Com personagens bobinhos, novo romance de John Green é ingênuo demais

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Rodrigo Casarin, no Página Cinco

A clostridium difficile, chamada também de C. diff, é uma bactéria que pode atacar a parte central do intestino grosso, provocando diarreia, dor de barriga e febre. Em casos extremos, cirurgias são necessárias para sanar o problema; em casos mais extremos ainda, pode matar. Como diversas outras bactérias, a C. diff é contraída via contato com superfícies infectadas ou pela troca de secreções com uma pessoa que já a porta. Aza Holmes, uma garota de 16 anos, tem um medo perturbador de adquirir a C. diff.

Aza é a protagonista de “Tartarugas Até Lá Embaixo”, livro de John Green que acaba de sair no Brasil pela Intrínseca. Consagrado graças ao romance “A Culpa é das Estrelas”, que virou um sucesso também no cinema, o escritor norte-americano é conhecido por colocar personagens que sofrem de problemas de saúde em suas narrativas. Dessa vez, o que temos é uma adolescente que, ainda na escola, precisa tentar lidar com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, mais conhecido como TOC, doença mental que aflige quase 5 milhões de brasileiros – e também o próprio autor.

Junto de sua melhor amiga, Aza resolve investigar o desaparecimento de um bilionário que apostava na corrupção junto ao governo para ganhar licitações públicas e tocar obras superfaturadas – não, a narrativa não se passa no Brasil, mas em Indianápolis, capital da Indiana, no meio dos Estados Unidos. Logo que começa a apuração para descobrir onde o endinheirado foi parar, a protagonista reencontra Davis, filho do sumido e um antigo colega de escola. Quem conhece minimamente o estilo de Green, saca logo de cara que ali haverá um romance – e aviso, daqui pra frente o texto trará spoilers.

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“Prazer, tuatara”.

 

História tola e ingênua

Davis é órfão de mãe – Aza, por sua vez, é órfã de pai – e leva uma vida de extremo luxo e conforto graças ao dinheiro sujo conquistado pelo empresário desaparecido. Digo empresário porque, para o garoto, o homem está longe de desempenhar o papel de pai. Em um extremo caricatural, o homem inclusive ordena que, quando morrer, toda a sua imensa fortuna seja doada para uma tuatara, réptil cuja aparência lembra uma iguana, não para seus rebentos (Davis tem um irmão mais novo).

O garoto, então, passa a encarar o dinheiro como uma maldição, desconfia que as pessoas só se aproximam dele por causa da grana e, em uma cena de verossimilhança questionável, pega um pacote de comida do armário, tira 100 mil dólares de dentro dele e entrega a bolada a Aza. Aquilo era um teste: se ela aceitasse a bufunfa e ainda assim voltasse a lhe procurar, saberia que a menina estava interessada em algo além das verdinhas.

A cena dá uma ideia da ingenuidade que dita o tom de “Tartarugas Até Lá Embaixo”. Os personagens da obra são bobinhos, construídos seguindo uma mesma cartilha e sem grandes sutilezas: todos representam o estereótipo de alguém com determinado problema, mas também possuem alguma virtude exacerbada e profundo conhecimento em algo. Davis, por exemplo, que já é um chato normalmente, torna-se ainda mais insuportável quando desembesta a confabular sobre astronomia. Já Aza exige páginas e páginas para falar das paranoias que possui com as bactérias, seu corpo e a própria existência.

“Eu estou no refeitório e começo a pensar que tem um monte de organismos morando dentro de mim e comendo a minha comida por mim, e que eu meio que sou esses organismos, de certa forma… Então eu sou um ser humano tanto quanto sou esse aglomerado nojento de bactérias, e na verdade não tem nada que possa me deixar totalmente limpa, sabe? Porque a sujeira está impregnada no meu corpo inteiro. Não consigo encontrar em mim nenhuma parte, nem a mais profunda, que seja pura, ou intacta, a parte onde supostamente está minha alma. O que significa que as chances de eu ter uma alma são as mesmas que as de uma bactéria”, diz Aza para sua analista.

A preocupação da garota com os microrganismos que vivem dentro dela fazem com que entre em parafuso quando beija Davis. Em sua cabeça, o contato com a língua do menino poderia ser a porta de entrada para uma infinidade de problemas. Em crise, chega a fazer bochecho e a tomar álcool em gel para tentar matar qualquer bactéria. No entanto, já no final da obra, aceita o convite de sua amiga para visitar uma exposição de arte que se passa no esgoto da cidade. Como assim alguém que sequer beija o garoto que pensa amar por ter medo de bactérias se enfia em galerias repletas de fezes, urina, ratos e baratas sem demonstrar nenhuma repulsa?

Essa grande inconsistência é um dos problemas de “Tartarugas até lá Embaixo”. Trata-se de um livro absolutamente ruim? Claro que não. Alguns momentos têm lá sua graça e acho digno o autor tratar de um assunto como o TOC junto aos jovens, mas é uma história bem tola e ingênua. De um escritor tão lido e adorado – Green já vendeu mais de 4,5 milhões de exemplares no Brasil e seu novo livro sai por aqui com tiragem de 200 mil unidades –, deveríamos esperar muito mais.

Há pelo menos dois anos que vinha postergando convidar o quadrinista André Dahmer para conceder uma entrevista ao blog. Motivos não faltavam para o papo, mas a impressão que sempre tive de André é que seu trabalho é tão relevante que qualquer hora é uma boa hora para ouvir o que ele tem a dizer. No entanto, nas últimas semanas ele começou uma nova série de tirinhas: “Brasil Medieval”, a melhor crítica artística (na minha opinião, óbvio) para o momento tenebroso pelo qual o país vem passando. Definitivamente, levando em conta sua série sobre o avanço do fascismo por essas bandas, era a hora de falar com André.

“Não se trata mais do conservadorismo clássico da elite brasileira, que sempre existiu. O buraco é muito mais profundo. Se antes você identificava ideais fascistas apenas em pequenos grupos de lunáticos, como supremacistas brancos, agora você constata que milhões de pessoas simpatizam com ideologias de extrema-direita, como a possibilidade de uma intervenção militar. O mais triste é que a maioria desses simpatizantes estão localizados na ponta mais frágil do sistema: são pessoas pobres e de classe média. Gente que não será contemplada com nenhum benefício, econômico ou social, caso esta e outras barbaridades venham a ser implantadas de fato”, diz o artista sobre os motivos que o levaram a criar a nova série.

Vencedor de quatro HQMix, um dos prêmios mais importantes dos quadrinhos no Brasil, André publica suas tirinhas nos jornais “O Globo” e “Folha de São Paulo” e em sua conta no Twitter. Seu livro “Quadrinhos dos Anos 10”, lançado pela Companhia das Letras, é um dos finalistas do Prêmio Jabuti deste ano. Dentre os sucessos do autor, estão a série “Malvados” e os personagens Emir Saad e Terêncio Horto. O trabalho do artista é focado essencialmente em críticas políticas, sociais e comportamentais.

“Temos um país de 200 milhões de habitantes, mas apenas 75.000 pessoas detém quase 1/4 de toda riqueza do país. Não é preciso ser um gênio para saber que isso não pode dar certo, nem do ponto de vista social, nem do econômico. É um modelo de concentração de renda muito violento, e que gera aberrações enormes no sistema”, diz sobre um dos alvos de seus desenhos. Já sobre nosso momento político e social, observa um povo perplexo diante de “uma quadrilha de bandidos que não importa com a opinião pública”.

Como surgiu a ideia de fazer a série com os cavaleiros medievais que tratam de temas contemporâneos como personagens?

“Brasil Medieval” é uma série que retrata o avanço do novo fascismo no Brasil. Não se trata mais do conservadorismo clássico da elite brasileira, que sempre existiu. O buraco é muito mais profundo. Se antes você identificava ideais fascistas apenas em pequenos grupos de lunáticos, como supremacistas brancos, agora você constata que milhões de pessoas simpatizam com ideologias de extrema-direita, como a possibilidade de uma intervenção militar. O mais triste é que a maioria desses simpatizantes estão localizados na ponta mais frágil do sistema: são pessoas pobres e de classe média. Gente que não será contemplada com nenhum benefício, econômico ou social, caso esta e outras barbaridades venham a ser implantadas de fato, muito pelo contrário. Tanto radicalismo é fruto de um processo de despolitização e demonização da política, além de descrença generalizada nas instituições públicas, como a Justiça e a polícia, por exemplo.

Como você encara esse momento político e principalmente social que estamos vivendo?

Vejo um povo perplexo diante de uma quadrilha de bandidos. Bandidos que não se importam com a opinião pública, porque fazem parte de um governo ilegítimo e, por consequência, sem qualquer compromisso com representatividade. Ora, se sabemos agora que não houve crime de responsabilidade no governo que foi derrubado; se a perícia do Senado e o Ministério Público constataram que Dilma não cometeu tal crime, este é um governo ilegítimo, sim. Agora, além de tudo, descobrimos através de depoimentos de pessoas presas e ligações telefônicas interceptadas, que o impeachment foi construído por corruptos que queriam acabar com a Lava a Jato. Pior: sabemos agora que muitos deles receberam propina para votar pelo impeachment.

A elite econômica também costuma estar no foco de suas críticas. Acha que essa elite é um dos problemas do Brasil?

Há gente rica em todos os lugares do mundo, inclusive em países desenvolvidos. Este não é o ponto. A questão é a histórica e absurda concentração de renda no Brasil, uma das piores do planeta. Temos um país de 200 milhões de habitantes, mas apenas 75.000 pessoas detém quase 1/4 de toda riqueza do país. Não é preciso ser um gênio para saber que isso não pode dar certo, nem do ponto de vista social, nem do econômico. É um modelo de concentração de renda muito violento, e que gera aberrações enormes no sistema. Por exemplo, já temos a segunda maior população carcerária do mundo. São quase 700.000 brasileiros, a maioria negros e pobres, encarcerados. Porém, mesmo com este forte controle social do Estado sobre os mais fracos, a violência só tem aumentado. Como é possível fazer que uma nação prospere dentro de um sistema tão desigual e perverso? É simplesmente impossível.

De que maneira o público costuma reagir às suas tiras? Percebeu alguma mudança no perfil dessas reações nos últimos tempos?

Bem, tenho recebido mensagens de lunáticos em maior quantidade do que de costume. Gente que acredita realmente que há possibilidade do comunismo ser implantado no país, o que é um pensamento totalmente fantasioso e tacanho. Veja, mesmo com uma década e meia com o PT no poder, nada disso aconteceu. Muito pelo contrário: apesar do forte e necessário investimento na área social, os anos Lula também foram marcados pela prosperidade sem precedentes do sistema financeiro e dos bancos, por exemplo. Então, sentir medo da tal ameaça comunista, e através do PT, é de uma ignorância histórica muito grande. Essa obsessão doentia foi construída ao longo dos anos para que agendas extremamente conservadoras avancem, como estamos vendo agora.

No dia das crianças você postou uma mensagem com algum otimismo. O que vislumbra para um futuro? E um futuro próximo?

Como disse, acredito que tempos obscuros formam gerações mais conscientes e libertárias. As próximas gerações saberão muito bem das atrocidades que estão sendo levadas a cabo agora, e os setores responsáveis por elas. Porém, para um futuro próximo, não vejo uma situação de melhora. Assim como as instituições, o povo brasileiro também está muito adoecido e perdido nesse processo todo. O ódio e a descrença, motores do novo fascismo, estão muito entranhados na população.

Em uma época de ataque a museus, por exemplo, vejo que você é um dos artistas que se preocupa e se posiciona de maneira combativa. Na sua avaliação, a classe artística tem feito o mesmo ou tem se omitido? E especificamente os quadrinistas?

É uma questão que também está ligada ao novo fascismo brasileiro, e é claro que precisa ser combatida por todos os artistas. Porém, a onda moralista contra as artes, na minha opinião, não passa de uma cortina de fumaça para tirar o foco de questões fundamentais do atual momento brasileiro: o risco que corre o nosso sistema democrático, a impunidade arquitetada entre os Poderes para livrar corruptos e os direitos que estão sendo roubados das classes trabalhadoras todos os dias.

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