Cristina Danuta

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Posts by Cristina Danuta

Para ler na escola.

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Para ler na escola apresenta apresenta crônicas de Carlos Heitor Cony, revelando traços de uma infância que se revela em pequenas lembranças, seja o cheiro do primeiro estojo, ou a turma de bicões em festas. A leitura é tão agradável que devorei as 156 páginas do livro em um dia.


• Para ler na escola. Carlos Heitor Cony. Objetiva (156p.).

Um Senso Incomum de Comunidade

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etos [Do gr. éthos, ‘costume’, ‘uso’, ‘característica’.]
1. Modo de ser, temperamento ou disposição interior, de natureza emocional ou moral.
2. O espírito que anima uma coletividade, instituição, etc.
3. Sociol. Antrop. Aquilo que é característico e predominante nas atitudes e sentimentos dos indivíduos de um povo, grupo ou comunidade, e que marca suas realizações ou manifestações culturais.(© O Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa.)  

        Quando sentimos que nosso éthos está se deteriorando, começamos a sustentá-lo estabelcendo mais leis e mais regras. Essa tem sido a experiência da igreja. Na tentativa de manter as pessoas seguindo em uma mesma direção, a igreja passou a ser dependente demais das regras, dos manuais e das leis.
        Uma das coisas incomuns a respeito de crenças ou valores compartilhados por determinados grupos é que a lei ou regra não é necessária para manter as pessoas dentro de seus limites. Se você precisa obrigar alguém a fazer alguma coisa, então está diante de um verdadeiro problema.Se você precisa obrigar as pessoas a fazer as coisas, isso significa que elas não querem fazer. Isso pode funcionar bem com as crianças, mas é receita de fracassso quando aplicado sobre os adultos. Quando a igreja negligencia o desenvolvimento do éthos, o legalismo impera. Depois que o éthos desaparece, só sobram as leis. Isso nos leva a uma pergunta crítica: será que a igreja pode gerar e definir a cultura? Tenho certeza de que a resposta é “sim”. Na verdade, este livro inteiro foi elaborado sob a convicção de que, mais do que qualquer outra coisa, é isso que a igreja precisa fazer.

Erwin McManus
Uma Força em Movimento

A vida humana

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A leitura de A vida humana de André Comte-Sponville foi uma dessas gratas surpresas. Comte-Sponville inicia e termina sua análise descomprometida sobre a vida humana do mesmo ponto: nada. Explico, Comte-Sponville inicia falando do início das coisas, do começo de tudo, ou seja, quando não havia nada e termina, apos passar por diversas etapas da vida humana, na eternidade, ou sejam quando então nos tornamos nada. Surpreendi-me com a leitura. Este livro não estava na minha fila de leitura, mas como o ganhei do pessoal do Mob de Leitura, resolvi prestigiá-lo e li. Recomendo!

“Estar apaixonado é um estado”, dizia Denis de Rougement; “amar, um ato”. O casal, quando sobrevive à coabitação, quando nela cresce, permite que passemos desse estado (o amor-paixão: aquele que sofremos) para esse ato (o amor-ação: aquele que fazemos, cultivamos, assumimos)… Estar apaixonado é sentir falta de alguém: I need you, te quiero… Amar é não sentir falta de nada: é fruir e regozijar-se de uma presença, de uma existência, de um amor. (p. 44.)


• A vida humana. André Comte-Sponville. WMFMartins Fontes. (104p.)

A era das máquinas espirituais (2)

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Continuei a encontrar com Stevie Wonder, e em um de nossos encontros em seu novo estúdio de gravação em Los Angeles, em 1982, ele lamentou como as coisas estavam no mundo dos instrumentos musicais. Por um lado, havia o mundo dos instrumentos acústicos, como o piano, violino e violão, que forneciam os ricos e complexos sons de escolha da maioria dos músicos. Embora satisfatórios musicalmente, esses instrumentos sofriam de uma série de limitações. A maioria dos músicos só podia tocar um ou dois instrumentos diferentes. Mesmo que você pudesse tocar mais de um, não conseguiria tocar mais de um de cada vez. A maioria dos instrumentos só produz uma nota por vez. Os meios disponíveis para formar os sons eram muito limitados.

Por outro lado, existia o mundo dos instrumentos eletrônicos, no qual essas limitações de controle desapareciam. No mundo computadorizado, você podia gravar uma linha de música em um seqüenciador, tocá-la novamente, e gravar outra seqüencia por cima dela, construindo uma composição multiinstrumental linha por linha. Você poderia colocar vários sons em camadas, modificar suas características sônicas, tocar canções em tempo não real e utilizar uma grande variedade de outras técnicas. Só havia um problema. Os sons com os quais você tinha de trabalhar no mundo eletrônico soavam muito finos, meio que como um órgão, ou um órgão processado eletrônicamente.
Não seria ótimo, Stevie devaneou, se pudéssemos utilizar os métodos extraordinariamente flexíveis de controle por computador nos belos sons dos instrumentos acústicos? Pensei a respeito, e parecia viável de fazer; por isso, aquele encontro acabou constituindo a fundação da Kurzweil Music Systems, e definiu sua razão de ser.
Com Stevie Wonder como nosso acessor musical, começamos a combinar esses dois mundos da música. Em junho de 1983, fizemos uma demonstração de um protótipo de engenharia do Kurzweil 250 (K250) e o introduzimos comercialmente em 1984. O K250 é considerado o primeiro instrumento musical eletrônico a emular com sucesso a complexa resposta sonora de um piano forte e de praticamente todos os outros instrumentos de uma orquestra.
Ray Kurzweil, em A era das máquinas espirituais

Para viver um grande amor.

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Em Para viver um grande amor. Crônicas e poemas, foram intercaladas crônicas e poesias de Vinicius de Morais, compondo assim um recorte histórico-literário do poeta e cronista. Ao final, somos presenteados com oito crônicas inéditas, não publicadas nas edições anteriores.

Transcrevo abaixo a primeira crônica da publicação, que revela muito da dificuldade de se escrever em tal gênero.

O exercício da crônica
Vinicius de Moraes

Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se ele diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera, em que, com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo. Se nada houver, resta-lhe o recurso de olhar em torno e esperar que, através de um processo associativo, surja-lhe de repente a crônica, provinda dos fatos e feitos de sua vida emocionalmente despertados pela concentração. Ou então, em última instância, recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado.

Alguns fazem-no de maneira simples e direta, sem caprichar demais no estilo, mas enfeitando-o aqui e ali desses pequenos achados que são a sua marca registrada e constituem um tópico infalível nas conversas do alheio naquela noite. Outros, de modo lento e elaborado, que o leitor deixa para mais tarde como um convite ao sono: a estes se lê como quem mastiga com prazer grandes bolas de chicletes. Outros, ainda, e constituem a maioria, “tacam peito” na máquina e cumprem o dever cotidiano da crônica com uma espécie de desespero, numa atitude ou-vai-ou-racha. Há os eufóricos, cuja prosa procura sempre infundir vida e alegria em seus leitores e há os tristes, que escrevem com o fito exclusivo de desanimar o gentio não só quanto à vida, como quanto à condição humana e às razões de viver. Há também os modestos, que ocultam cuidadosamente a própria personalidade atrás do que dizem e, em contrapartida, os vaidosos, que castigam no pronome na primeira pessoa e colocam-se geralmente como a personagem principal de todas as situações. Como se diz que é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo, todos estes “marginais da imprensa”, por assim dizer, têm o seu papel a cumprir. Uns afagam vaidades, outros, as espicaçam; este é lido por puro deleite, aquele por puro vício. Mas uma coisa é certa: o público não dispensa a crônica, e o cronista afirma-se cada vez mais como o cafezinho quente seguido de um bom cigarro, que tanto prazer dão depois que se come.

Coloque-se porém o leitor, o ingrato leitor, no papel do cronista. Dias há em que, positivamente, a crônica “não baixa”. O cronista levanta-se, senta-se, lava as mãos, levanta-se de novo, chega à janela, dá uma telefonada a um amigo, põe um disco na vitrola, relê crônicas passadas em busca de inspiração – e nada. Ele sabe que o tempo está correndo, que a sua página tem uma hora certa para fechar, que os linotipistas o estão esperando com impaciência, que o diretor do jornal está provavelmente coçando a cabeça e dizendo a seus auxiliares: “É… não há nada a fazer com Fulano…” Aí então é que, se ele é cronista mesmo, ele se pega pela gola e diz: “Vamos, escreve, ó mascarado! Escreve uma crônica sobre esta cadeira que está aí em tua frente! E que ela seja bem-feita e divirta os leitores!” E o negócio sai de qualquer maneira.

O ideal para um cronista é ter sempre uma os duas crônicas adiantadas. Mas eu conheço muito poucos que o façam. Alguns tentam, quando começam, no afã de dar uma boa impressão ao diretor e ao secretário do jornal. Mas se ele é um verdadeiro cronista, um cronista que se preza, ao fim de duas semanas estará gastando a metade do seu ordenado em mandar sua crônica de táxi – e a verdade é que, em sua inocente maldade, tem um certo prazer em imaginar o suspiro de alívio e a correria que ela causa, quando, tal uma filha desaparecida, chega de volta à casa paterna.


• Para viver um grande amor. Crônicas e poemas. Vinicius de Morais. Companhia das Letras. (224p.)

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