As lições do professor que transforma crianças carentes em campeãs de matemática

A história de Luiz Felipe Lins mostra como um bom professor pode ser decisivo na trajetória de seus alunos

Flavia Yuri Oshima, na Época

Anna Julya do Espírito Santo da Silva, de 15 anos, nunca foi uma aluna exemplar. Seu problema não era a compreensão dos conteúdos, mas a preguiça em concluir as tarefas de classe e de casa. A displicência primeiramente a afastou das notas mais altas. Depois, passou a comprometer o aprendizado. “Fui acumulando defasagem em matemática”, diz Anna Julya. “Depois de um tempo, já não conseguia acompanhar a turma.” Em 2013, ela foi reprovada no 7º ano.

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Com esse histórico, Anna Julya destoa do grupo de crianças com ótimo desempenho acadêmico que a Escola Municipal Francis Hime reuniu, a pedido de ÉPOCA. Para sair na foto dos alunos que são medalhistas da Olimpíada de Matemática do Estado do Rio de Janeiro (Omerj), ela arrumou de improviso uma medalha de prata – tomou emprestada uma das nove de seu amigo Victor Marinho, de 13 anos. Mas não se trata de fraude. Ela havia esquecido a medalha em casa e aquele era um dia de tirar retrato. Pouco mais de seis meses depois de ter sido reprovada por causa da matemática, Anna Julya se tornou, de fato, uma atleta dos números: competiu e ficou entre os melhores estudantes de matemática do Rio de Janeiro.

(Foto: Pedro Farina/ÉPOCA)
(Foto: Pedro Farina/ÉPOCA)

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A mudança brusca na trajetória de Anna Julya com os números se deu depois de alguns meses de aula com Luiz Felipe Lins, de 44 anos, professor de matemática da Francis Hime, uma escola pública localizada na Estrada do Pau da Fome, em Taquara, um bairro de classe média baixa da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Desde 2005, quando foi criada a Obmep (Olimpíada Brasileira de Matemática do Ensino Público), Anna Julya, Victor e outras dezenas de alunos de Luiz Felipe conquistaram 176 medalhas e centenas de menções honrosas nas quatro versões de olimpíadas de números que existem – duas estaduais e duas nacionais.

AULAS MIRABOLANTES O professor Luiz Felipe Lins com uma turma de 9º ano. Ele cria estratégias para mostrar a matemática do dia a dia (Foto: Stefano Martini/ÉPOCA)
AULAS MIRABOLANTES
O professor Luiz Felipe Lins com uma turma de 9º ano. Ele cria estratégias para mostrar a matemática do dia a dia (Foto: Stefano Martini/ÉPOCA)

 

Esses números são, por si só, impressionantes. São ainda mais admiráveis porque Luiz Felipe não treina uma garotada pré-selecionada – como fazem alguns cursinhos de ponta, para alardear percentagens admiráveis de sucesso de seus alunos no vestibular. Luiz Felipe dá aula para estudantes da periferia – entre eles, vários moradores de favela – que chegam com todo tipo de dificuldade de aprendizado ao ensino fundamental II, a etapa que vai do 6º ano ao 9º ano. Uma vez em sua classe, vários começam a se sobressair – quase como por milagre. O desempenho de Luiz Felipe se torna mais reluzente quando se conhecem os indicadores do desempenho alarmante dos estudantes brasileiros em matemática: apenas 16% das crianças que deixam o 9º ano têm o nível de conhecimento adequado na área. Ao final do ensino médio, a taxa cai para meros 9%.

Como Luiz Felipe consegue driblar as estatísticas nacionais e colocar seus alunos entre os melhores do estado e do país em matemática? Não há uma resposta única para essa questão. Pelo contrário: a resposta pode variar tanto quanto o número de alunos. O segredo do sucesso de Luiz Felipe, a despeito das salas lotadas e da diferença de aprendizado dos estudantes, é ensinar cada criança da forma como ela é capaz de aprender.

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