baquaqua_escravo

Publicado no Portal AZ [via G1]

Mahommah Gardo Baquaqua nasceu no século XIX onde hoje fica o Benin, na África, e em 1845 chegou ao Brasil dentro de um navio negreiro. Passou os dois anos seguintes trabalhando forçadamente em diversos estados brasileiros, e chegou a tentar o suicídio. Acabou conseguindo escapar e, nos Estados Unidos, publicou um relato autobiográfico sobre sua condição de escravo chamado “An Interesting Narrative. Biography of Mahommah G. Baquaqua” (“Uma narrativa interessante. Biografia de Mahommah G. Baquaqua”, na tradução do inglês). Nesta segunda-feira (30), historiadores brasileiros e canadenses lançam o site do Projeto Baquaqua, que tenta recuperar as memórias do único africano escravizado no Brasil que publicou uma autobiografia. O livro, lançado pela primeira vez em 1854, receberá a primeira versão traduzida para a língua portuguesa no primeiro semestre de 2016.

Feito em parceria entre a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e a Universidade York, do Canadá, o projeto tem apoio dos governos brasileiro e canadense e pretende, além de mostrar a trajetória pessoal de Baquaqua, debater a escravidão e o abolicionismo no Brasil e na América do Norte.

Em entrevista ao G1, o historiador pernambucano Bruno Véras, que atualmente faz seu doutorado na York, em Toronto, explicou que o livro do africano foi publicado dentro do contexto abolicionista norte-americano. “O slave narratives (narrativas de escravos, em inglês) era um gênero literário importante no mundo anglófono”, afirmou Véras, que está traduzindo o material ao lado do pesquisador Nielson Bezerra, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

bruno_projeto_baquaqua

Segundo ele, o editor Samuel Moore auxiliou na produção do relato autobiográfico de Baquaqua, que, além de publicar o livro, também escreveu cartas e deu palestras sobre a sua experiência como escravo no Brasil.

A edição brasileira da obra seria publicada ainda em 2015, mas, de acordo com os historiadores, a pesquisa em torno do projeto resultou na descoberta de novos documentos históricos e, por isso, o livro, que está sendo realizado pela Editora da Civilização Brasileira, vai ganhar novos capítulos antes do lançamento.

Letramento, guerra e escravidão
Segundo os historiadores, Mahommah Baquaqua já era bilíngue quando foi capturado em uma guerra na África. Sua família era muçulmana, e ele falava árabe e ajami, língua local de Djougou, sua cidade natal. “Na África ele foi escravo de pessoas no Daomé até ser vendio para a costa e desembarcado no porto de Uidá”, explicou Véras.

O africano foi vítima do tráfico internacional de escravos em 1845, quando a prática já havia sido criminalizada no Brasil. Portanto, segundo os historiadores, sua condição de escravo no país nunca foi legal.

O professor Paul Lovejoy, da Universidade York, que coordena a produção em inglês do livro ao lado do pesquisador Robin Law, afirma que “o relato de Bequaqua mostra muita coisa importante sobre a escravidão no Brasil”. Seu primeiro destino foi Pernambuco, onde ele foi comprado por um padeiro português e, posteriormente, a um marinheiro gaúcho. Em uma viagem com o dono a Nova York, o africano aproveitou uma oportunidade e escapou.

“O padeiro o obrigou a construir um prédio de pedra, isso é um trabalho muito difícil. Baquaqua tentou fugir, ele tentou cometer suicídio, ele cogitou matar seu dono, porque ele era muito cruel. O dono não gostava dele, e o vendeu porque Baquaqua estava criando muitos problemas. Então ele foi vendido no Rio de Janeiro, onde um capitão de um barco o comprou. Mas o capitão também era cruel, e o espancava muito. A mulher do capitão não gostava dele. Isso mostra que Baquaqua sempre quis resistir, lutar, escapar, e eventualmente ele teve a oportunidade quando seu dono o levou a Nova York com um carregamento de café. Então Baquaqua conseguiu escapar”, diz o canadense.

Lovejoy explica, porém, que fugas de escravos não eram raras. “Escravos com frequência queriam escapar ou fugir. Em todos os lugares. Mas isso mostra como a escravidão no Brasil era muito cruel.”

Lutas e palestras
Os documentos mostram que, depois de reconquistar sua liberdade nos Estados Unidos, Baquaqua passou uma temporada no Haiti, onde aprendeu a falar francês e o criolo haitiano. Ele também viveu no Canadá e chegou a estudar, entre 1850 e 1853, na Faculdade Central de Nova York.

“Ele escreveu várias cartas, deu muitas palestras abolicionistas nos EUA sobre sua experiência de escravo no Brasil”, diz Véras. “Mas a sua biografia foi escrita com ajuda de um editor chamado Samuel Moore.” De acordo com o historiador, Moore escreveu o relato em primeira pessoa do Baquaqua, como ele ditou suas experiências.

História afrobrasileira
Véras acredita que tanto o livro quanto o site (que terá traduções para o inglês, o francês e o hauçá, língua também falada por Baquaqua, e usada por 52 milhões de pessoas na África Ocidental) podem ajudar a aprimorar o ensino sobre a história dos africanos no Brasil. Para ele, ela ainda hoje é cercada de mitificação e estereótipos negativos.

“Muitos dos africanos que foram trazidos ao Brasil no contexto da escravidão atlântica eram letrados em árabe e ajami (línguas africanas escritas em caracteres árabes). Os livros didáticos muitas vezes reproduzem uma imagem preconceituosa sobre os africanos no Brasil como se estes tivessem sido apenas braços para o trabalho escravo em lavouras e regiões de mineração”, explica.

O projeto também tem uma versão da história adequada ao ensino de crianças do ensino fundamental, incluindo um livro ilustrado pela artista Tatiane de Lima, com atividades como desenho e caça-palavras sobre a história de Baquaqua e da diáspora africana nas Américas.

“A biografia de Baquaqua nos permite pensar sobre isso. Antes de serem escravos, eles eram pessoas e assim se pensavam. Antes de serem braços eles(as) eram ideias, visões de mundo e espírito. Estas biografias nos permitem enxergar isso. Mas do que pesar a escravidão elas nos permitem pensar em gente, que, apesar de inseridas em um sistema opressor e escravista nunca deixaram de ser e de se pensar como gente.”

Para Lovejoy, “as crianças precisam aprender esta história, porque ela mostra determinação para seguir em frente, para se autoaprimorar, para resistir à crueldade e às pessoas ruins que querem explorar os outros”.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments