Literatura que nasce a partir de uma coleção de acasos

Inspiração. Histórias colecionadas em viagens a congressos e residências literárias no exterior - Divulgação/Alfaguara / Divulgação
Inspiração. Histórias colecionadas em viagens a congressos e residências literárias no exterior – Divulgação/Alfaguara / Divulgação

 

Em ‘Diário das coincidências’, João Anzanello Carrascoza reúne histórias pessoais e de leitores

Mariana Filgueiras, em O Globo

RIO — Durante alguns anos, o escritor João Anzanello Carrascoza teve um caderno em que gostava de anotar as coincidências que tinham acontecido em sua vida — das mais simples, como palavras que volta e meia se repetiam, às mais complexas, como pessoas que reapareciam em situações parecidas. Certo dia, resolveu reescrever uma delas. No dia seguinte, outra. Ao fim de três semanas, tinha um rascunho de todas aquelas memórias narradas. Assim nasceu a ideia para o “Diário das coincidências”, seu novo romance, certamente seu livro mais pessoal, que chega esta semana às livrarias (é também o primeiro na nova casa: depois do fim da Cosac Naify, que cuidava da sua obra, Anzanello migrou para a Alfaguara).

— É um livro que estava pronto desde 2012, mas estava parado. Mostrei algumas ideias de novos livros na Alfaguara, e o editor sugeriu criar um site onde leitores diversos pudessem contar suas histórias pessoais de coincidências também. Assim, poderíamos incorporar algumas ao romance, que eu achava que estava pronto, mas na verdade ainda não estava. Surgiram 70 histórias muito interessantes, e acabei aproveitando cinco delas. Coincidentemente, vim a descobrir depois, eram de pessoas que tiveram alguma relação com meu trabalho em dado momento da vida — conta o escritor, lembrando algumas das coincidências que cercaram o livro.

O LIVRO DENTRO DO LIVRO

Outra coincidência dos bastidores: assim como o filme “Aquarius” cita um antigo romance do pernambucano José Luiz Passos numa de suas cenas, “O sonâmbulo amador” (2012), o “Diário das coincidências” também faz menção ao mesmo livro numa de suas passagens.

— Curioso, não? Totalmente por acaso. Eu estava lendo o romance do José Luiz, autor de que gosto muito, na época em que escrevi o “Diário das coincidências”. Acho que o livro demorou a sair justamente porque as coincidências demoram a acontecer. E é por isso que elas exercem esse fascínio: podem ser apenas probabilidades matemáticas, podem revelar coisas ou não revelar nada, é uma cintilância que se dá no meio de uma sombra, uma vida que se vê no meio de uma bolha. As coincidências não precisam ter uma razão: elas apareceram e são bonitas, fugazes, quis escrevê-las.

Assim, o narrador às vezes se confunde com o autor, e foi nas viagens a congressos e residências literárias no exterior que Carrascoza colecionou a maior parte das suas coincidências (que, talvez também por acaso, tenham sempre elementos de corte, sangue e ferimentos como pontos de intercessão). Numa delas, em Hamburgo, na Alemanha, para participar de um seminário, ele socorreu um sujeito desorientado que tinha acabado de cair no chão e abrir o supercílio na sua frente, no hall do hotel onde acabara de chegar. No dia seguinte, descobriu que o sujeito era o principal palestrante do tal seminário.

— O autor é antes de tudo um leitor, um sujeito que está querendo ler o que acontece. As coincidências fixam histórias e trazem enunciados que você não consegue entender, e você quer por que quer decifrar. Como todo livro, este me graduou um pouco mais em mim. O fato de você ligar uma palavra a uma pessoa, que reaparece muito em sua vida, essas teias invisíveis que as coincidências formam são atraentes, sedutoras, nos encorajam a revivê-las.

As histórias também suturam as próprias definições de coincidência, que vez ou outra surgem no romance, ora comparadas a sonhos, ora a epifanias. “É quando a realidade parece um sonho”, arrisca o narrador a certa altura; ou quando “os olhos dos meus olhos se abriram”, cita um verso do poeta e.e. cummings em outro trecho.

— Talvez seja uma outra língua que a gente poderia aprender, mas da qual a gente só sabe falar algumas palavras. É um idioma cuja escritura a gente ainda não entendeu. A coincidência não requer explicação demais, é uma experiência. Que nos foi entregue para que pudéssemos voar com ela — diz ele.

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