A nova geração de escritores desafia o silêncio

"O romance não pode ser a repertição estéril das velhas fórmulas", afirma Julián Fuks
“O romance não pode ser a repertição estéril das velhas fórmulas”, afirma Julián Fuks

 

Uma safra promissora de autores, encabeçada por Julián Fuks, escreve como forma de resistir

Jotabê Medeiros, na Carta Capital

Foi um ano particularmente ruim. Mas, como não existem condições particularmente boas para o exercício da literatura, a escrita brasileira colhe uma bela safra em meio ao jorro de más notícias. A primeira novidade atende pelo nome de Julián Fuks, tem 35 anos, usa barba de quaker e camisas de lenhador e não desperdiça uma plateia. Quando tem a oportunidade, berra a plenos pulmões: “Fora, Temer!”

Foi assim nesta semana, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, ao ganhar o segundo lugar no prestigioso Prêmio Oceanos, distinção para livros de língua portuguesa. Foi assim também ao abocanhar o primeiro lugar na categoria Romance do Prêmio Jabuti, há alguns dias.

Não que o coté político seja um imperativo dessa colheita, mas Fuks tem a política no sangue. Filho de psicanalistas argentinos, seu livro Resistência (que levou os prêmios), da Companhia das Letras, é um dos mais rigorosos testemunhos dos efeitos colaterais e da violência social da ditadura argentina.

“O meu ato de resistência tem sido lutar para que as palavras voltem a recuperar sentido. Literatura tem sido essa luta com o silêncio”, afirma Fuks. “Gosto, especialmente, do que a palavra tem de ambivalente: resistência como algo negativo, como uma recusa a alcançar algo ou, pelo contrário, como um ato de força, de posicionamento diante de uma situação que exige uma tomada de posição”.

Angélica Freitas, Lu Menezes, Alice Sant’Anna, Bruna Beber, Claudia Roquette-Pinto: os nomes das poetas de novíssima geração que são destaques na atual cena literária vão brotando com certo orgulho da boca da poeta mineira Ana Martins Marques.

'Pouquíssima gente vive de literatura', diz a poeta Ana Martins (Sergio Castro/Auditório Ibirapuera)
‘Pouquíssima gente vive de literatura’, diz a poeta Ana Martins (Sergio Castro/Auditório Ibirapuera)

Única mulher entre os premiados no prêmio Oceanos (terceira colocada, com O Livro das Semelhanças), ela dedicou o prêmio às colegas da poesia. “Há uma cena importante, muito inventiva e vigorosa”, considera Ana, de 39 anos, que trabalha como revisora e é assessora da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

“É difícil viver de literatura, pouquíssima gente vive. Mas eu acho que existe um universo de leitores para quem a literatura é importante, e isso vai além da questão mercadológica”, diz.

Para Julián Fuks, a resistência do ofício de escritor, em tempos adversos, consiste principalmente em viver em torno da literatura e jamais se afastar dela por completo, seja por traduções, seja batalhando bolsas, dando aulas de escrita, oficinas.

E, na escrita, desafiar a si mesmo continuamente. “Se quer ser romance, o romance tem que reinventar constantemente a si mesmo. Não pode se deixar reduzir a uma prática convencional, não pode se tornar a repetição estéril de velhas fórmulas”, considera o autor.

“Essa é uma das premissas do gênero, a garantir também sua vitalidade. Pessoalmente, sinto que o desafio maior às velhas práticas do romance tem se dado na radicalização de uma travessia de fronteiras entre realidade e ficção.

O que há de mais interessante no romance contemporâneo, a meu ver, são os muitos hibridismos possíveis, os momentos em que ele se deixa permear pela historiografia, pelo ensaio, pela filosofia, pela autobiografia.”

Prestes a se tornar pai pela primeira vez, Fuks tem dois romances e dois livros de contos publicados. “Minha literatura, que já foi restrita a poucas centenas de leitores cativos, tem transitado em novas paragens agora, e isso me alegra muitíssimo”, diz.

Ele, entretanto, não cai na ideia de literatura geracional. “Já não se cogita um processo de construção mais coletiva, a partir de traços comuns”, afirma. Mas concorda que diversos livros hoje “têm se deixado marcar por um elemento político, numa tentativa de compreender a complexidade que essas questões assumiram, e tantas vezes também de combater os arbítrios e retrocessos que infelizmente nos têm abatido”.

Os escritores persistem em um cenário de parcos direitos autorais, contratos draconianos, crise do mercado livreiro. Sobrevivem com a literatura como uma atividade secundária, fazendo oficinas, dando aulas, em serviços burocráticos. Não é novidade: foi assim que um festejado autor, o sergipano Antonio Carlos Viana, autor de Jeito de Matar Lagartas, afirmou sua literatura até a morte precoce, em outubro passado.

Para Cadão Volpato, 'quem tem um projeto vai permanecer' (Silvia Constanti/Valor)
Para Cadão Volpato, ‘quem tem um projeto vai permanecer’ (Silvia Constanti/Valor)

“Num momento de crise fica muito difícil tocar a vida na literatura, mas quem tem um projeto, que sabe o que está fazendo, vai permanecer”, diz o escritor e músico Cadão Volpato, autor de Pessoas Que Passam pelos Sonhos (2012), e que tem três novos livros a caminho. “O que vai parar em pé não é a invenção, é a qualidade”, avalia Volpato.

O poeta Ademir Assunção, prêmio Jabuti de 2013 com A Voz do Ventríloquo, segue uma trajetória de produção fértil e diversa. Além de excursionar com sua banda, foi novamente finalista do Jabuti com Pig Brother (2015) e acaba de lançar Ninguém na Praia Brava, um livro experimental que define como um não romance.

Algo que parece novidade, mas que também se insere numa tradição, adianta Assunção. “Talvez Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machadão (Machado de Assis) e Memórias Sentimentais de João Miramar, do Oswaldão (Oswald de Andrade), sejam os pais do não romance no Brasil.

E quem seria a mãe? Não sei. Na lista dos que continuaram a linhagem ao longo do século 20 eu incluiria Sebastião Nunes e Campos de Carvalho”, diz Assunção. “O não romance não se preocupa tanto com a verossimilhança, tão cara ao romance.

O não romance se ocupa mais em arrancar com as unhas as couraças da linguagem, para que ela volte a significar algo, em vez de reproduzir a farsa de que seja um espelho da realidade. A linguagem cria realidades. E irrealidades também.

Pergunte a um astrofísico ou ao seu gato de estimação o que ele entende por realidade. Isso não quer dizer que eu acredite que o romance esteja morto, como já propagaram tanto”, afirma o escritor, referendando a literatura de Ignácio de Loyola Brandão, Marcia Denser e Marçal Aquino, entre outros.

O Prêmio Jabuti teve 2.400 obras inscritas em 27 categorias. Já o Prêmio Oceanos avaliou 740 livros em língua portuguesa (nos gêneros poesia, romance, conto, crônica e dramaturgia) publicados no Brasil em 2015. A lista dos quatro vencedores, após etapas que selecionaram 50 semifinalistas e, em seguida, dez finalistas, traduziu essa diversidade de gêneros literários.

A vitalidade da produção nacional, entretanto, sempre esbarra na ausência cada vez mais acentuada de leitores. De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o País é constituído por 56% de leitores com 5 anos ou mais, cerca de 105 milhões de leitores. Isso inclui a eventual leitura da Bíblia.

“Temos ainda muito a fazer para que os 44% de não adeptos possam descobrir o prazer de ler”, analisa Zoara Failla, coordenadora da pesquisa. Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, que patrocina o Prêmio Oceanos, avalia que, se a única meta das gestões culturais no Brasil fosse aumentar o número de leitores, teria seu apoio, porque com mais leitura “não estaríamos num momento tão radicalizado, tão triste como estamos vivendo em nosso País”.

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