Surfe, mágica e feminismo: rede pública ganha aulas extras dos sonhos

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Publicado em UOL

Jéssica Rodrigues de Borba, 16, queria debater machismo e racismo na escola estadual onde estuda, no extremo sul de São Paulo, mas não encontrava espaço. “Isso nunca é passado em sala de aula”, diz a adolescente à BBC Brasil. “Sobre o racismo aprendemos só o básico. De machismo, nada. E é algo importante, todo mundo tem de estar ciente.”

Até que, no final de outubro, ela conseguiu que palestrantes especializados fossem a sua escola dar uma aula extracurricular sobre os dois temas, assistida por 170 de seus colegas estudantes. “Agora vou pedir uma palestra sobre maioridade penal”, diz Jéssica. “É um assunto de que os professores fogem.”

O pedido de Jéssica foi concretizado pelo Quero na Escola, projeto idealizado por quatro jornalistas para tentar aproximar a escola pública da sociedade.

Um aluno da rede pública paulista pediu aula de truques de mágica. Outro, de Florianópolis, quer fazer aulas de surfe. Em uma escola municipal de Belo Horizonte, o pedido é por aprender a fazer histórias em quadrinhos.

A ideia é que os pedidos sejam atendidos por voluntários da sociedade civil, que topem dar aulas gratuitas nas escolas sobre os temas solicitados.

‘Querem um monte de coisas’

Em dois meses de existência, o Quero na Escola cadastrou 11 escolas (por enquanto, em São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina) e recebeu 65 pedidos. Foram cadastrados 32 voluntários, que por enquanto atenderam a primeira dezena de pedidos – abrangendo cerca de 300 alunos com aulas, palestras ou oficinas em temas como grafite, artesanato, contação de histórias e fotografia.

“Entrevistando os adolescentes nas escolas, víamos que eles queriam um monte de coisas, apesar de serem tachados como desinteressados”, diz

Cinthia Rodrigues, uma das idealizadoras do projeto.

“O gatilho para nós foi ouvir de uma jovem de 15 anos que ela gostaria de fazer aula de escrita criativa. Como jornalistas, podíamos ensinar isso para ela.

E pensamos: E se tivesse uma forma de todos os alunos dizerem o que querem na escola?”

“A gente também quer fazer uma conexão – apresentar a escola à sociedade. Se o portão da escola ficar aberto, a educação vai virar uma pauta real na vida das pessoas.”

Os primeiros voluntários vieram das próprias redes de contato das organizadoras, mas elas querem ampliar o alcance dessa rede. “Queremos também o eletricista, o pizzaiolo como voluntários.”

Para Ricardo Falzetta, gerente de conteúdo da organização Todos Pela Educação, o projeto tem o potencial de aumentar o interesse dos alunos pelos anos finais dos ensinos fundamental e médio – faixa mais problemática da educação brasileira – e de permitir à sociedade civil “de fato entender o que acontece dentro das escolas (públicas)”.

“A sociedade já dá importância à educação no discurso, mas essa é uma oportunidade de que esse discurso não seja apenas para cobrar, mas para entender a educação e ter uma perspectiva de colaborador.”

Ele opina, também, que um segundo passo do projeto, que poderia ser dado pelas próprias escolas, seria associar os pedidos ao Quero na Escola ao próprio currículo escolar que está sendo aplicado aos alunos, para potencializar os resultados – por exemplo, estimulando pedidos por aulas extracurriculares que complementem o ensinado em sala de aula.

‘Não aprendo nada’

Teo Ferreira Dias, 18, teve atendido o pedido por uma aula de cerâmica em sua escola técnica, na zona oeste paulistana, e pretende mobilizar seus colegas para um futuro pedido por uma aula de desenho.

“Foi legal para valorizar a escola não só pelo ensino, mas com coisas que a gente gosta”, diz.

“Eu sinto uma resistência (dos professores) a alguns pedidos dos alunos, quando sugerimos algum assunto diferente do que está no currículo. Eles tendem a não ensinar. Os professores têm muita matéria para dar e às vezes não têm tempo – até porque, muitas vezes, perdem tempo disciplinando outros alunos.”

Para Cinthia, a ideia inicial do projeto era justamente encontrar formas de ajudar os professores. “Nas nossas pesquisas, víamos que eles se sentiam muito mal, mesmo sendo vencedores – muitos são mal pagos, vistos pela sociedade como encostados e estão no limite, apesar do desejo de fazer um bom trabalho.”

Júlia Rodrigues dos Santos, 15, colega de escola de Teo, pediu uma aula de fotografia.

“É o tipo de coisa que por não ter valor no vestibular, por exemplo, as pessoas acabam não dando tanta atenção”, diz. “Já até tinha pedido para o professor de Artes dar aula de foto. Ele me falou que adoraria, mas que não tinha tempo, tinha de focar no conteúdo do vestibular e do Enem.”

Júlia diz que gostou tanto da parte de história da fotografia como dos exercícios práticos. “Eu agora sei controlar a entrada de luz na minha câmera e, quanto estou tirando foto com o celular, posso pensar melhor no enquadramento, por exemplo.”

A aluna conta que gostou tanto do projeto que agora pensa em solicitar outros cursos, como o de línguas orientais.

Leitura

Alguns dos pedidos atendidos foram oficinas esporádicas; outros têm se tornado eventos regulares nas escolas.

Na Escola Estadual José Cândido de Souza, na Pompeia (zona oeste de São Paulo), a diretora Elizabeth Magnoni usou o Quero na Escola para colocar em uso a sala de leitura que havia conseguido colocar de pé. “Tínhamos a sala de leitura, mas faltava a contação de histórias, para (estimular a) pegar no livro”, diz.

A voluntária que se cadastrou no projeto transformou sua contação de histórias em algo constante dentro da escola. “Ela mora a duas quadras daqui e adorou, não imaginava como era a nossa escola. E a nossa escola precisa da comunidade.”

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