Com crise, disparam seguros para mensalidade de escola e faculdade

Desempregada, Fabiana Mello contou com o seguro educacional para manter Victor na escola
Desempregada, Fabiana Mello contou com o seguro educacional para manter Victor na escola – Zanone Fraissat/Folhapress

 

Paulo Saldana, na Folha de S.Paulo

Tamires Silva começou a trabalhar aos 15 anos, quando ainda cursava o ensino médio em Franco da Rocha, Grande São Paulo. Neste ano, aos 20, realizou um feito inédito na família: chegou à faculdade, um gasto que tomava metade de seu salário.

Mas, em junho, Silva foi demitida do cargo de recepcionista, e o sonho do diploma no curso de banco de dados ficou ameaçado. O que “salvou” a continuidade da graduação no IBTA, na região central de São Paulo, foi um seguro que a faculdade passou a oferecer em 2016.

Quem perde o emprego tem seis meses de mensalidades quitadas. “É o tempo para conseguir um emprego. Eu só penso em me formar. Ninguém conseguiu da minha família e eu quero ir além”, diz.

A história não é isolada. Até setembro, o valor gasto com seguros educacionais foi de R$ 34 milhões em todo país. Já é 19% superior ao total registrado em 2015 –em valores atualizados pela inflação.

Comparando setembro com o mesmo mês do ano passado, a alta é de 62%. Os dados são da Susep (Superintendência de Seguros Privados).

Crise econômica, desemprego e alta na inadimplência têm impulsionado a procura. No ensino superior, a desaceleração na oferta do Fies (financiamento estudantil federal) também influenciou.

As instituições contratam o seguro e, em geral, oferecem para todos alunos. Mas há modelos em que o aluno é obrigado a aderir.

O IBTA integra o grupo Cetec, que reúne três instituições de ensino superior e uma escola de nível médio, com um total de 15 mil alunos. Todos estão cobertos pelo seguro.

“Com a crise do país, do Fies e desemprego, sabíamos que ia ficar difícil para os alunos”, diz o diretor financeiro do grupo, Marcelo Silva.

O custo pode chegar até 3% do valor da mensalidade. “Não repassamos para o aluno. Mas cai o risco de abandono e reduzimos em 22% a inadimplência”, pondera.

Como é preciso ter mensalidades em dia para o seguro, os alunos ficaram mais atentos aos pagamentos, segundo o gestor. Exige-se ainda que eles ou responsáveis tenham trabalhado por um ano antes de ficarem desempregados.

ALTA

Segundo Aquiles Poli, diretor da corretora BR Insurance, houve um “efeito manada”. “Começamos com instituições maiores e uma foi seguindo a outra”, diz.

A companhia teve uma alta de 115% no número de contratações, chegando a 248 instituições. Faculdades representam 70% dos contratos e o restante são escolas.

O grupo segurador Bradesco Mapfre reúne 970 instituições de ensino com seguro, após uma alta de 35% na procura no ano. “São escolas e faculdades de todos os portes”, diz Karina Massimoto, superintende de seguros.

Para Rodrigo Capelato, diretor do Semesp (Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior Privado), o cenário econômico tem forçado a busca pelo benefício. “Houve ainda a tendência de crescimento de inadimplência.”

A taxa de desemprego no país chegou a 11,8% em agosto, segundo o IBGE. A projeção de inadimplência no ensino superior para este ano é de 9%, maior que a de 2015 (8,8%), segundo o Semesp.

Nas escolas, a média de atrasos passou de 8% para 12% do ano passado para este, segundo a Fepesp (Federação Nacional de Escolas Particulares). “O desafio das escolas é adequar o gasto aos custos da escola, para não impactar a mensalidade”, diz Amábile Pacios, da Fepesp.

COBERTURA

Quando em janeiro a estudante Rayssa Ferreira, 24, ingressava no último ano do curso de odontologia, seu pai foi diagnosticado com câncer e, em maio, morreu aos 65 anos. Além da tristeza, ela se viu diante da impossibilidade de continuar a graduação na Unifor (Universidade de Fortaleza), na capital cearense.

Ferreira era beneficiada pelo Fies até o primeiro semestre do ano. Mas, sem o pai como fiador, não conseguiu renovar o contrato para o último semestre do curso. “Ele era meu provedor, eu não teria condições de pagar a mensalidade de quase R$ 3.000”, diz ela.

Foi um amigo que avisou que a universidade contava com seguro para casos como o dela. Em caso de morte do responsável financeiro, o produto cobre os estudos até o fim do ano letivo.

“Evitei trancar, seria uma tristeza nadar, nadar e depois morrer na praia, no último ano de curso”, diz a aluna.

O gerente financeiro da Unifor, Jefferson Dantas Candido, explica que a instituição trabalha há 19 anos com o benefício. Em 2015, porém, houve ampliação do serviço, e a cobertura passou a ser de seis meses de mensalidades em caso de desemprego. Antes, eram quatro.

Além da cobertura por morte ou invalidez do responsável, há garantia para alguns custos hospitalares em caso de acidentes. Os 24,5 mil alunos de graduação têm a garantia do seguro.

“Isso tem sido determinante para a continuidade dos estudos dos nossos alunos”, diz. “Percebemos um aumento significativo nos sinistros [quando o seguro é acionado]. Seja por causa do desemprego ou porque passamos a divulgar melhor a opção.”

Na Estácio, grupo com 310 mil alunos, foram 2.500 solicitações de alunos por seguro nos últimos 16 meses.

“Houve aumento considerável na comparação com períodos anteriores, mas certamente já passamos do pior momento”, diz Leonardo Moretzsohn, executivo da área financeira da empresa.

EFEITO FIES

Segundo Daniel Mitraud, superintendente do setor de universidades do banco Santander, as instituições de ensino superior passaram a “blindar” cada vez mais os alunos matriculados. “As faculdades e as universidades buscam proteger o aluno que paga mensalidades corretamente, é a galinha dos ovos de ouro das instituições”, diz.

O banco passou a oferecer o seguro educacional a partir do ano passado. “O primeiro fator que hoje sensibiliza a busca pelo seguro é o Fies, que vive uma inconstância”, afirma Mitraud.

A partir de 2015, o governo federal, ainda na gestão Dilma Rousseff (PT), passou a restringir o acesso ao programa. No Fies, o governo paga as mensalidades para as instituições, e o aluno só começa a pagar o financiamento 18 meses após se formar.

Entre 2010 e 2014, não havia limite de vagas anuais para o financiamento federal, e as instituições incluíam os alunos no programa a qualquer momento do ano.

Com novas regras, a partir de 2015, o número de novos contratos passou a ser limitado pelo governo como forma de reduzir gastos.

Enquanto em 2014 haviam sido registrados 713 mil contratos, esse número passou para 287 mil em 2015. No primeiro semestre deste ano, 148 mil contratos foram firmados e, no segundo, o MEC oferece 75 mil novas vagas.

“As instituições estão buscando soluções para garantir a continuidade dos estudos do aluno”, afirma Sólon Caldas, da ABMES (Associação Brasileira das Mantenedoras do Ensino Superior).

No ano passado, o número de novos alunos na rede privada de ensino superior caiu 8% na comparação com 2014. Passou de 1,9 milhão para 1,7 milhão –um impacto direto da redução do Fies, segundo as empresas educacionais.

‘ALÍVIO’

Aos 36 anos, a profissional de recursos humanos Fabiana Mello nunca tinha ficado desempregada. Com a crise, a empresa do setor automotivo em que trabalhava promoveu um grande corte e ela acabou desempregada em julho deste ano.

No mês seguinte, as mensalidades de R$ 546 na escola do filho Victor, 12, já estavam garantidas pelo seguro. “Sou divorciada e a única com renda na família. Quando percebi que meu filho estava garantido, deu um alivio”, diz. O menino estuda com bolsa no colégio Anchieta, em São Bernardo do Campo.

O “alívio” foi essencial para conseguir um reposicionamento no mercado de trabalho antes mesmo de o prazo de seis meses do seguro vencer. “Dei sorte de conseguir me recolocar rapidamente, tenho amigos que estão há meses procurando.”

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