Cristina Danuta

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A cidade do sol

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Em cidade do sol., Khaled Hosseini, tenta traçar um panorama histórico do Afeganistão. Parece-me mais uma apresentação do país sob a perspectiva de quem viveu lá. Deixando de lado as questões históricas e políticas, os dramas vividos por Mariam e Laila refletem o contexto social e religioso e revelam como a visão da cultura afegã não pode ser levada em conta somente pelos últimos trinta anos. O livro vale a leitura, e tal qual em O caçador de pipas (que li ano passado), Hosseini não deixa a desejar na descrição do Afeganistão e das mazelas sofridas pelas crianças e mulheres.
Mais tarde, depois que Rashid as deixou em casa e pegou o ônibus para ir trabalhar, Laila viu a filha acenando e se arrastando junto ao muro do orfanato. Lembrou da gagueira de Aziza,e do que ela tinha dito a respeito de fraturas e colisões fortíssimas que aconteciam bem lá no fundo, mas que, às vezes, nós só percebíamos como um ligeiro tremor na superfície.

• A cidade do sol. Khaled Hosseini Editora Nova Fronteira (368p.)

Barro Blanco (2)

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HOMENS! Chamar aquilo de homens! Aqueles seres que se fartavam de água. Depois, saindo à procura de comida pelo amor de Deus! A comida que a água bebida ensinava o estômago a reclamar. E eram muitos os homens estendendo as mãos para a caridade. Formando uma paisagem podre que faria doer a vista do citadino. Aqueles seres, para o higiênico, limpo e sadio homem da cidade, não podiam ser semelhantes seus, por mais que a religião de Cristo propagasse que sim.

Aquilo era mais uma fileira de caranguejos, recém-saídos da imundície dos mangues. Trazendo o odor, a catinga da lama dos brejos negros do Rio Potengi. Aqueles não podiam ser homens. Aqueles olhos que chamejavam inveja e cobiça, por tudo! Aqueles olhos trazendo uma marca de vingança, uma vontade de matar e de roubar, não eram de seres humanos. Eram, sim, de brutos, que não se importavam mais com o significado de civilização e de humanidade. Eles roubariam porque a seca tudo lhes roubara, deixando tanta coisa para o homem da cidade. Eles matariam porque a seca deixara as suas esperanças misturadas com o pó rachado do sertão, completamente mortas. A seca deixara, entretanto, para os homens da cidade, um ar sombrio de superioridade.

José Mauro de Vasconcelos, em Barro Blanco (Melhoramentos)

Cobra Norato

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“-E agora, compadre

vou de volta pro Sem-fim

Vou lá para as terras altas
onde a serra se amontoa
onde correm os rios de águas claras
entre moitas de mulungu

Quero levar minha noiva
Quero estarzinho com ela
numa casa de morar
com porta azul piquininha
pintada a lápis de cor

Quero sentir a quentura
do seu corpo de vaivém
Querzinho de ficar junto
quando a gente quer bem bem

Ficar à sombra do mato
ouvir a jurucutu
águas que passam cantando
pra gente se espreguiçar

E quando estivermos à espera
que a noite volte outra vez
hei de le contar histórias
escrever nomes na areia
pro vento brincar de apagar”

Raul Bopp

Barro Blanco

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eChegara o mês de outubro. A segunda quinzena se fora. Agora era época de ansiedade: seca. Podia ser como todos os anos. Podia ser também uma seca que durasse um, dois, três anos. Já tinha acontecido antes. A seca se prolongara por muitos anos e o flagelo começou a varrer todas as bandas do sertão do Rio Grande do Norte.

A miséria humana se desenvolveu tremendamente enquanto o sertão minguava, a ponto de expelir a gente que nascera ali para outras partes. Os homens ressequidos, as mulheres cadavéricas, as crianças barrigudas e amarelas, invadiam as cidades. Estendiam as mãos ossudas e pediam mais vida do que esmola. E os olhos do povo da cidade se enchiam mais de nojo que de piedade. Aquela miséria não comovia o coração, mas incomodava os olhos.
O cheiro e a miséria dos trapos também nada significavam para os homens da cidade. Os homens da cidade, que lêem os evangelhos, nunca se poderiam considerar irmãos daqueles espectros famintos. Aquilo não era gente. Era, sim, parte da terra, do sertão que secara. Barro queimado e inchado. Barro queimado e ressecado. Terra. Pó.

José Mauro de Vasconcelos, em Barro Blanco (Melhoramentos)

A cabana

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Livro badalado, A cabana tem seu grande mérito na maneira como apresenta relação interna da Trindade cristã. O mérito de William P. Young neste texto é mostrar como Deus quer se relacionar com o homem, uma relação de amor e confiança. Há uma forte tendência do autor em se alinhar ao pensamento de que você não precisa da Igreja para se relacionar com Deus. Sem entrar em análises teológicas e eclesiológicas profundas, esta tendência do autor não lhe tira o mérito de conseguir apresentar a Trindade e sua relação interna e com a humanidade. Em resumo? Vale a leitura.
• A cabana. William P. Young. Sextante. (240p.)

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