciar abusos.”

Cadu propôs uma iniciativa semelhante: “Escrevi sobre ir contra essa cultura que enraíza tanto a violência moral e sexual. Não vai adiantar só criar instituições. Uma família que tenha um casal de filhos não pode colocar a menina para limpar a casa e o menino não. É aí que começa a criação desses padrões”, opina.

Já Nonô Lellis dirigiu sua proposta para tentar solucionar a violência física. “A população deveria ser conscientizada. E novas delegacias da mulher precisam ser criadas”, diz. Ela também chamou atenção para a importância de haver equidade nos salários.

Assédio

A violência contra a mulher ocorre também quando homens sentem-se à vontade para dirigir comentários maliciosos nas ruas e nos transportes públicos. Sob o pretexto de “elogios”, inibem a liberdade feminina e desrespeitam as vítimas.

Nonô afirma que esse tipo de comportamento a incomoda. “Quando ando na rua, me sinto mal de estar de vestido. Dá vontade de colocar calça e blusa. Às vezes, não queremos sair à noite porque somos mulheres. Ainda mais se formos pegar ônibus ou metrô”, diz.

Anna Rita concorda. “Não posso sair da boate sozinha. Sinto que, quando saio com meus amigos homens, me respeitam mais porque acham que posso estar ficando ou namorando algum deles”, conta. “A mulher deve ter liberdade para fazer o que quiser.”

O comportamento de abordar mulheres nas ruas também revolta Cadu. “Me envergonha ver a postura desses homens, não entendo como pode haver gente assim. É enxergar a mulher como objeto. Ninguém tem direito de mexer com as mulheres desse jeito. Nem se a mulher andasse pelada, nada justifica o assédio.”

O ator também chama a atenção para a imagem criada sobre o Brasil. “Dizer que é o país das mulheres bonitas, em Copacabana, é reduzir a figura feminina à aparência. Temos mulheres bonitas, mas elas são bem mais que isso, são inteligentes. Não podemos limitar tanto”, declara.

Recentemente, campanhas nas redes sociais, como “#PrimeiroAssédio, incentivaram que meninas relatassem situações em que foram violentadas. Para Nonô, é uma ótima iniciativa. “Elas ajudam a mostrar que o problema está bem mais próximo do que pensamos”, diz.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *