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Cristina Danuta

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Posts by Cristina Danuta

A cabana

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Livro badalado, A cabana tem seu grande mérito na maneira como apresenta relação interna da Trindade cristã. O mérito de William P. Young neste texto é mostrar como Deus quer se relacionar com o homem, uma relação de amor e confiança. Há uma forte tendência do autor em se alinhar ao pensamento de que você não precisa da Igreja para se relacionar com Deus. Sem entrar em análises teológicas e eclesiológicas profundas, esta tendência do autor não lhe tira o mérito de conseguir apresentar a Trindade e sua relação interna e com a humanidade. Em resumo? Vale a leitura.
• A cabana. William P. Young. Sextante. (240p.)

As confissões de Frei Abóbora (4)

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– Agora, Zéfa, cante comigo, para festejarmos o meu aniversário. Faz de conta que estamos no seu lindo palácio, num salão enorme, cheio de armaduras reluzentes e que os círios iluminados circundam o vasto salão. Faz de conta que você e eu estamos caminhando de braços dados a distribuir sorrisos pelo ambiente superlotado de gente fina. Veja bem, minha rainha: de um lado estão todos os pederastas, putos, homossexuais, putas, rameiras, velhas cafonas, velhas ninfomaníacas, e toda uma corte de lama e podridão que lamberam a goiabada do meu corpo. E do outro, um bando de gente pobre sem rosto, sem significado, a quem pensei ter feito algum bem, em vez de ser bom… Façamos um leve inclinar respeitoso de cabeça a eles, pois que todos foram feitos à imagem do nosso bom Deus. Não somos nós quem iremos julgá-los, visto porque existem, porque saíram do genocídio de cromossomos que o próprio Deus permitiu que a natureza o fizesse.(…) Não cairá um só cabelo de sua cabeça sem que seja essa a vontade de Deus. Que mania de botar a culpa de tudo em Deus. Imaginem então que trabalheira Deus não deveria ter tido com os carecas. Maior parte do seu tempo passaria nisso e castigando os fabricantes de produtos de nascer cabelo… Bom, vamos soprar a vela e acabar com a festa. Assim que eu dizer flut-flupt, você canta comigo.

“Parabéns para mim
Nessa data querida
Muitas felicidades
Muitos anos de vida…”

– Obrigado, obrigado, minha querida e linda amiguinha.

Ficou com os olhos cheios d’água contemplando o salão que se metamorfoseara de novo nas paredes esburacadas de um rancho e nos círios gigantescos que se fundiram no brilho minúsculo de dois olhos redondos de uma simples lagartixinha coscorenta. Baixou o rosto sobre as mãos e ficou sem vontade de mais nada.

José Mauro de Vasconcelos, em As confissões de Frei Abóbora (Melhoramentos)

C. S. Lewis, sobre a “bondade divina”

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O Amor, por sua natureza, exige o aperfeiçoamento do ser amado e […] a mera “bondade”, que a tudo tolera, exceto o sofrimento no objeto de sua bondade, é nesse aspecto o antípoda do Amor. […] O Amor pode perdoar todas as fraquezas e assim mesmo amar, a despeito delas, mas não pode deixar de querer que elas sejam eliminadas. O Amor é mais sensível que o próprio ódio a cada imperfeição no ser amado. […] De todos os poderes, ele é o que perdoa mais, porém o que menos fecha os olhos: ele se satisfaz com pouco, mas exige tudo.

Quando o Cristianismo afirma que Deus ama o ser humano, está querendo dizer que Deus ama o homem: não que Ele tenha alguma preocupação “desinteressada”— por ser indiferente — com respeito ao nosso bem-estar; mas que, de maneira assustadora e surpreendente, somos os objetos de seu amor. Você pediu um Deus amoroso: agora tem um. O grande ser que você invocou com alegria, o “senhor de temível aspecto”, está presente: não uma benevolência senil que preguiçosamente deseja que você seja feliz à sua maneira; não a fria filantropia de um juiz escrupuloso; tampouco os cuidados de um anfitrião que se sente responsável pela comodidade de seus convidados, mas Ele próprio o fogo a consumir-se, o Amor que criou os mundos; pertinaz como o amor do artista por sua obra e despótico como o amor de um homem por seu cão; providente e venerável como o amor de um pai por seu filho; ciumento e exigente como o amor entre os amantes. Como isso realmente se passa, ignoro. Está além da razão explicar isso por que alguma criatura, para não dizer criaturas como nós, deveria ter um valor tão prodigioso aos olhos de seu Criador. É decerto um fardo de glória não só além de nossos méritos, mas também, exceto raros momentos de graça, além de nossos desejos.

[…]

O problema de reconciliar o sofrimento humano com a existência de um Deus que ama só permanecerá insolúvel se atribuirmos um sentido corriqueiro à palavra “amor” e encararmos as coisas como se o homem fosse o centro delas. O homem não é o centro. Deus não existe para o bem do homem. O homem não existe para o próprio bem. “Criaste todas as coisas, e por tua vontade elas existem e foram criadas” [Ap 4.11]. Não fomos feitos em primeiro lugar para que possamos amar a Deus (embora tenhamos sido criados para isso também), mas para que Deus nos possa amar, para que possamos nos tornar algo em que o amor Divino possa repousar “plenamente satisfeito”. Pedir que o amor de Deus fique satisfeito conosco como somos é pedir que Deus deixe de ser Deus. Pelo fato de Ele ser o que é, Seu amor deverá, na natureza das coisas, ser impedido e repelido por certas nódoas em nosso caráter atual. E, pelo fato de já nos amar, Ele deverá trabalhar para nos tornar amáveis.

C. S. Lewis. O problema do sofrimento. São Paulo: Vida, 2006, p. 55,56,57,58.

As confissões de Frei Abóbora (3)

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… eu sou parte dos homens. A gente tem o destino de nascer com um pedaço de Cristo, do homem filho de Deus, no coração: é apenas uma miniatura que injetam no coração das crianças. O meu Jesuzinho já começava até a andar quando um padre, um religioso, o assassinou dentro do meu coração. Então, para não ser totalmente abandonado de Deus, adaptei humanamente, já que não poderia fazer mais, Deus à minha inteligência. Ficamos bons amigos. Tomei intimidade com três dos seus maiores parceiros: Tom, Gus e Chico. E vou indo assim com Ele, fazendo as pazes, abusando da Sua Misericórdia, distribuindo sem pretensão um pouco do seu sorriso entre as faces humanas, para que Deus não fique mais triste do que me sinto hoje. (…) Deus! Deus! Deus! Um pouco de piedade hoje. Só hoje. Me ajude. Você conhece a honestidade do meu coração. Você conhece a sinceridade das minhas confissões. Sempre é a você que me mostro sem os sete véus da hipocrisia. Por tudo de lama ou esterco que existia ou existiu no meu coração. Pelas fezes da minha alma e do meu remorso. Pela sujeira em que chafurdei meu Cristo assassinado tão moço. Pela prostituição com que vendi meu corpo entre homens e mulheres. Pelas alucinações dos tóxicos que tomei. Pela fraqueza com que me vendi pela fome aos instintos dos outros. Pelo amor de Paula que me transformou de um gigolô num frade sem batina, um pária sem ninguém, pelas explorações que fiz dos índios, sobretudo pelo meu amor por Paula… Deus… Deus… Deus… ‘Tende piedade de mim. Um sorriso apenas para que não rebente o meu coração de solidão. Tende piedade dessa dor que conheceis. Eu agora vos trato por Vós, meu Deus. E não pode haver maior humildade do que isso…’

José Mauro de Vasconcelos, em As confissões de Frei Abóbora (Melhoramentos)

Um Experimento na Crítica Literária – CS Lewis

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Neste livro o autor afirma que a literatura não deve ser avaliada por um a pseudocapacidade de revelar verdades sobre a vida ou como auxiliar da cultura. Ele acredita que a recepção da obra deve ter um fim em si própria. Para Lewis, quanto mais especificamente literárias forem as observações, menos contaminadas estariam por uma teoria de valor.

O livro considera a literatura uma prática que permite que tenhamos acesso a experiências que não são as nossas. Elas podem ser realistas, estranhas, belas, terríveis, assustadoras, hilariantes, patéticas, cômicas ou picantes, entre infinitas alternativas. Nesse aspecto, a literatura seria uma libertação para que o homem não seja apenas ele mesmo.
Lewis argumenta que a experiência literária aumenta o referencial do indivíduo sem ferir a individualidade. Ler um bom livro significaria ver de mil maneiras o mundo com manutenção da autonomia de pensamento. Torna-se, assim, uma possibilidade de transcendência, ou seja, uma jornada para fora do eu que leva à ampliação da própria capacidade de cada um se relacionar com a realidade.

UM EXPERIMENTO NA CRÍTICA LITERÁRIA
Editora UNESP
Autor: LEWIS, C. S.
Formato: 14X21
Páginas: 128
Edição: 1
Ano: 2009

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