Ocupação estreita relação entre escola e usuários de droga na Cracolândia

A relação horizontal e solidária que marcou o movimento dos estudantes de SP vai além dos muros da escola: ela se expande no convívio com a sociedade

Mc Caio singer bloc

Publicado em Painel Acadêmico

“O papo eu te mando, agora vou mandar
Estou rimando aqui na escola J.K.
Minha voz é ruim, mas é sem problema
Quero o melhor pra mim, rimo como um poema
Não quero sentar numa mesa e começar a escrever
Quero levantar, participar e fazer acontecer
Ninguém me pergunta o que eu quero estudar
É uma coisa imposta, sem poder me expressar
Estão querendo tirar a minha escola
Mas não tem nada disso, vou fazer uma nova história”

Responsável por abrir o cadeado para quem entra e quem sai da E.E (Escola Estadual) João Kopke, Caio (15), aluno do 1º ano colegial, se concentra na letra do seu primeiro rap e apresenta a música para os colegas que estão na ocupação na tarde da última quinta-feira (10/12). O poema termina rimando “robocop” com “black bloc”, em referência à resistência dos estudantes às ações do governo Alckmin (PSDB).

A escola ganhara novas cores nas paredes, os estudantes haviam recebido naquele dia um grupo da Zona Sul para uma oficina de grafite. Quem passa pela frente pode ver, além dos cartazes com os dizeres “João Kopke Ocupada” e “Não à reorganização”, um grande livro aberto escrito “geração de pensadores”. Há três semanas ocupada, a E.E João Kopker está na Alameda Cleveland, centro de São Paulo, mais especificamente na região chamada de Cracolândia. O mesmo centro que há algum tempo vem chamando a atenção da especulação imobiliária paulistana, apoiada pelas políticas de higienização do governo do Estado.

“A região só não é valorizada porque a gente tá aqui. O que as empresas na região querem é vender tudo, tomar conta de tudo. Pra eles é muito bom que fechem essa escola”, diz Sérgio*, que se abriga do sol embaixo da lona de sua carroça, a cerca de 10 metros da escola ocupada pelos secundaristas. “O que é isso que eles estão fazendo?”, pergunta um rapaz que também está ali, protegido pela carroça. A resposta vem de Maria*: “esses meninos estão dormindo aí porque querem fechar a escola deles. Tá certo, tem que ficar mesmo!”.

A relação entre os estudantes e os transeuntes da Cracolândia se estreitou depois ocupação, no melhor sentido possível. “Antes, a gente só cumprimentava eles, afinal a gente estava aqui todos os dias e eles também. Mas agora abrimos o diálogo, eles ajudam a fazer nossa segurança, nunca teve nenhum problema”, afirmou Taíres Pereira, 16 anos, há 5 aluna da escola J.K. “Se alguém tentar invadir a escola à noite, a gente não deixa. Ninguém mexe com os meninos aqui, não”, disse Sérgio, que assim como Maria – “a dona da rua”, segundo seus amigos – também apoia a luta dos estudantes.

geracao

Alguns dias da semana a escola sofre com falta de água. Naquela tarde, dia seguinte ao ato que levou cerca de 15 mil pessoas às ruas de São Paulo em apoio aos estudantes – e que terminou com bombas de gás lançadas pela polícia em frente à Secretaria de Educação -, os pratos estavam acumulados na pia à espera da volta da água. O almoço, no entanto, foi garantido por uma professora da escola e parceira dos alunos na luta contra a medida de reorganização, que levou 30 marmitas para os meninos e meninas dividirem entre si. Foi ela também quem varreu a rua no início da tarde, no perímetro da escola. O restante da calçada foi varrido mais cedo por Ceará*, usuário de crack, motorista de caminhão, amigo de Sérgio e de Maria, cearense saudoso da família que vive na terra natal. “Não gosto de ver sujeira acumulada aqui na frente”, disse.

A calçada da Alameda Cleveland é agora o fio que compõe as missangas, como diria Mia Couto (autor do livro O fio das Missangas, da Companhia das Letras); o território-comum daqueles estudantes e das pessoas em situação de rua que têm naquele mesmo espaço o endereço de suas moradias imprevisíveis. De fala tranquila e um pouco envergonhada, mas muito firme ao falar das atividades na escola, Taíres comenta: “quando fazemos almoço ou janta, levamos pra eles. Depois eles voltam trazendo os pratos e os garfos. Eles nos respeitam e a gente respeita eles”. Ceará confirma: “os meninos nos dão água, também, que é muito difícil de conseguir aqui, principalmente quando vai ficando de noite. Nos bares nem adianta pedir que ninguém dá. Mas a gente não gosta de ficar indo lá toda hora, pra não incomodar muito eles, né?”

Os alunos se dividem em comissões: cozinha, limpeza, comunicação, calendário de atividades. Não há liderança e tudo é discutido em assembleias, que acontecem duas vezes por semana. As regras são estabelecidas coletivamente e estão escritas em cartolinas, grudadas na parede do salão principal da escola. Os responsáveis por cada “departamento”, como a portaria e as reuniões externas com o Comando das Escolas Ocupadas, também são transitórios e eleitos a cada conversa do coletivo. Sobre os rumos da ocupação, Taíres defende: “vamos ficar aqui até termos a certeza de que nossa escola não será fechada de jeito nenhum”. E Caio garante: “minha ceia de Natal esse ano vai ser aqui. Minha mãe já disse que vem pra cá, outras mães também, vão fazer comida e vamos festejar aqui dentro”.

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