A linguagem no limite

Marco Antônio Souza Alves, no Estado de Minas

Saíram recentemente no Brasil mais dois títulos de Michel Foucault em uma bela edição conjunta da Editora Autêntica: O Belo Perigo e A Grande Estrangeira. Publicados originalmente na França em 2011 e 2013, respectivamente, eles trazem textos inéditos que não fizeram parte da coleção dos Ditos e escritos. Trata-se de um conjunto bem heterogêneo (entrevista, transmissões radiofônicas e conferências) produzido em momentos distintos, de 1963 a 1970.

A edição brasileira, com cuidadosa tradução de Fernando Scheibe, tem o mérito de trazer os mesmos textos introdutórios publicados na França, assinados por Philippe Artières, Jean-François Bert, Mathieu Potte-Bonneville e Judith Revel, renomados estudiosos de Foucault. A única modificação ficou por conta do acréscimo de um texto introdutório para O belo perigo, redigido por Jean Marcel Carvalho.

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Em O belo perigo, vemos uma entrevista concedida por Foucault ao crítico literário Claude Bonnefoy em 1968. Engana-se quem pensa que se trata apenas de mais uma entrevista de Foucault, como tantas outras que ele concedeu. Nela, encontramos algo singular: Foucault, sempre resistente a fazer considerações pessoais, parece disposto a realizar um experimento diferente, aceitando o desafio proposto pelo entrevistador de se voltar para a “trama secreta” ou o “avesso da tapeçaria” de seus livros. Foucault, ao aceitar esse perigoso jogo, procura situar sua fala em um nível de linguagem que não seja da ordem da obra, nem da explicação, nem tampouco da confidência. Ele se vale desta oportunidade para, mais uma vez, problematizar seu lugar autoral e sua própria experiência de escrita, afirmando que escreve para não ter mais rosto, para que sua vida seja suprimida e reste apenas esse “retangulozinho de papel” que temos diante dos olhos.

A grande estrangeira, por sua vez, traz a público um material bem variado, que desenvolve temas de grande interesse para o Foucault dos anos 1960, como a loucura, a transgressão literária e as experiências com a linguagem. Em A linguagem da loucura, encontramos duas transmissões radiofônicas feitas em 1963. Na primeira delas, intitulada “O silêncio dos loucos”, Foucault reflete sobre a complexa relação entre loucura e linguagem por meio da análise de Shakespeare, Cervantes, Diderot, Sade e Artaud. Já na segunda transmissão, intitulada “A linguagem enlouquecida”, Foucault prossegue sua investigação apontando para o horizonte comum de experimentação com os limites da linguagem que caracteriza tanto a loucura quanto a literatura, o que seria visível em Michel Leiris, Tardieu e Jean-Pierre Brisset.

Em Linguagem e literatura, encontramos uma conferência pronunciada em Bruxelas em 1964 e conhecida do público brasileiro desde 2000, quando foi publicada como anexo no livro Foucault, a filosofia e a literatura, de Roberto Machado. Na primeira sessão, Foucault se mostra fascinado pelo poder transgressor da literatura e a define como algo inscrito no volume do livro, que transita entre a linguagem murmurante da loucura e a obra, entendida como uma configuração de linguagem que se imobiliza e constitui um espaço que lhe é próprio. Na segunda sessão, Foucault investe contra a crítica literária obcecada pelo “mito da criação”, propondo uma nova postura crítica voltada para a linguagem ela mesma, ciente de que, na literatura, apenas um sujeito fala: o livro ele mesmo.

Por fim, nas Conferências sobre Sade, proferidas em Buffalo, EUA, em 1970, Foucault analisa na primeira sessão a complexa relação entre verdade e desejo em A nova Justine, ressaltando como a escrita é usada pelo libertino marquês como uma espécie de masturbação, partindo de uma total liberdade concedida à imaginação e abrindo um espaço infinito no qual as imagens, os prazeres e os excessos podem se multiplicar sem qualquer limite: “a escrita é o desejo tornado verdade, é a verdade que tomou a forma do desejo”. E na segunda sessão, Foucault relaciona sua leitura de Sade com a questão da “ordem do discurso”, que será tema de sua aula inaugural no Collège de France proferida no mesmo ano. Afastando-se de Freud e Marcuse, Foucault analisa o modo como, na escrita de Sade, a mecânica do discurso se engrena com a mecânica do desejo, operando um laço entre verdade e desejo que se multiplica indefinidamente e só se efetua na desordem permanente.

Diante de tamanha diversidade e heterogeneidade, é natural que nos perguntemos sobre qual o sentido de se realizar uma publicação conjunta desse material. Sobre esta indagação, entendo que a opção feita foi acertada, ou, pelo menos, apresenta uma boa justificativa e resulta em um todo interessante, com uma curiosa aproximação temática e estilística. Todos esses textos giram em torno da experiência com a linguagem e com a escrita, vista como potencialmente transgressora e transformadora.

Por fim, lembrando que Foucault dispôs claramente em seu testamento que não queria publicações póstumas, convém se perguntar se esse material deveria vir à luz. No caso dos Ditos e escritos e dos cursos no Collège de France, apelou-se para o fato de se tratar de textos previamente publicados ou de aulas públicas. Mas como justificar a publicação da entrevista a Claude Bonnefoy? Nela, Foucault chega a dizer que, embora estivesse satisfeito de dizer aquelas coisas, não estava certo de que seriam boas para publicar e afirma estar “um pouco apavorado diante da ideia de que um dia elas serão conhecidas”. Mas, apesar de polêmica, não condeno a publicação. Afinal, o próprio Foucault nos ensinou que as palavras, uma vez pronunciadas ou postas no papel, não mais se submetem à tirania do autor.

 

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