Aos 68, Dona Êda é educadora de jovens e adultos e líder em tempo integral

publicado no UOL

A professora Êda Luiz, 68, entra no trabalho às 7h e sai às 22h, de segunda a sexta-feira há, pelo menos, 18 anos no Cieja (Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos) Campo Limpo, que fica na zona sul da cidade de São Paulo.

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Apesar do tempo de casa e de serviço, ela ainda se emociona — todos os dias, garante — com as histórias dos alunos (adolescentes, jovens e adultos) da escola em que atua. “É algo inexplicável a energia dessas pessoas”, diz. “Ninguém é obrigado a vir para a escola – as pessoas vêm porque querem.”

Dona Êda, como é mais conhecida, acabou se tornando uma liderança da comunidade que frequenta o estabelecimento de ensino. Professora aposentada, ela prestou um concurso para a EJA (Educação de Jovens e Adultos) anos atrás e pouco depois foi convidada para coordenar o Cieja, na rede municipal.

São cerca de 1.300 alunos, divididos em dois ciclos: o Ciclo 1, ou de pré-alfabetização, e o Ciclo 2, de pós alfabetização. Desse total, 400 são jovens e adolescentes de 15 a 17 anos – não raro, entre eles, alunos expulsos de outras escolas –; outros 300, alunos com necessidades especiais, e o restante, adultos e idosos.

Não há separação dos alunos deficientes: eles participam das aulas nas turmas regulares, mas têm aulas específicas. Surdos, por exemplo, aulas de libras; cegos, de braile.

Alunos estudam temas preferidos
As turmas do Cieja Campo Limpo não são divididas por série ou ano — eles se agrupam entre os que são alfabetizados e os que ainda precisam aprender a ler e escrever. A matéria da aula gira em torno de assuntos que sejam do interesse deles.

No começo do ano, ainda sem a divisão em ciclos, a escola fez uma entrevista com cada aluno para identificar o nível de escolaridade, mas também para saber: que temas eram pertinentes a ele, em uma escala crescente? A partir daí, o Cieja constatou que, nesta ordem, família, comida, esporte/viagens e trabalho eram os que mais os mobilizavam.

“Percebemos que esses temas eram as preocupações do nosso público, que, de maneira geral, é formado por excluídos – ou por todos que, de alguma maneira, passaram por uma escola, mas não conseguiram concluir. Todo tipo: desde o adolescente excluído da escola regular por indisciplina, abandono, transferência, aos jovens que precisaram se lançar à vida e deixar os estudo, e mesmo os idosos aos quais não foi permitido estudar – geralmente migrantes”, conta dona Êda.

Em vez de disciplinas, a escola trabalha com quatro grandes áreas de conhecimento – linguagens e códigos (português e inglês), ciências humanas (geografia e história), ciências do pensamento (ciências e filosofia) e ensaios lógicos e artísticos (matemática e artes). Os alunos ficam em cada uma delas durante quatro semanas e desenvolvem o que chamam de sequência a partir de problemas que eles mesmos trazem. Os professores fazem a mediação do processo. Para isso, são usados os livros, jornais, revistas e o que mais os estudantes considerarem relevante para a solução.

E os problemas levados pelas turmas agora: algum deles relativo à crise ou à polarização política?

Sim. E isso vai desde exposições mensais sobre política, em que eles mostram o que marcou cada governo, desde Collor para cá, a temas como ditadura: os que não viveram estão pesquisando o que é isso, e sobre democracia: o que é esse jogo político? Eles estão super interessados em entender, não em tomar posições”.

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