Um livro escrito em 1909 previu a era da internet

LIONEL BONAVENTURE/AFP/Getty Images
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O escritor E.M. Forster previu a era da internet num livro escrito em 1909, em que retrata o isolamento humano e as consequências de se viver a comunicar apenas através de ecrãs.

Publicado no Observador

O escritor E.M. Forster previu há mais de um século a era da internet e o domínio das comunicações virtuais sobre as realizadas cara-a-cara. As previsões estão descritas na novela de ficção científica A Máquina Pára. O autor é mais conhecido pelas obras Howards End (1910), que deu origem a um filme com o mesmo nome e que valeu à atriz britânica Emma Thompson um Óscar em 1992, e Uma Passagem Para a Índia (1924), entre outros — que versam sobretudo sobre as relações de classe e a hipocrisia da sociedade britânica do início do século passado.

A novela, cujo título no original inglês é The Machine Stops, foi publicada inicialmente em 1909, na The Oxford and Cambridge Review e foi republicada em 1928 na obra The Eternal Moment and Other Stories. Na história, o autor analisa algumas tendências do século que então estava a começar, tais como o isolamento crescente dos indivíduos face ao desenvolvimento tecnológico e industrial e o maior afastamento do homem em relação à natureza.

O livro retrata um mundo dominado pela tecnologia, num período em que os seres humanos, depois de terem esgotado os recursos disponíveis na Terra, têm que passar a viver no subsolo e tornaram-se totalmente dependentes de uma infraestrutura conhecida como “A Máquina”, que parece ser uma vasta rede que permite a videoconferência e funciona como uma plataforma de troca de ideias em segunda mão, conta o The Guardian.

A obra conta a história de uma mãe e de um filho — Vashti e Kuno — que vivem num mundo pós-apocalíptico onde as pessoas vivem em casulos subterrâneos num universo no qual “A Máquina” satisfaz todas as suas necessidades humanas, descreve a BBC.

Os habitantes dos casulos vivem as suas vidas em isolamento e comunicam com o exterior através de ecrãs e de um tubo acústico (speaking tube). Quando “A Máquina” pára, as pessoas não conseguem adaptar-se à vida sem a tecnologia da qual dependiam, a cidade subterrânea colapsa e muitos morrem soterrados pelos escombros.

“Ele previu, com uma precisão surpreendente, o efeito que a tecnologia tem sobre as nossas relações uns com os outros, com os nossos corpos, com a nossa filosofia e cultura,” disse Neil Duffield, que adaptou a história para o palco da York Theatre Royal à BBC, uma peça que vai estar em cena até ao próximo dia 4 de junho.

E. M. Forster descreve na novela um mundo onde as pessoas comunicam essencialmente através de um ecrã, antecipando invenções como as mensagens instantâneas ou o Skype e muito antes de a rádio ser um meio de comunicação de massas. Hoje, “A Máquina Pára” já se tornou alvo de culto, com muitos inovadores e empreendedores a recomendarem a sua leitura, tais como Elon Musk, inventor do Paypal e atualmente presidente das empresas Tesla e Space X.

“As pessoas ao lê-lo dizem: olha, alguém há mais de 100 anos parece ter imaginado o mundo da internet e dos smartphones e muitas das questões que hoje abordamos sobre a forma como as pessoas vivem as suas vidas através da tecnologia e não olham para cima nem veem o mundo ao seu redor”, disse Howard Booth, da Universidade de Manchester e especialista na literatura de Forster à BBC.

A obra tem uma tradução em português do Brasil (A Máquina Para), da autoria de Celso Braida, mas ainda não está publicada em Portugal.

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