Escritora canadense Margaret Atwood se torna ícone pop

image2

Daniel Oliveira. em O Tempo

Nascida em Ottawa, capital do Canadá, em 1939, Margaret Atwood começou a escrever poemas e peças aos 6 anos. Com 21, ela se formou em literatura na Universidade de Toronto e, aos 23, concluiu o mestrado em Harvard. Desde então, já publicou 16 romances, 15 coletâneas de poemas e inúmeros contos e ensaios.

Isso tudo já a havia consolidado como uma das grandes escritoras da atualidade. Mas foi só em 2017 que o nome de Atwood ultrapassou os confinamentos da alta literatura e ganhou um novo status: o de ícone da cultura pop. Com as adaptações dos romances “O Conto da Aia” (na série “The Handmaid’s Tale”, grande vencedora do último Emmy) e “Vulgo Grace” (na minissérie “Alias Grace”, que estreou na Netflix no último dia 3), a autora e sua obra se tornaram uma espécie de bíblia oracular da atual onda do feminismo – antecipando todas as questões em voga no movimento.

“É difícil responder o porquê disso. Porque ‘The Handmaid’s Tale’ começou a ser produzida antes da eleição do Trump. E ‘Alias Grace’, antes das atuais acusações de assédio em Hollywood. Essas são questões que sempre existiram para nós, mulheres, e de repente se tornaram mais prementes”, analisa Maria Rita Drummond, professora de literatura da Universidade Federal de Santa Catarina.

O que a pesquisadora, que ministra um curso sobre distopias, reconhece na obra de Atwood é uma capacidade de enxergar na dominação da mulher pelo homem e no culto a uma masculinidade tóxica a raiz de vários dos problemas que assolam o mundo hoje. “Mesmo ‘1984’, que é o livro que pula na cabeça das pessoas quando se fala de distopia, é absolutamente cego, surdo e mudo para questões de gênero. Muito do que ele diagnostica ali como problemas da humanidade, como características natas do ser humano, ela diz que não, que são traços de um culto à masculinidade e a uma ideia de homem que não é natural, é algo que se cria”, analisa.

Maria Rita ressalta, porém, que isso não é uma qualidade exclusiva da canadense. Escritoras como Katharine Burdekin, em “Swastika Night” (1937), e Mary Shelley, em “Frankenstein” (1818), já haviam realizado reflexões similares. E o curioso é que, mesmo que a opressão feminina por uma ideologia patriarcal seja um dos temas mais recorrentes em sua obra, Atwood nega que romances como “A Mulher Comestível”, “O Conto da Aia” e “Oryx e Crake” sejam feministas, alegando que esse título se aplicaria apenas a escritores que trabalham conscientemente dentro dos parâmetros do movimento.

“Acho que essa declaração dela tem muito daquela coisa do autor que não quer ser colocado em uma caixinha, o que é válido”, argumenta a professora. No entanto, ela acha que o que importa é o texto. “E se a gente levar em conta as questões centrais propostas pelo feminismo, ou pelos feminismos, não tem como não pensar em ‘O Conto da Aia’ e quase na obra inteira dela, que discute noções recebidas de dominação sexual e estereótipos de gênero”, afirma.

Já a estudante de letras Barbara Deister reconhece a importância do chamado à reflexão de “Aia”, mas não acredita que o romance possa ser considerado estritamente feminista. “No livro, a protagonista é uma personagem insípida, emocionalmente dependente dos homens, que mantem uma postura resignada ante sua nova realidade e, em algumas passagens, faz críticas pesadas a sua mãe, que ia para a rua fazer piquete e protestar ‘junto com suas amigas feministas e barulhentas’”, descreve. Para ela, as críticas e a desqualificação do feminismo feitas no livro representam a opinião da própria escritora e, por isso, ela preferiu a série, “que mostra uma personagem muito mais complexa, feminista, com mais atitude e menos dependente dos personagens masculinos”.

Outra polêmica envolvendo Atwood diz respeito à sua rejeição de que obras como “Aia” e “Oryx e Crake” sejam categorizadas como ficção científica. Para ela, mesmo sendo distopias futuristas, os livros são “ficções especulativas”. “Para mim, o rótulo da ficção científica pertence a romances com elementos que a humanidade ainda não é capaz de fazer, enquanto a ficção especulativa emprega recursos já disponíveis e se passa no planeta Terra”, explicou.

Drummond vê nisso outra recusa da autora a ser enquadrada numa caixinha. Para além de discussões categóricas, porém, a professora acredita que o verdadeiro poder da obra de Atwood está na compreensão que ela tem da impossibilidade de se entender totalmente o outro – especialmente as mulheres, a quem tão pouca voz foi dada historicamente. Tudo a que se tem acesso são pedaços, fragmentos de discursos – acadêmicos, científicos, jornalísticos, históricos, pessoais. E a obra dela, desde romances como “Vulgo Grace” e “O Assassino Cego” a contos como “O Ovo do Barba Azul”, é sempre construída a partir desses diferentes olhares e gêneros textuais – o que, Drummond reconhece, pode torná-la de difícil leitura para não-iniciados.

Status. Adaptações da obra de Atwood conquistaram o público
Status. Adaptações da obra de Atwood conquistaram o público

“Mas é o que eu mais gosto na literatura dela, essa consciência que você tem de que há sempre mais de uma história sendo contada ao mesmo tempo: alguém contando uma história para alguém, uma história sendo escrita, um futuro imaginado a partir de questões atuais. Essa característica de grandes escritores de questionar a permeabilidade da verdade e enxergar o poder da história que contamos para os outros e para nós mesmos”, sintetiza.

Romances

‘A Mulher Comestível’ (1969)

‘O Laço Sagrado’ (1972)

‘Madame Oráculo’ (1976)

‘A Vida Antes do Homem’ (1979)

‘Lesão Corporal’ (1981)

‘O Conto da Aia’ (1985)

‘Olho de Gato’ (1988)]

‘A Noiva Ladra’ (1993)

‘Vulgo Grace’ (1996)

‘O Assassino Cego’ (2000)

‘Oryx e Crake’ (2003)

‘A Odisseia de Penélope’ (2005)

‘God’s Gardeners’ (2009)

‘O Ano do Dilúvio’ (2009)

‘MaddAddam’ (2013)

‘The Heart Goes Last’ (2015)

Vem mais aí

A ‘Trilogia MaddAddam’ – formada pelos livros “Oryx e Crake”, “O Ano do Dilúvio” e “MaddAddam” – está atualmente sendo adaptada pela HBO.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *