Edição 2016 do Pauliceia Literária aposta na crônica, diz curador

Manuel da Costa Pinto, curador do Pauliceia Literária. Foto: Reprodução / Divulgação
Manuel da Costa Pinto, curador do Pauliceia Literária. Foto: Reprodução / Divulgação

 

Evento, com início nesta quinta-feira (15), homenageia Luis Fernando Veríssimo e reunirá, entre outros, Marcelo Rubens Paiva, Humberto Werneck e Fernando Bonassi

Daniel Benevides, na Brasileiros

Depois de um ciclo sobre a obra do cineasta Hector Babenco, morto recentemente, a Associação dos Advogados de São Paulo (AASP) abre suas portas para a terceira edição do Pauliceia Literária nessa quinta (15), a partir das 11 horas, com entrada gratuita (confira a programação). A primeira mesa será com o homenageado Luis Fernando Veríssimo, num bate-papo com outro cronista, Humberto Werneck. Para o curador Manuel da Costa Pinto, em conversa com CULTURA!Brasileiros, “a crônica é o gênero brasileiro por excelência”.

Animado com o evento, que expandiu bastante os temas debatidos desde um início mais ligado à literatura policial, Manuel tem uma teoria curiosa – e não menos pertinente – sobre a crônica, gênero bem representado no Pauliceia: “a crônica realizou melhor que a poesia modernista de 1922 a aproximação da literatura com a linguagem coloquial, esse sentido de anotação do pequeno no dia a dia, que casa muito bem com um país que tem a sensação permanente de deslocamento, entre a experiência europeia e o sentimento marginal, por assim dizer.”

Ele também acha que a crônica, com sua “retórica desinflada”, mudou, está hoje mais próxima da realidade imediata, menos ligada à banalidade do cotidiano, como era com Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e outros. “Agora há um grande interesse por análises da situação política, social e cultural, face à selvageria de opiniões na internet, por assim dizer.”

Além do espaço dedicado à crônica, Manuel destaca a discussão sobre desaparecidos políticos, presente principalmente na mesa que reúne os escritores Bernardo Kucinski e Julián Fuks, mas também com Marcelo Rubens Paiva, que recentemente laçou o livro Ainda Estou Aqui, sobre, entre outras coisas, o sequestro e assassinato de seu pai, o deputado Rubens Paiva, durante a ditadura.

O curador ainda ressalta a importância da participação de autores como Alan Pauls, para ele, “melhor escritor argentino em atividade”, que veio de Berlim, onde está escrevendo livro novo; e de Cristóvão Tezza, “escritor de obra muito consistente, nem sempre prestigiado como merecia”, cujo livro de ensaios Espírito de Prosa, “espécie de autobiografia intelectual, infelizmente pouco comentado”, considera genial.

Duas mesas chamam atenção pelo aspecto menos habitual. Em uma delas o poeta sul-coreano Oh Sae-Young, trazido em parceria com o Instituto Coreano de Tradução Literária, não publicado no Brasil, conversa com Moacir Amâncio, que se tornou um especialista em cultura judaica. “Ambos têm uma percepção da vida moderna, mas ao mesmo tempo um pé em tradições religiosas.” A outra junta duas escritoras com grande experiência no mercado editorial, Ana Luisa Escorel, designer e publisher da Ouro sobre Azul, que publica, entre outras, a obra de seu pai, Antonio Candido, e Milena Busquets, escritora catalã que trabalhou por muitos anos na editora Lumen, fundada nos anos 1960 por sua mãe, a também escritora Esther Tusquets Guillén.

Sobre a proliferação de festivais literários num país que lê pouco, Manuel considera que o público leitor é ainda proporcionalmente grande, dado o tamanho continental do Brasil. Mas reconhece que, com o formato proposto pela Flip, mais informal que os antigos eventos acadêmicos e menos comercial que as feiras de livros, o interesse do público “acaba mais voltado para o escritor enquanto personagem do que para a obra em si. É um fenômeno que revela um pouco o espírito do tempo, a maneira como as pessoas lidam com a cultura.”

Elvira Vigna, autora cultuada, que acaba de lançar o romance Como se Estivéssemos em Palimpsestos de Putas, cancelou sua participação no evento. Veronica Stigger, também uma escritora extremamente interessante, fará a mesa com o próprio Manuel como mediador. Complementam a ótima escalação do Pauliceia Literária Ana Miranda, Ana Cássia Rebelo, José Luís Peixoto e Raimundo Carrero.

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