Videogame e até açougue ajudaram na criação de livros nacionais recentes

Antonio Xerxenevsky, Maria Valéria Rezende e Marcelino Freire.
Antonio Xerxenevsky, Maria Valéria Rezende e Marcelino Freire.

 

Rodrigo Casarin, no UOL

Captar a figura do escritor no momento em que ele está criando um novo trabalho. Essa é a proposta de “Ficcionais Volume 2”, título lançado pela Cepe que reúne textos sobre o processo de criação de autores nacionais que lançaram livros nos últimos cinco anos. A obra traz relatos de nomes de gerações e momentos da carreira bem diferentes, como Maria Valéria Rezende, Silviano Santiago, Raimundo Carrero, Marcelino Freire, José Luiz Passos e Antonio Xerxenevsky, que para escrever “F.”, romance de 2014, apostou no videogame para ajudar na construção do cenário. “Usei o Google Street View e – de ultíssima hora – o jogo GTA V para compor Los Angeles, e quase todas as informações sobre a ditadura tomei não de fontes livrescas, mas de relatos de minha mãe, que viveu na pele o clima de medo e paranoia que imperava na Porto Alegre dos anos 1960 e 1970”, revela.

São 30 escritores que entre breves ensaios, autointerpretações e confissões acabam por registrar o próprio trabalho e traçam um interessante panorama da literatura brasileira nesses últimos anos. Dentre os artigos, outra revelação que surpreende é a de Ana Paula Maria sobre o seu “De Gados e Homens”, publicado em 2013. “Decidi que era hora de escrever sobre algo que me atingisse com mais força. Queria o confronto no nível mais pessoal. Esse era o momento para escrever não somente sobre a morte, mas sobre aqueles que se alimentam dela, ou seja, eu e você, que comemos carne. O início disso tudo se deu em idas ao açougue do supermercado. Enquanto eu permanecia na fila aguardando por alguns bifes, só conseguia pensar no boi. E, principalmente, no sujeito que o havia matado”, revela.

Ao comentar sobre o premiado “Um Útero é do Tamanho de um Punho”, de 2012, Angélica Freitas relata algo comum entre praticamente todos os autores que participam do livro: “Cada vez menos acredito em inspiração vinda do nada”. Bruno Liberal, por sua vez, ao falar de “O Contrário de B.”, de 2015, faz uma ponderação importante para o leitor: “Escrever sobre o processo de criação de um livro é como contar uma história de pescador”.

Um terço dos textos presentes em “Ficcionais Volume 2” – o volume 1 saiu em 2012 – são inéditos, os outros já tinham sido publicados na coluna “Bastidores”, do Suplemento Literário Pernambuco. O lançamento oficial do livro acontece na segunda-feira, dia 27, na livraria Blooks do shopping Frei Caneca, em São Paulo, a partir das 19h30, e contará com os autores Julián Fuks, Micheliny Verunschk e Sidney Rocha – todos presentes na obra – e de Schneider Carpeggiani, responsável pela organização do trabalho.

Confira trechos dos textos de alguns escritores:

“Em ‘Lencinhos’, ‘História de Amor’, ‘Um Retrato’ e ‘Clandestinos’, permiti-me amar através da palavra, nunca perdendo de vista, é claro, a formalização, sem a qual poderia cair no melodrama fácil, para não dizer melosidade. Literatura é sempre linguagem e sou tido como um autor que gosta de experimentar e é verdade -, mas nos livros mais recentes permiti soltar mais a minha sensibilidade” – Sérgio Sant’Anna sobre “O Homem-mulher”, de 2014.

“Personagens não são feitos de ideias, mas de coração e experiência. Parte da experiência pode até dá-la o escritor, no entanto o coração e sangue para bombear dão-lhe certa estirpe de demônio inato, o tipo com o qual ou se nasce com ele ou não se é escritor, como disse Faulkner. É no coração humano do personagem que pulsa a verdade” – Sidney Rocha sobre “Fernanflor”, de 2015.

“Eu começo um livro partindo do ponto em que o mundo acaba. Muita gente quer escrever um romance, construir uma obra. Eu geralmente só quero botar uma máquina para funcionar. Apesar do cansaço, dos livros que vieram antes de mim” – Débora Ferraz sobre “Enquanto Deus Não Está Olhando”, de 2014, seu primeiro romance.

“De fato, o cinema me ajudou na feitura do livro. Explico: quando escrevo meus contos, nunca tenho uma história para contar. Vou descobrindo a partir da escrita sendo escrita. Esse método já fez com que eu desistisse de outros romances. Porque eu não conseguia improvisar (caminhar, às cegas) por muito tempo. Daí, fui eu buscar inspiração em filmes policiais, em reviravoltas de suspense, em tramas noir. Pegar a história pela mão até ela vir a vingar” – Marcelino Freire sobre “Nossos Ossos”, de 2013.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *