Livro reconstitui horrores da Guerra Civil Espanhola

SC - Amanda Vail, escritora - Divulgação / Divulgação
SC – Amanda Vail, escritora – Divulgação / Divulgação

 

Com ar de romance, Amanda Vaill investiga sangrento conflito em ‘Hotel Florida’

Eduardo Graça, em O Globo

NOVA YORK — Quando pesquisava imagens dos horrores da Guerra Civil Espanhola (1936-1939) clicadas pelo casal de fotógrafos Robert Capa (1913-1954) e Gerda Taro (1910-1937), no International Center of Photography (ICP), a escritora, jornalista e documentarista Amanda Vaill tinha inevitavelmente a mesma reação ao sair do museu e se deparar com o ziguezaguear frenético de pessoas e carros de Manhattan. Uma sensação de alívio, em tudo compreensível. Por quatro anos, período de gestação de “Hotel Florida — verdade, amor e morte na Guerra Civil Espanhola (1936-1939)”, lançado agora no Brasil pela Objetiva, a mulher miúda de gestos largos reviveu um dos mais brutais conflitos do século XX, responsável pela morte de 500 mil pessoas. Pois a exaustiva exposição a uma Península Ibérica destruída em preto e branco e a providencial ajuda de três casais extraordinários — além de Capa e Taro, os escritores americanos Ernest Hemingway (1899-1961) e Martha Gellhorn (1908-1998) e os secretários de imprensa do governo republicano Arturo Barea (1897-1957) e Ilsa Kulcsar (1902-1973) — a levaram a criar um livro tão envolvente quanto o anterior, “Eram todos tão jovens — uma história de amor da geração perdida”, indicado ao prêmio do National Books Critics Circle e passado na Paris do entre-guerras.

— Muita gente diz que lê os livros como romances, por conta da narrativa focada em personagens específicos. Mas eles são não ficção até a última gota de meu suor de pesquisadora. Não criei um único diálogo, está tudo documentado — diz Amanda.

Lá se vão 80 anos desde o início daquela que é ao mesmo tempo considerada prévia da Segunda Guerra Mundial e palco das primeiras coberturas de conflitos armados pela imprensa tal qual a conhecemos. “Hotel Florida”, a propósito, era o bunker informal dos correspondentes de guerra, em Madri, até a tomada da cidade pelas forças do general Francisco Franco (1892-1975). Não é mero acaso, portanto, que a semente para o livro tenha vindo de uma imagem publicada na imprensa americana durante a invasão do Iraque.

— A foto mostrava fuzileiros na casa de uma família iraquiana, em Bagdá — conta Amanda. — Os soldados pareciam Incríveis Hulks enfileirados, e a família parecia acuada, em pânico. Pensei onde havia visto aquela cena, durante as pesquisas para meu livro sobre a França. Era dezembro de 2007, e dias depois chegaram ao ICP os negativos perdidos da Guerra Civil Espanhola de Capa, Taro e David ‘Chim’ Seymour (1911-1956), achados no México. Percebi que tinha um livro nas mãos.

A escritora chama atenção para a coincidência de seu livro, publicado originalmente em 2014 e elogiado pelo rigor documental e pela inovação narrativa, ter uma edição brasileira no momento em que a Caixa Cultural, em São Paulo, apresenta a exposição “A valise mexicana”, com o mesmo material que ela viu quase em primeira mão no ICP.

TRÊS CASAIS NOTÁVEIS

Capa se tornou o fotógrafo de guerra mais celebrado de seu tempo. Hemingway escreveria logo após o livro que muitos consideram sua obra-prima, “Por quem os sinos dobram”, e se casaria com Martha, de quem se divorciaria cinco anos depois. Os Barea exilaram-se numa vida modesta na periferia de Londres. E Taro, saudada pelos republicanos como la pequeña rubia, foi morta por um tanque nacionalista quando só tinha 26 anos.

“Hotel Florida” persegue os três casais desde o começo dos anos 1930 e explica por que foram parar na Madri que também atraiu John dos Passos (1896-1970), Dorothy Parker (1893-1967), George Orwell (1903-1950) e Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), coadjuvantes do livro. A reinvenção dos casais e suas visões do conflito, com a verdade manchada pela propaganda política, pegam o leitor. E a mescla de biografia e análise histórica não impede Amanda de estabelecer paralelos com a atualidade.

— Mais uma vez vivemos uma crise grave do capitalismo. Os refugiados estão com suas fotos de novo em nossas mentes e corações. E governos mundo afora eleitos legitimamente pela população, como o da Espanha de 1936, sofrem ameaças armadas ou não — diz a escritora.

Amanda não é estranha ao Brasil. Seus avós paternos viveram em Volta Redonda, no sul fluminense, no começo dos anos 1950. O avô era especialista em siderurgia e trabalhou na CSN. Décadas mais tarde ela viajou bastante pelo país.

— Mas minha cidade favorita é Paraty. Quando estive lá, fechei os olhos e pensei, talvez como os protagonistas de “Hotel Florida”, que poderia ter outra vida numa daquelas casas de arquitetura colonial. Quem sabe um dia?

LEIA TRECHO DE “HOTEL FLORIDA — VERDADE, AMOR E MORTE NA GUERRA CIVIL ESPANHOLA (1936-1939)”, DE AMANDA VAIL

“Alfambra era o quartel-geral de um grupo de guerrilheiros comandados por um polonês chamado Antoni Chrost, cuja função era explodir trens, como aquele que viajava de Calatayud, ao norte de Teruel, até Saragoça. E muitos anos após o fim da luta na Espanha, Chrost recordaria ter uma tarde entrado em seu quartel-general e encontrado um estranho sentado na mesa, conversando com um dos outros oficiais:

— Eu cago no leite da mãe que te pariu! — Chrost ouviu-o falando. Quem seria aquele estrangeiro confiante? Apresentando-se, Chrost pediu os documentos do homem. O salvo-conduto trazia o nome “Ernesto Hemingway”.

Como Chrost lembraria, Hemingway estava fascinado pelas atividades dos guerrilheiros e bem informado: sabia quais armas usavam e como, mas queria descobrir como chegavam aos seus alvos e o que acontecia quando chegavam lá. Embora de início cauteloso, Chrost contou tudo com satisfação e em grandes detalhes. Ele juraria que Hemingway não apenas o interrogou, mas comeu e bebeu com ele, conversou sobre mulheres e até saiu em uma missão com ele alguns dias depois. Estes detalhes românticos jamais chegaram ao diário de Martha.”

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