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Elogiada por Obama, autora enfrentou família para entrar na escola aos 17

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Tara Westover (//Divulgação)

Tara Westover fala a VEJA sobre a vida reclusa articulada pelo pai extremista até a defesa de seu doutorado em Cambridge: ‘Estudar foi viciante’

 

Meire Kusumoto, na Veja

Até os 17 anos, a americana Tara Westover nunca tinha entrado em uma sala de aula. Dez anos depois, defendeu seu doutorado em história na tradicional Universidade de Cambridge, uma das mais conceituadas do mundo. Para isso, precisou deixar para trás, em sua cidade natal ao pé de uma montanha na área rural do estado de Idaho, nos Estados Unidos, um pai que estocava comida e gasolina para se preparar para o caos do fim do mundo, um irmão que a agredia e uma família que não acreditava no poder da educação ou da medicina tradicional.

Tara é filha de mórmons sobrevivencialistas, como são chamadas as pessoas que acreditam que devem se preparar para emergências provocadas por catástrofes naturais ou rupturas na ordem social e política. O pai de Tara desacreditava o governo, por isso demorou até mesmo para registrar vários de seus filhos — a jovem, por exemplo, só ganhou certidão de nascimento aos 9 anos. Também não matriculou as crianças na escola e não se preocupava em levá-las para o hospital quando se machucavam — achava que sua mulher, que sabia trabalhar com ervas, poderia resolver qualquer enfermidade.

Tara não convivia com pessoas de sua idade e só começou a frequentar aulas tradicionais na faculdade, depois de passar meses estudando sozinha em casa, escondida dos pais, para fazer o exame de admissão. A contragosto, seu pai acabou aceitando que ela fosse estudar na Brigham Young University, uma faculdade privada mantida pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Mas a relação dos dois acabou se deteriorando até se tornar inexistente por outro motivo: a revelação por parte de Tara de que sofria com o abuso de seu irmão mais velho, Shawn, que, violentamente, torcia seu pulso, puxava seu cabelo e enfiava sua cabeça no vaso sanitário a cada desentendimento. Seu pai não aceitou que isso fosse verdade, e proibiu toda a família de manter relações com Tara.

A jovem decidiu contar essa história no livro de memórias A Menina da Montanha, que acaba de ser publicado no Brasil pela Rocco. Lançada em fevereiro no país americano, a obra, que reflete sobre família e educação sem apelar para a autoajuda, se tornou um sucesso: angariou elogios da crítica especializada e permanece há 29 semanas na lista de mais vendidos do jornal The New York Times. Para finalizar, o livro ainda entrou para a lista de leituras de verão do ex-presidente americano Barack Obama, que chamou a obra de “excepcional”.

A VEJA, Tara fala sobre a infância, os primeiros momentos na escola e a relação com a família. Confira a entrevista:

Como descreveria a sua infância? Foi complicada. Em muitos sentidos, foi bonita, cresci em uma bela montanha, meus pais me amavam, pude brincar na fazenda, onde tínhamos animais, era idílico. Mas o ferro-velho que meu pai mantinha era perigoso e, como meus pais não acreditavam em médicos, nós não recebíamos atendimento quando nos machucávamos. Eu tinha um irmão mais velho que era violento e algumas questões não eram resolvidas da maneira que deveriam ter sido.

Acha que o que seu irmão Shawn fez vai impactar a sua vida para sempre?
Por um tempo, tive muitos problemas emocionais por causa disso, não conseguia confiar nas pessoas ou me abrir com elas. Levou alguns anos para que eu pudesse superar isso. Ele usava uma palavra com muita frequência comigo, uma palavra nociva e que me magoava. Ele me chamava de p***. Para uma garota de 16 anos, isso influencia a percepção que ela tem dela mesma de uma maneira negativa. Meu irmão tem muito poder sobre mim, ele me definiu para mim mesma e acho que não há poder maior do que esse.

Seus pais pararam de falar com você quando revelou o abuso que sofria de Shawn. Como lida com isso? Para sempre será uma tragédia eu ter precisado abrir mão dos meus pais para que pudesse cuidar de mim mesma. Queria muito que essa escolha nunca tivesse existido, mas uma vez que apareceu, sou grata por ter conseguido deixá-los e cuidar de mim. Isso não significa que eu não os ame ou que não valorize a vida que eles levam, mas levou muito tempo para que eu percebesse que há limites para as obrigações que temos com as nossas famílias. Às vezes, quando o que você deve à sua família está em conflito com o que você deve a si mesmo, tudo bem escolher a si mesmo. Hoje não sei se um dia vamos voltar a ter contato, está fora das minhas mãos. É uma decisão que eles têm que fazer.

Seu pai e seu irmão Shawn sempre falavam sobre como uma mulher decente deveria ser e agir. Como isso influenciou a sua noção do gênero feminino? Internalizei parte da retórica que culpa a mulher por sentimentos e ações que os homens têm. Nunca tinha ouvido falar de feminismo até ir estudar em Cambridge, quando tinha 21 anos. Precisei pensar muito sobre essas ideias, textos e o que eu via. Cresci com uma ideia muito particular do que era ser mulher, e para mim isso estava muito ligado à maternidade. Eu não tinha uma concepção de mulheres fazendo ou sendo algo além disso. Levei muitos anos para que eu confiasse nos meus próprios instintos sobre quem eu era em vez do que o que as outras pessoas me diziam. Hoje, me considero feminista.

De onde veio a força para estudar sozinha para tentar uma vaga na faculdade? Não tenho certeza, mas eu sabia que não queria trabalhar mais com o meu pai. Não tinha muita noção do que era educação ou faculdade, mas sabia que seriam coisas diferentes da vida que eu levava e que a vida que eu tinha não era o que eu queria. Quando descobri que tinha passado no teste e iria começar a faculdade, aos 17 anos, fiquei nervosa e ao mesmo tempo animada, porque era uma oportunidade de sair pela porta e encontrar um mundo diferente.

Como foi o período de adaptação? Eu não tinha o traquejo social de que precisava, porque nunca tinha passado muito tempo com pessoas da minha própria idade. Acho que sempre terei um pouco de ansiedade social. Eu tendo a pensar demais nas coisas e a querer uma fórmula para interagir com as pessoas, e não existe fórmula. Nos estudos, também foi complicado, porque eu não tinha conhecimento sobre muita coisa. Uma das primeiras questões que fiz na faculdade foi perguntando o que era o holocausto, nunca tinha ouvido falar naquilo antes. Também não sabia o que eram direitos civis e achava que a Europa era um país, não um continente. Havia muitos buracos na minha educação que me separavam dos outros estudantes.

No livro, você conta que uma vez te perguntaram se sentia raiva por seus pais nunca a terem colocado na escola. Você, instintivamente, disse que não. Como vê esse assunto hoje? Cresci com a forte ideia de respeito e não sentia que tinha o direito de ter raiva dos meus pais por isso. Sempre era meu instinto concordar com eles e não os criticar. Respeito é uma coisa boa, no geral, mas no meu caso foi difícil por ter sofrido tanto na faculdade e não conseguir entender por que eu não tinha tido uma educação elementar. Foi difícil aceitar que eu talvez não concordasse com a maneira como meus pais tinham me criado.

Por que decidiu estudar história? Aprender sobre história, quando eu nunca tinha tido a oportunidade antes, foi muito viciante porque pude ver todas as perspectivas. Quando criança, fui criada com perspectiva do meu pai. De repente ter acesso a vários pontos de vista diferentes fez com que eu pudesse escolher o que pensar, e não apenas assumir a visão de mundo que meu pai tinha. Foi viciante e um ato de autoafirmação.

O prólogo do livro diz que ele não é sobre religião, que há pessoas religiosas boas e ruins. Incomoda a você a associação que algumas pessoas fazem da religião como algo ruim? É uma simplificação excessiva, reducionista. Há pessoas boas, ruins, gentis, imprudentes, patéticas, egoístas. Vi todo tipo de pessoa com todo tipo de crença e nunca achei que você ter uma crença define se você é gentil ou não. No caso do meu pai, a religião era um fator, mas eu sempre achei que ele sofria de alguma doença mental, como bipolaridade. Acredito que a doença mental provavelmente foi o que levou ao extremismo religioso e não o contrário. Hoje não sou religiosa, me considero agnóstica. Mas sou amigável a religiões, não tenho pensamentos ou sentimentos negativos em relação a isso.

Como foi descobrir que seu livro estava na lista de leitura de verão de Barack Obama?
Foi muito emocionante descobrir que meu livro estava sendo lido por um ex-presidente. Fiquei muito animada e muito grata a ele por ter dispensado tempo para isso. Achei que ele trouxe boas reflexões.

USP oferecerá curso sobre Harry Potter

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Cesar Gaglioni no Jovem Nerd

A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo anunciou que oferecerá um curso livre e gratuito sobre os livros de Harry Potter. A informação é do Estadão.

As aulas, ministradas pelos professores Beatriz Masson, Luiz Felipe Rocha e Victor Henrique da Silva Menezes, serão focadas nos aspectos literários da obra de J.K. Rowling, analisando, dentre outras coisas os arquétipos presentes na saga e como a autora construiu os personagens masculinos e femininos presentes nos sete livros. O conteúdo programático completo pode ser lido aqui.

O curso começa em 14 de setembro e se estende até 19 de outubro, com as aulas acontecendo às sextas-feiras das 14h às 17h. Os candidatos precisam ter pelo menos 18 anos e terem lido os sete livros da série. As inscrições podem ser feitas neste link.

Nunca se escreveu tanto, tão errado e se interpretou tão mal

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Ana Moioli, 18, tirou nota máxima na redação do Enem em 2016
Marcus Leoni – 10.mar.16/Folhapress

Saber ler e interpretar é questão de sobrevivência e amplia nossos horizontes

Otávio Pinheiro, na Folha de S.Paulo

A pesquisa Indicador de Alfabetismo Funcional, conduzida pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com a ONG Ação Educativa, aponta que apenas 22% dos brasileiros que chegaram à universidade têm plena condição de compreender e se expressar.

Na prática, esses jovens adultos estão no chamado nível proficiente –o mais avançado estágio de alfabetismo. São leitores capazes de entender e se expressar por meio de letras e números. Mais ainda, compreendem e elaboraram textos de diferentes modalidades (email, descrição e argumentação) e estão aptos a opinar sobre um posicionamento ou estilo de autores de textos.

Em contrapartida, a pesquisa de 2016 aponta que 4% dos universitários estão no grupo de analfabetos funcionais.

Os dados de leitura, escrita e interpretação do Brasil ajudam a entender algumas das origens desse baixo índice de letramento como, por exemplo, os resultados de Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2014, que mostra que 537 mil alunos zeraram a redação da prova –ou seja, quase 10% do total de 6 milhões de participantes que entregaram a prova. Em 2017, por sua vez, 309 mil alunos zeraram a redação, e apenas 53 tiraram a nota máxima.

Na análise do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), a distância do Brasil em relação a outros países é imensa. Os dados de 2016 colocam luz sobre um dos problemas cruciais da educação brasileira, visto que indicam que entre os 70 países avaliados, o Brasil fica na posição 59 em termos de leitura e interpretação.

Com todas as evidências e dados, é hora de colocar a escrita, a leitura e a interpretação como bandeira em todos os níveis da sociedade. A capacidade de comunicação e a linguística são habilidades complexas do ser humano e, para exercitar, precisamos de estímulos, referências e políticas de Estado que deem prioridade a estes aspectos educacionais.

A leitura nos leva a aprender, a sonhar e a ter experiências de lógica, além de vivências criativas que mudam vidas. A vida é construída com falas, recepção, risos, sarcasmos, fábulas. Também é construída a partir do entendimento daquilo que é diferente, entendimento do outro.

Quando converso com professores, empresários, pais e mães –ou seja, com várias matrizes da sociedade–, todos falam que um número expressivo de pessoas tem dificuldades de escrita, leitura e interpretação. Em muitos casos, o mundo fica difícil de ser interpretado.

Espinhoso e polêmico, o problema da educação no Brasil não será resolvido com uma bala de prata, uma única iniciativa. Deve-se pensar em soluções integradas como a Olimpíada Brasileira de Redação, que estimula a mobilização de todos os estudantes do país.

É preciso que os processos de recrutamento das empresas deem mais valor para atividades que incluam o texto como avaliação. E também contar com os negócios de impacto social focados em educação para endereçarem soluções viáveis.

Como educador, tenho acompanhado com perplexidade que nunca se escreveu tanto, tão errado e se interpretou tão mal na história da humanidade. Como empreendedor da Redação Online –primeira edutech acelerada na Estação Hack, iniciativa do Facebook em parceria com a Artemisia– defendo que o empreendedorismo de impacto social é uma importante ferramenta para vencer esse desafio de melhorar o letramento dos brasileiros.

A Redação Online é uma solução que viabiliza correções de redações preparatórias para Enem, vestibulares e concursos, com qualidade e em escala nacional. São 32 mil estudantes atendidos, sendo 35% oriundos de escolas públicas.

Em 2018, tivemos a alegria de ter, entre os alunos, 120 aprovados em medicina, a maioria deles vindos de escolas públicas. Em locais como Ilha de Marajó, com acesso de internet difícil, a solução comprova o impacto social. Com um upload rápido, o aluno pode baixar o conteúdo em uma área com wayfi, por exemplo. É diferente da aula online que requer um serviço de internet melhor.

A cada dez alunos do Redação Online, oito aumentaram as próprias notas em até 400 pontos. Hoje, temos uma rede de 600 revisores em todo o Brasil que, além da correção ortográfica, traçam comentários sobre como melhorar, dicas de livros e links de conteúdo.

Defendo que saber ler e interpretar é questão de sobrevivência. O prazer de ler, escrever e interpretar amplia nossos horizontes, amplifica a nossa imaginação e nos liberta de preconceitos, extremismos e opiniões fundamentalistas.

Do Paquistão ao Brasil: Como Malala Yousafzai quer garantir acesso à educação de qualidade para meninas

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MIGUEL SCHINCARIOL via Getty Images
Malala Yousafzai: A jovem baleada pelo Talibã que hoje é sinônimo de luta pela educação de meninas no mundo.

Ativista paquistanesa, que também é a mais jovem vencedora do Prêmio Nobel da Paz, veio ao Brasil para falar sobre empoderamento: “Meu pai foi um homem que quebrou barreiras por me deixar estudar.”

Andrea Martinelli, no HuffpostBrasil

Uma menina com uma caneta na mão está imbuída do poder de mudar o mundo. Por meio da leitura e da escrita, ela pode contar a própria história e elevar sua voz. Mas não é tão simples quanto parece. Só no Brasil, cerca de 1,5 milhão de meninas não têm acesso à educação básica — e, assim, não podem falar por si mesmas. “O empoderamento feminino vem da educação, tem a ver com emancipação”, afirmou a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, de 20 anos, na tarde desta segunda-feira (9), em palestra que marca sua primeira visita ao Brasil.

O evento, direcionado a estudantes de escolas públicas de todo o Brasil e a organizações que trabalham com educação, lotou o Auditório Ibirapuera, que comporta cerca de 800 pessoas. Em sua fala de abertura, Malala agradeceu a hospitalidade brasileira, e trouxe dados que justificaram sua visita ao País, e que expõem uma realidade vivida por meninas em todo o mundo — e que ela luta para mudar.

“Recebi muitas cartas de apoio e mensagens do Brasil, pedindo que eu um dia viesse aqui. Este país tem uma grande energia que emana dos jovens, e minha esperança é encontrarmos maneiras de todas as meninas daqui terem acesso à educação, sobretudo de comunidades afrodescendentes e indígenas”, afirmou.

“Existem 1,5 milhão de meninas sem acesso à escola no Brasil. Quero encontrar meios para mudar isso”, disse. E continua: “Trabalhando junto com os defensores da educação, com a intenção de devolver às pessoas a esperança de se sentirem seguras, de que vão receber um ensino de alta qualidade”.

MIGUEL SCHINCARIOL via Getty Images
Malala em palestra no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo. Em poucos dias, a ativista lançará projetos do Fundo Malala no Brasil.

Além dos dados alarmantes, outra razão que trouxe Malala ao Brasil foi a força das organizações locais para alcançar melhorias na educação, para além de políticas públicas. Além de demonstrar interesse em promover educação entre as comunidades menos favorecidas, ela anunciou que nos próximos dias serão divulgados projetos do Fundo Malala no Brasil.

Quando tinha 15 anos, Malala foi atingida por um tiro quando voltava da escola. Era um ataque promovido pelos talibãs, no Vale do Swat, localizado no Paquistão. O motivo? Manifestar-se publicamente contra a proibição da educação para as mulheres em seu país. Hoje, ela, além de sobrevivente, é a mulher mais jovem a receber um Prêmio Nobel da Paz.

Muito mais do que saber ler e escrever, para Malala a educação é uma ferramenta poderosa de transformação do mundo — que alguns ainda enxergam como ameaça. “Eu também fui privada de educação quando o Talibã proibiu meninas de estudarem. Fui um alvo porque eles entenderam que o empoderamento feminino vinha da educação, que tem a ver com emancipação”, disse. “Trata-se não só de aumentar o conhecimento das mulheres, mas também crescer economias, fortalecer democracias e dar estabilidade aos países. A educação é o melhor investimento sustentável a longo prazo”.

Ela compartilhou uma situação em que uma colega da escola chegou atrasada para aula. A garota tinha de esperar os pais saírem de casa e, assim, sair para estudar escondida. “O papel dos pais e das mães é fundamental no empoderamento feminino”, disse. “É importante que as mulheres se expressem. As mulheres têm que quebrar essas barreiras”, completou.

A paquistanesa lembrou que, quando era uma aluna em seu país, outras colegas de sua classe também defendiam a educação feminina assim como ela, mas em segredo. “A diferença é que os meus pais nunca me impediram de falar o que eu pensava”.

Para compor a mesa de debate mediada pela jornalista Adriana Carranca, autora de diversas reportagens que se transformaram em livros sobre o Talibã, além do infantojuvenil Malala – A menina que queria ir para a escola, estavam Tábata Amaral, de 24 anos, nascida na periferia de São Paulo, que estuda astrofísica em Harvard; Conceição Evaristo, de 71 anos, doutora em literatura comparada e vencedora do Prêmio Jabuti; Ana Lúcia Vilela, de 45 anos, do Instituto Alana e Dagmar Rivieri Garroux, de 64 anos, da ONG Casa do Zezinho.

E a emoção não foi pouca. Com o auditório lotado, o microfone também foi dado a ativistas e estudantes que estavam na plateia. Assim que as participantes falaram sobre importância da leitura, a adolescente mineira Livia Reis levantou e contou que criou um projeto para alfabetizar os mais velhos, já que vive em uma comunidade em que 66% das pessoas não sabem ler ou escrever. Em outro momento, MC Soffia, de 14 anos, pegou o microfone, falou sobre o poder de enaltecer a própria beleza (em especial, a das mulheres negras) e fechou seu discurso afirmando que “a maior arma contra o racismo é o conhecimento”.

Em seguida, jovens que também estavam na plateia puderam fazer perguntas a Malala. De formas distintas, todos queriam saber: como não desistir do ativismo diante de um cenário cruel? Como ela, Malala, encontra forças para não sucumbir à raiva e continuar a lutar pela educação? Como os jovens brasileiros podem fazer para ampliar sua luta?

Ela respondeu:

“[Naquela época] Havia muitas meninas da minha turma que queriam levantar suas vozes pela educação. Eu não tinha nada de especial nem era mais inteligente do que qualquer garota do Vale do Swat. Mas a minha diferença é que meu pai não me impediu de continuar. Muitas vezes a primeira luta é essa: contra nós mesmos. Meu pai foi um homem que quebrou barreiras por me deixar estudar”, disse.

“Meninas da Nigéria estão enfrentando o extremo perigo de serem raptadas, enquanto garotas de Paquistão, Índia e América Latina são forçadas a se casar muito cedo ou são vítimas de abusos sexuais. Elas continuam a lutar e não perdem a esperança. Se elas não perdem a esperança, porque deveríamos nós?”, afirmou, sob aplausos.

Para Malala, foi em 9 de outubro de 2012 que tudo mudou. De dentro de um ônibus escolar, ao lado de outras meninas, ela voltava para casa depois de um dia letivo e foi alvo de um ataque a tiros por membros do Talibã. À época a jovem morava no Vale do Swat, uma região no norte do Paquistão, e defendia publicamente, em um blog, o direito à educação para meninas em seu país — pensamento este que os talibãs não compartilham.

Malala foi atingida na cabeça em um atentado que chocou o Paquistão e o mundo. Com a repercussão, entidades internacionais foram acionadas e ela foi retirada de seu país ao lado de sua família e levada para o Reino Unido. Em uma cirurgia de sucesso, médicos conseguiram salvar a vida de Malala que, hoje, terminou o Ensino Médio e faz graduação em Ciências Sociais na Universidade de Oxford.

Recentemente, cercada por um forte esquema de segurança, a menina que hoje é uma das maiores ativistas mundiais, retornou ao seu país de origem. Logo após o atentado, o Vale do Swat havia sido tomado pelo Talibã, numa ofensiva que matara mais de 2 mil pessoas, e posteriormente retomado pelos militares paquistaneses.

“Meu sonho se tornou realidade”, escreveu em texto publicado no site do Malala Fund, ONG que criou para expandir seu trabalho como ativista. “Quando eu não voltei para casa da escola naquele dia em 2012, minha mãe se perguntou se eu um dia veria meu quarto de novo, se ela um dia teria um momento quieto com sua filha em nossa casa”.

Hoje, a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã virou livro, documentário e símbolo pela emancipação de meninas ao redor do mundo por meio de papel e caneta.

“Muitos me perguntam se sinto raiva de quem cometeu o atentado contra mim. E eu costumo dizer que a minha maior vingança é promover a educação. Eu não sinto raiva. Quando você fala com raiva e violência, a mensagem é perdida. Uma mensagem pacífica tem um poder oculto. Quando você converte a energia da raiva em energia positiva ninguém pode te ignorar”, completou, ao ser aplaudida de pé em São Paulo.

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