Diário de Anne Frank ganha versão em HQ e alerta para riscos da intolerância

Cena de "O diário de Anne Frank em quadrinhos" - Reprodução
Cena de “O diário de Anne Frank em quadrinhos” – Reprodução

 

Lançado simultaneamente em 50 países, obra foi adaptada por Ari Folman e David Polonsky

Fernando Eichenberg, em O Globo

PARIS – Quando foi contatado pela Fundação Anne Frank para realizar um filme de animação e uma história em quadrinhos baseados no célebre diário da jovem judia que permaneceu escondida durante a Segunda Guerra Mundial e acabou morrendo, aos 15 anos, no campo de concentração nazista de Bergen-Belsen, o cineasta israelense Ari Folman foi categórico em sua resposta: “Não”.

— Era muito grande o nome Anne Frank, e tudo já havia sido feito sobre o diário. Mas voltei para casa, fiquei pensando na razão pela qual haviam me solicitado, e cheguei à conclusão de que era algo que tinha de fazer. Levou uma semana para mudar de ideia e aceitar — explicou o diretor, em entrevista concedida em Paris.

Folman convenceu o diretor de arte e ilustrador David Polonsky, seu parceiro no premiado filme “Valsa com Bashir” (2008) e também em “O Congresso Futurista” (2013), no início também reticente à ideia, e este mês, 70 anos após a primeira publicação do “Diário de Anne Frank”, será lançada em 50 países a inédita versão do livro best-seller em HQ (edição brasileira pela Record). O filme de animação vai estrear nas telas de cinema em 2019, ano do 90° aniversário de nascimento de Anne Frank.

A iniciativa da Fundação Anne Frank foi motivada pela mudança de comportamento de leitura das novas gerações, apegadas às imagens e ilustrações nas telas de tempos virtuais. O objetivo era dar uma nova vida ao relato literário e histórico. Folman utilizou 70% do texto original, condensados em 150 páginas, e os recursos de diálogos e de imagens são reivindicados como uma fiel inspiração da escrita da jovem autora, com a inlusão de elementos dramáticos, mas não ficcionais.

A família Frank partiu de Frankfurt para Amsterdam no final de 1933 por causa da crescente perseguição aos judeus após a ascensão de Hitler ao poder. Mas com a invasão nazista na Holanda, em 1940, o temor recrudesceu. A partir de 6 de julho de 1942, o núcleo familiar (os pais Otto e Edith e as irmãs Margot e Anne) e mais outros quatro foragidos se esconderam no chamado “Anexo”, um apartamento secreto improvisado nas dependências da empresa do pai de Anne.

Em 4 de agosto de 1944, provavelmente graças às informações de um delator até hoje desconhecido, a polícia secreta alemã descobriu o esconderijo, prendeu e deportou seus inquilinos. Após ter passado pelos campos de Westerbork e Auschwitz, Anne Frank morreu de tifo no início de 1945 em Bergen-Belsen, pouco tempo antes da chegada das forças aliadas. Nos 743 dias de cativeiro, ela escrevia a sua amiga imaginária “Kitty” em seu precioso diário. Suas últimas palavras manuscritas datam de 1° de agosto de 1944. Publicado em 1947 por Otto Frank (1889-1980), único sobrevivente da família na guerra, o diário transformado em livro alcançou sucesso internacional, traduzido em mais de 70 idiomas, e gerou ao longo de décadas filmes, documentários e montagens teatrais.

Folman conta que não foi marcado pela primeira leitura da obra, aos 14 anos de idade. Mas ao se deparar novamente com o texto para preparar a HQ, confessa ter ficado “chocado” pela “inacreditável qualidade da escrita”:

— É impressionante sua capacidade de observação. Ela é muito aguda, e por vezes pode ser cruel de tão verdadeira ao contar histórias sobre adultos, suas fraquezas, suas relações, de como estão conectados. É espantoso para uma jovem de 13 anos. E à medida em que ela vai crescendo, é incrível as mudanças na qualidade de escrita e de observação. É uma grande obra. Li umas vinte vezes cada página para trabalhar no roteiro. Em cada uma delas, me dizia: ” Uau, isso deveria entrar na íntegra”. A tarefa mais dura foi fazer os cortes. Trabalhava em 30 páginas do diário para fazer 10 páginas da HQ.

Cena de "O diário de Anne Frank em quadrinhos" - Reprodução
Cena de “O diário de Anne Frank em quadrinhos” – Reprodução

Folman e Polonsky encararam o duplo desafio – HQ e filme – como uma “missão” de memória e de alerta em tempos sombrios. Para o ilustrador, era importante não cair no lugar comum nem no que define como a “indústria do Holocausto”.

— Se fizéssemos algo só didático não seria certo, e só artístico também não. A indústria do Holocausto é quando se usa essas histórias para promover ideologias ou provocar medo. É quando a escola envia crianças de Israel para Auschwitz, numa excursão de um dia, sem que elas realmente entendam tudo o que aconteceu, na única intenção de fomentar o sentimento nacionalista. Isso é ruim — defende Polonsky.

Folman não tem dúvidas de que aumentam o antissemitismo, o racismo e a intolerância no mundo.

— Quem poderia imaginar que após Barack Obama os Estados Unidos teriam este estúpido do Donald Trump, nesta maneira como reagiu à manifestação em Charlottesville dos supremacistas brancos, à Ku Klux Klan etc. Em Israel, aqui na França também acontecem coisas. Mas algo bom é que há uma reação. Em 2015, refugiados começaram a chegar em maior número em muitos países ocidentais. Não diria que foram totalmente bem-vindos, mas portas foram abertas para eles, o que não foi o caso em 1939. Algo aconteceu. Há uma esperança, um pequeno otimismo.

Acaso da história, os pais de Folman desembarcaram deportados no campo de Bergen-Belsen no mesmo dia em que Anne Frank. A infância do cineasta foi repleta de relatos do Holocausto. A HQ obedece aos escritos da jovem Anne e termina na última página do diário. Mas para a realização do filme, o diretor exigiu mais liberdade na concepção, que terá uma parte contemporânea, e impôs como condição que fossem abordados os sete meses finais da vida de Anne, desde sua detenção até sua morte.

— Cerca de 40% do filme será o diário, e o restante se passará nos dias de hoje, em Amsterdam. A personagem que conta a história será Kitty, e seu namorado possui um abrigo para refugiados na cidade. Serão constantes os reflexos entre o passado e o presente. E nós não sabemos o capítulo Auschwitz de Anne Frank. Bergen-Belsen era viver no inferno, já era quase a morte chegar lá. Uma das razões pelas quais ela se tornou tão icônica é que ninguém teve de lidar com essa terrível parte final. A percepção é a de que esta jovem menina em cativeiro produziu este diário maravilhoso e depois parou de escrever, não se fala deste período entre agosto de 1944 até março de 1945. No filme vamos tratar disso, será bom para todo mundo.

Sofrimentos à parte, os dois autores afirmam que foi bastante prazeroso o processo de criação da HQ, ao explorarem também o humor da escrita de Anne Frank, apesar de sua trágica condição no “Anexo”. Polonsky conta ter uma avó “drama queen” como a Senhora Van Dann, presente no esconderijo, e com quem Anne se disputava com frequência.

— A ideia foi trazer a história para a vida. Se você tratá-la como algo sagrado, não é algo vivo. Anne Frank tinha muito senso de humor — diz o ilustrador.

Folman trabalhou na mesma sintonia:

— Parece estranho dizer, mas foi muito divertido fazer e criar a HQ. Nos tornamos amigos dos personagens. Meus filhos são um exemplo radical de crianças de computador, não querem saber de livros. Não vou criticar, porque ainda não sabemos no que vai dar esta geração online. Mas nossa ideia era não tratar Anne Frank apenas como um ícone. Soa como um clichê, mas foi mesmo como uma missão para nós, deixar algo para crianças e adultos que não leram o texto original.

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