Biblioteca Mário de Andrade fica sem climatização após infecção por fungos

Vista da Biblioteca Mário de Andrade, na região central de São Paulo
Vista da Biblioteca Mário de Andrade, na região central de São Paulo

Rogério Gentile, na Folha de S.Paulo

A Biblioteca Mário de Andrade, que possui um dos acervos mais importantes do país, com 3,3 milhões de obras, está sem climatização adequada em suas reservas técnicas desde junho de 2013.

O sistema de ar-condicionado, instalado dois anos antes durante ampla reforma que custou R$ 20,6 milhões (valor corrigido pela inflação), foi desligado após recomendação técnica do Instituto de Pesquisas Tecnológicas.

O sistema, de acordo com o parecer do IPT, era responsável por uma proliferação de fungos, detectada em dezembro de 2012, que infectou cerca de 5% das obras do acervo, entre livros, documentos e outros itens.

Desde então, segundo inspeção feita pelo TCM (Tribunal de Contas do Município), “tenta-se manter de forma artificial a umidade relativa por meio de desumidificadores portáteis, em sua maioria antigos, que ficam ligados 24 horas nos dias úteis”.

Nos demais dias, de acordo com o constatado pela equipe de fiscalização do TCM, os aparelhos ficam desligados, pois a retirada de água dos desumidificadores depende de estagiários e de determinados funcionários.

Segundo os auditores, que realizaram a inspeção na biblioteca entre junho e agosto deste ano, há dois desumidificadores na sala da reserva técnica, bem como um equipamento que faz o monitoramento da umidade relativa.

“A temperatura e a umidade relativa variam conforme as condições climáticas externas”, afirmou ao TCM o funcionário responsável pela supervisão do acervo, Henrique Coimbra Ferreira.

“Os desumidificadores, ao menos, mantêm a umidade em níveis aceitáveis para a conservação dos itens”, disse o supervisor, que apontou variação de 40% a 65%.

Equipamento usado para preservar acervo da Biblioteca Mário de Andrade
Equipamento usado para preservar acervo da Biblioteca Mário de Andrade

No livro “Como Fazer Conservação Preventiva em Arquivos e Bibliotecas”, editado pelo Arquivo do Estado/Imprensa Oficial, Norma Cassares afirma que “o calor e a umidade contribuem significativamente para a destruição de documentos”.

Segundo a especialista em restauro e conservação, “o mais recomendado é manter a temperatura o mais próximo possível de 20°C e a umidade relativa de 45% a 50%, evitando-se de todas as formas as oscilações de 3°C e 10% de umidade relativa”.

JANELAS ABERTAS

Inaugurada em 1926, a Mário de Andrade tem uma coleção de obras raras com mais de 40 mil volumes de livros e 20 mil de periódicos.

Entre os itens, destacam-se as edições originais de álbuns de viajantes estrangeiros no Brasil colonial, como Spix e Martius, Thévet, Léry, Debret e Rugendas.

Possui também 500 mapas raros e 9 exemplares de incunábulos (obras que datam da origem da imprensa, anteriores a 1500).

De dezembro de 2007 a janeiro de 2011, na gestão Gilberto Kassab, a biblioteca passou por uma profunda reforma na qual ocorreram não apenas intervenções no edifício mas também o restauro de mobiliário e a desinfestação, higienização e reorganização física do acervo.

À Folha André Sturm, secretário da Cultura de João Doria, afirma que o diretor da biblioteca, Charles Cosac, é obcecado pela preservação do acervo e está adotando as medidas necessárias.

Segundo o secretário, consultores foram chamados para ajudar a resolver o problema e orientaram a biblioteca a não comprar outro sistema de ar-condicionado.

Novos estudos, afirma ele, indicam que o melhor procedimento numa situação como a da Mário de Andrade seria deixar as janelas abertas para estimular a circulação do ar, bem como manter o sistema de monitoramento e o uso dos desumidificadores.

De acordo com Sturm, a prefeitura está adquirindo telas especiais para instalar nas janelas do prédio, impedindo a entrada de bichos. A expectativa é que passem a ser utilizadas em outubro.

Segundo o secretário, todas as obras atingidas pelos fungos já foram recuperadas. “Não há mais nenhuma com fungo”, disse.

Sturm declarou também que a atual gestão optou por não investigar a responsabilidade pela compra do equipamento causador da proliferação dos fungos, ou tentar recuperar os valores investidos. “Mais importante era garantir a preservação das obras do que ficar investigando”, afirmou.

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