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Cristina Danuta

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Posts by Cristina Danuta

As confissões de Frei Abóbora (3)

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… eu sou parte dos homens. A gente tem o destino de nascer com um pedaço de Cristo, do homem filho de Deus, no coração: é apenas uma miniatura que injetam no coração das crianças. O meu Jesuzinho já começava até a andar quando um padre, um religioso, o assassinou dentro do meu coração. Então, para não ser totalmente abandonado de Deus, adaptei humanamente, já que não poderia fazer mais, Deus à minha inteligência. Ficamos bons amigos. Tomei intimidade com três dos seus maiores parceiros: Tom, Gus e Chico. E vou indo assim com Ele, fazendo as pazes, abusando da Sua Misericórdia, distribuindo sem pretensão um pouco do seu sorriso entre as faces humanas, para que Deus não fique mais triste do que me sinto hoje. (…) Deus! Deus! Deus! Um pouco de piedade hoje. Só hoje. Me ajude. Você conhece a honestidade do meu coração. Você conhece a sinceridade das minhas confissões. Sempre é a você que me mostro sem os sete véus da hipocrisia. Por tudo de lama ou esterco que existia ou existiu no meu coração. Pelas fezes da minha alma e do meu remorso. Pela sujeira em que chafurdei meu Cristo assassinado tão moço. Pela prostituição com que vendi meu corpo entre homens e mulheres. Pelas alucinações dos tóxicos que tomei. Pela fraqueza com que me vendi pela fome aos instintos dos outros. Pelo amor de Paula que me transformou de um gigolô num frade sem batina, um pária sem ninguém, pelas explorações que fiz dos índios, sobretudo pelo meu amor por Paula… Deus… Deus… Deus… ‘Tende piedade de mim. Um sorriso apenas para que não rebente o meu coração de solidão. Tende piedade dessa dor que conheceis. Eu agora vos trato por Vós, meu Deus. E não pode haver maior humildade do que isso…’

José Mauro de Vasconcelos, em As confissões de Frei Abóbora (Melhoramentos)

Um Experimento na Crítica Literária – CS Lewis

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Neste livro o autor afirma que a literatura não deve ser avaliada por um a pseudocapacidade de revelar verdades sobre a vida ou como auxiliar da cultura. Ele acredita que a recepção da obra deve ter um fim em si própria. Para Lewis, quanto mais especificamente literárias forem as observações, menos contaminadas estariam por uma teoria de valor.

O livro considera a literatura uma prática que permite que tenhamos acesso a experiências que não são as nossas. Elas podem ser realistas, estranhas, belas, terríveis, assustadoras, hilariantes, patéticas, cômicas ou picantes, entre infinitas alternativas. Nesse aspecto, a literatura seria uma libertação para que o homem não seja apenas ele mesmo.
Lewis argumenta que a experiência literária aumenta o referencial do indivíduo sem ferir a individualidade. Ler um bom livro significaria ver de mil maneiras o mundo com manutenção da autonomia de pensamento. Torna-se, assim, uma possibilidade de transcendência, ou seja, uma jornada para fora do eu que leva à ampliação da própria capacidade de cada um se relacionar com a realidade.

UM EXPERIMENTO NA CRÍTICA LITERÁRIA
Editora UNESP
Autor: LEWIS, C. S.
Formato: 14X21
Páginas: 128
Edição: 1
Ano: 2009

Trabalhar cansa

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Trabalhar cansa é um livro que vale a pena ler com em ritmo lento. Comecei a leitura dele na sexta-feira e terminei na terça. O poeta foi traduzido do italiano para o português por Maurício Santana Dias, que fez o brilhante e gigantesco trabalho de traduzi-lo preservando a métrica dos versos. O prefácio, de setenta páginas, é fundamental para entender a história de vida de Cesare Pavese e de suas poesias.

Trecho de Mania di Solitudine
Mangio un poco di cena alla chiara finestra.
Nella stanza è giá buio e si vede nel cielo.
A uscir fuori, le vie tranquille conducono
dopo un poco, in aperta campagna.
Mangio e guardo nel cielo — chi se quante donne
stan mangiando a quest’ora — il mio corpo è tranquillo;
il lavoro stordisce il mio corpo e ogni donna.

Mania de Solidão
Como um leve jantar posto à clara janela.
Já está escuro no quarto e se vê pelo céu.
As estradas tranquilas lá fora conduzem,
em um breve percurso, aos campos abertos.
Como e olho para o céu — quiçá quantas mulheres
fazem o mesmo a esta hora — e o meu corpo está calmo;
o trabalho atordoa o meu corpo e as mulheres.

• Trabalhar cansa. Cesare Pavese. Cesare Pavese, Cosac Naify e Viveiro de Castro Editora. (400p.)

Ciumento de carteirinha

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Dizem que os jovens não gostam de ler. Não é verdade. Jovens leem, sim, e leem com prazer, desde que sejam bem motivados. Disso posso dar um exemplo pessoal: na minha turma de colégio tínhamos grandes leitores. Tínhamos não, temos: muitos de nós continuamos amigos e, quando nos reunimos, agora com nossas mulheres e nossos filhos, sempre falamos dos livros que estamos lendo, dos livros que já lemos um dia – livros que, garanto a vocês, fizeram nossa cabeça. A gente aprendeu muita coisa com a leitura, muita coisa que vem nos ajudando pela vida afora. E, muito importante, aprendemos com prazer e emoção. Como dizia o professor Jaime: livro bom é aquele que emociona, que diverte – e que ensina a gente a viver.

trecho de Ciumento de carteirinha, de Moacyr Scliar

Carta a D. – História de um amor

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Carta a D. – História de um amor é, literalmente, uma carta que o escritor André Gorz escreveu para sua esposa, D., já na velhice. Ele fala da história de suas vidas do seu ponto de vista. Qualquer comentário a mais que eu possa fazer, quebrará com as expectativas. Leia, é curto e vale a pena.

Você acabou de fazer oitenta e dois anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais que nunca.

A sua resposta era incontornável: “Se você se une a alguém para a vida inteira, os dois estão pondo em comum sua vida e deixarão de fazer o que divide ou contraria a união. A construção do casal é um projeto comum aos dois, e vocês nunca terminarão de confirmá-lo em função das situações que forem mudando. Nós seremos o que fizermos juntos”. Era quase Sartre.

• Carta a D. – História de um amor. André Gorz. Annablume; Cosac Naify e Éditions Galilée. (80p.)


André e D.

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