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educação

Nunca se escreveu tanto, tão errado e se interpretou tão mal

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Ana Moioli, 18, tirou nota máxima na redação do Enem em 2016
Marcus Leoni – 10.mar.16/Folhapress

Saber ler e interpretar é questão de sobrevivência e amplia nossos horizontes

Otávio Pinheiro, na Folha de S.Paulo

A pesquisa Indicador de Alfabetismo Funcional, conduzida pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com a ONG Ação Educativa, aponta que apenas 22% dos brasileiros que chegaram à universidade têm plena condição de compreender e se expressar.

Na prática, esses jovens adultos estão no chamado nível proficiente –o mais avançado estágio de alfabetismo. São leitores capazes de entender e se expressar por meio de letras e números. Mais ainda, compreendem e elaboraram textos de diferentes modalidades (email, descrição e argumentação) e estão aptos a opinar sobre um posicionamento ou estilo de autores de textos.

Em contrapartida, a pesquisa de 2016 aponta que 4% dos universitários estão no grupo de analfabetos funcionais.

Os dados de leitura, escrita e interpretação do Brasil ajudam a entender algumas das origens desse baixo índice de letramento como, por exemplo, os resultados de Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2014, que mostra que 537 mil alunos zeraram a redação da prova –ou seja, quase 10% do total de 6 milhões de participantes que entregaram a prova. Em 2017, por sua vez, 309 mil alunos zeraram a redação, e apenas 53 tiraram a nota máxima.

Na análise do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), a distância do Brasil em relação a outros países é imensa. Os dados de 2016 colocam luz sobre um dos problemas cruciais da educação brasileira, visto que indicam que entre os 70 países avaliados, o Brasil fica na posição 59 em termos de leitura e interpretação.

Com todas as evidências e dados, é hora de colocar a escrita, a leitura e a interpretação como bandeira em todos os níveis da sociedade. A capacidade de comunicação e a linguística são habilidades complexas do ser humano e, para exercitar, precisamos de estímulos, referências e políticas de Estado que deem prioridade a estes aspectos educacionais.

A leitura nos leva a aprender, a sonhar e a ter experiências de lógica, além de vivências criativas que mudam vidas. A vida é construída com falas, recepção, risos, sarcasmos, fábulas. Também é construída a partir do entendimento daquilo que é diferente, entendimento do outro.

Quando converso com professores, empresários, pais e mães –ou seja, com várias matrizes da sociedade–, todos falam que um número expressivo de pessoas tem dificuldades de escrita, leitura e interpretação. Em muitos casos, o mundo fica difícil de ser interpretado.

Espinhoso e polêmico, o problema da educação no Brasil não será resolvido com uma bala de prata, uma única iniciativa. Deve-se pensar em soluções integradas como a Olimpíada Brasileira de Redação, que estimula a mobilização de todos os estudantes do país.

É preciso que os processos de recrutamento das empresas deem mais valor para atividades que incluam o texto como avaliação. E também contar com os negócios de impacto social focados em educação para endereçarem soluções viáveis.

Como educador, tenho acompanhado com perplexidade que nunca se escreveu tanto, tão errado e se interpretou tão mal na história da humanidade. Como empreendedor da Redação Online –primeira edutech acelerada na Estação Hack, iniciativa do Facebook em parceria com a Artemisia– defendo que o empreendedorismo de impacto social é uma importante ferramenta para vencer esse desafio de melhorar o letramento dos brasileiros.

A Redação Online é uma solução que viabiliza correções de redações preparatórias para Enem, vestibulares e concursos, com qualidade e em escala nacional. São 32 mil estudantes atendidos, sendo 35% oriundos de escolas públicas.

Em 2018, tivemos a alegria de ter, entre os alunos, 120 aprovados em medicina, a maioria deles vindos de escolas públicas. Em locais como Ilha de Marajó, com acesso de internet difícil, a solução comprova o impacto social. Com um upload rápido, o aluno pode baixar o conteúdo em uma área com wayfi, por exemplo. É diferente da aula online que requer um serviço de internet melhor.

A cada dez alunos do Redação Online, oito aumentaram as próprias notas em até 400 pontos. Hoje, temos uma rede de 600 revisores em todo o Brasil que, além da correção ortográfica, traçam comentários sobre como melhorar, dicas de livros e links de conteúdo.

Defendo que saber ler e interpretar é questão de sobrevivência. O prazer de ler, escrever e interpretar amplia nossos horizontes, amplifica a nossa imaginação e nos liberta de preconceitos, extremismos e opiniões fundamentalistas.

Do Paquistão ao Brasil: Como Malala Yousafzai quer garantir acesso à educação de qualidade para meninas

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MIGUEL SCHINCARIOL via Getty Images
Malala Yousafzai: A jovem baleada pelo Talibã que hoje é sinônimo de luta pela educação de meninas no mundo.

Ativista paquistanesa, que também é a mais jovem vencedora do Prêmio Nobel da Paz, veio ao Brasil para falar sobre empoderamento: “Meu pai foi um homem que quebrou barreiras por me deixar estudar.”

Andrea Martinelli, no HuffpostBrasil

Uma menina com uma caneta na mão está imbuída do poder de mudar o mundo. Por meio da leitura e da escrita, ela pode contar a própria história e elevar sua voz. Mas não é tão simples quanto parece. Só no Brasil, cerca de 1,5 milhão de meninas não têm acesso à educação básica — e, assim, não podem falar por si mesmas. “O empoderamento feminino vem da educação, tem a ver com emancipação”, afirmou a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, de 20 anos, na tarde desta segunda-feira (9), em palestra que marca sua primeira visita ao Brasil.

O evento, direcionado a estudantes de escolas públicas de todo o Brasil e a organizações que trabalham com educação, lotou o Auditório Ibirapuera, que comporta cerca de 800 pessoas. Em sua fala de abertura, Malala agradeceu a hospitalidade brasileira, e trouxe dados que justificaram sua visita ao País, e que expõem uma realidade vivida por meninas em todo o mundo — e que ela luta para mudar.

“Recebi muitas cartas de apoio e mensagens do Brasil, pedindo que eu um dia viesse aqui. Este país tem uma grande energia que emana dos jovens, e minha esperança é encontrarmos maneiras de todas as meninas daqui terem acesso à educação, sobretudo de comunidades afrodescendentes e indígenas”, afirmou.

“Existem 1,5 milhão de meninas sem acesso à escola no Brasil. Quero encontrar meios para mudar isso”, disse. E continua: “Trabalhando junto com os defensores da educação, com a intenção de devolver às pessoas a esperança de se sentirem seguras, de que vão receber um ensino de alta qualidade”.

MIGUEL SCHINCARIOL via Getty Images
Malala em palestra no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo. Em poucos dias, a ativista lançará projetos do Fundo Malala no Brasil.

Além dos dados alarmantes, outra razão que trouxe Malala ao Brasil foi a força das organizações locais para alcançar melhorias na educação, para além de políticas públicas. Além de demonstrar interesse em promover educação entre as comunidades menos favorecidas, ela anunciou que nos próximos dias serão divulgados projetos do Fundo Malala no Brasil.

Quando tinha 15 anos, Malala foi atingida por um tiro quando voltava da escola. Era um ataque promovido pelos talibãs, no Vale do Swat, localizado no Paquistão. O motivo? Manifestar-se publicamente contra a proibição da educação para as mulheres em seu país. Hoje, ela, além de sobrevivente, é a mulher mais jovem a receber um Prêmio Nobel da Paz.

Muito mais do que saber ler e escrever, para Malala a educação é uma ferramenta poderosa de transformação do mundo — que alguns ainda enxergam como ameaça. “Eu também fui privada de educação quando o Talibã proibiu meninas de estudarem. Fui um alvo porque eles entenderam que o empoderamento feminino vinha da educação, que tem a ver com emancipação”, disse. “Trata-se não só de aumentar o conhecimento das mulheres, mas também crescer economias, fortalecer democracias e dar estabilidade aos países. A educação é o melhor investimento sustentável a longo prazo”.

Ela compartilhou uma situação em que uma colega da escola chegou atrasada para aula. A garota tinha de esperar os pais saírem de casa e, assim, sair para estudar escondida. “O papel dos pais e das mães é fundamental no empoderamento feminino”, disse. “É importante que as mulheres se expressem. As mulheres têm que quebrar essas barreiras”, completou.

A paquistanesa lembrou que, quando era uma aluna em seu país, outras colegas de sua classe também defendiam a educação feminina assim como ela, mas em segredo. “A diferença é que os meus pais nunca me impediram de falar o que eu pensava”.

Para compor a mesa de debate mediada pela jornalista Adriana Carranca, autora de diversas reportagens que se transformaram em livros sobre o Talibã, além do infantojuvenil Malala – A menina que queria ir para a escola, estavam Tábata Amaral, de 24 anos, nascida na periferia de São Paulo, que estuda astrofísica em Harvard; Conceição Evaristo, de 71 anos, doutora em literatura comparada e vencedora do Prêmio Jabuti; Ana Lúcia Vilela, de 45 anos, do Instituto Alana e Dagmar Rivieri Garroux, de 64 anos, da ONG Casa do Zezinho.

E a emoção não foi pouca. Com o auditório lotado, o microfone também foi dado a ativistas e estudantes que estavam na plateia. Assim que as participantes falaram sobre importância da leitura, a adolescente mineira Livia Reis levantou e contou que criou um projeto para alfabetizar os mais velhos, já que vive em uma comunidade em que 66% das pessoas não sabem ler ou escrever. Em outro momento, MC Soffia, de 14 anos, pegou o microfone, falou sobre o poder de enaltecer a própria beleza (em especial, a das mulheres negras) e fechou seu discurso afirmando que “a maior arma contra o racismo é o conhecimento”.

Em seguida, jovens que também estavam na plateia puderam fazer perguntas a Malala. De formas distintas, todos queriam saber: como não desistir do ativismo diante de um cenário cruel? Como ela, Malala, encontra forças para não sucumbir à raiva e continuar a lutar pela educação? Como os jovens brasileiros podem fazer para ampliar sua luta?

Ela respondeu:

“[Naquela época] Havia muitas meninas da minha turma que queriam levantar suas vozes pela educação. Eu não tinha nada de especial nem era mais inteligente do que qualquer garota do Vale do Swat. Mas a minha diferença é que meu pai não me impediu de continuar. Muitas vezes a primeira luta é essa: contra nós mesmos. Meu pai foi um homem que quebrou barreiras por me deixar estudar”, disse.

“Meninas da Nigéria estão enfrentando o extremo perigo de serem raptadas, enquanto garotas de Paquistão, Índia e América Latina são forçadas a se casar muito cedo ou são vítimas de abusos sexuais. Elas continuam a lutar e não perdem a esperança. Se elas não perdem a esperança, porque deveríamos nós?”, afirmou, sob aplausos.

Para Malala, foi em 9 de outubro de 2012 que tudo mudou. De dentro de um ônibus escolar, ao lado de outras meninas, ela voltava para casa depois de um dia letivo e foi alvo de um ataque a tiros por membros do Talibã. À época a jovem morava no Vale do Swat, uma região no norte do Paquistão, e defendia publicamente, em um blog, o direito à educação para meninas em seu país — pensamento este que os talibãs não compartilham.

Malala foi atingida na cabeça em um atentado que chocou o Paquistão e o mundo. Com a repercussão, entidades internacionais foram acionadas e ela foi retirada de seu país ao lado de sua família e levada para o Reino Unido. Em uma cirurgia de sucesso, médicos conseguiram salvar a vida de Malala que, hoje, terminou o Ensino Médio e faz graduação em Ciências Sociais na Universidade de Oxford.

Recentemente, cercada por um forte esquema de segurança, a menina que hoje é uma das maiores ativistas mundiais, retornou ao seu país de origem. Logo após o atentado, o Vale do Swat havia sido tomado pelo Talibã, numa ofensiva que matara mais de 2 mil pessoas, e posteriormente retomado pelos militares paquistaneses.

“Meu sonho se tornou realidade”, escreveu em texto publicado no site do Malala Fund, ONG que criou para expandir seu trabalho como ativista. “Quando eu não voltei para casa da escola naquele dia em 2012, minha mãe se perguntou se eu um dia veria meu quarto de novo, se ela um dia teria um momento quieto com sua filha em nossa casa”.

Hoje, a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã virou livro, documentário e símbolo pela emancipação de meninas ao redor do mundo por meio de papel e caneta.

“Muitos me perguntam se sinto raiva de quem cometeu o atentado contra mim. E eu costumo dizer que a minha maior vingança é promover a educação. Eu não sinto raiva. Quando você fala com raiva e violência, a mensagem é perdida. Uma mensagem pacífica tem um poder oculto. Quando você converte a energia da raiva em energia positiva ninguém pode te ignorar”, completou, ao ser aplaudida de pé em São Paulo.

Menino de 8 anos é aprovado em universidade na Bélgica

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(Foto: Prefeitura de Muriaé/Divulgação)

Garoto ainda não decidiu onde cursará o ensino superior, mas diz que deve ser algum curso relacionado à matemática.

Publicado no G1 [via BBC Brasil]

m menino belga se formou no ensino médio e foi aprovado em universidades aos 8 anos – idade que deveria estar cursando a segunda série do ensino fundamental. O garoto conseguiu a façanha depois de completar 6 anos de estudo em apenas um ano e meio, concluídos graças a aulas particulares.

Laurent Simons, cujo pai é belga e sua mãe holandesa, tem um QI de 145, de acordo com seus pais, e pegou seu diploma em meio a uma turma de estudantes de 18 anos. Na Bélgica, segundo a imprensa local, 2,5% da população é considerada de alto potencial com um QI de 130 ou mais.

Em entrevista à rádio RTBF, da Bélgica, Laurent disse que sua matéria favorita é matemática “porque é muito vasta, com estatística, geometria, álgebra”.

Laureny já foi sondado por diversas universidades, segundo seu pai Alexander. “Ainda estamos no processo de nos orientar. Recebemos muitas ofertas, inclusive do exterior”, afirmou.

O garoto, porém, ainda não escolheu uma instituição. Ele vai aproveitar os dois meses de férias escolares para definir seu futuro e descansar.

Tédio na escola

O pai do menino contou que o filho até insistia em brincar com outras crianças quando era mais novo, mas não se interessava pelos brinquedos.

O próprio garoto afirmou que ficava entediado em sala de aula. “Às vezes, os outros alunos demoravam muito para responder, então eu respondia por eles”, disse ele a jornalistas durante sua primeira coletiva de imprensa.

Laurent disse que considerou se tornar um cirurgião e um astronauta, mas agora estava pensando em mergulhar no universo dos computadores.

“Se ele decidisse que amanhã seria um carpinteiro, isso não seria um problema para nós, contanto que ele estivesse feliz”, disse o pai.

Racionais no vestibular: intelectuais dividem-se sobre a questão

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(foto: Klaus Mitteldorf/divulgação)

‘Oportunismo popularesco’, diz o poeta Augusto de Campos. ‘Gesto de reconhecimento’, afirma o filósofo Francisco Bosco

Cecilia Emiliana, no UAI

“Não sou artista. Artista faz arte, eu faço arma. Sou terrorista”, disparou Mano Brown em entrevista ao jornal O Dia, em 1998, referindo-se a Sobrevivendo no inferno, disco lançado no ano anterior, cujas faixas traziam contundentes denúncias ao racismo e à desigualdade social no Brasil. À margem das grandes gravadoras, o álbum do Racionais MCs – grupo de rap formado por Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay – vendeu 1,5 milhão de cópias e virou fenômeno da produção independente. Reverenciado por jovens da periferia e por playboys de classe média, o hit Diário de um detento se baseou nas anotações de Jocenir, sobrevivente do massacre de 111 presos na Casa de Detenção do Carandiru, ocorrido em 1992, em São Paulo.

Duas décadas depois, quem diria, a “rajada de rimas” dos manos da periferia paulistana “alvejou” a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em maio, a instituição incluiu Sobrevivendo no inferno como leitura obrigatória para o vestibular em 2020. Pela primeira vez, um disco entrou na lista de textos recomendados aos vestibulandos. E o fez em grande estilo. Racionais está ao lado de Sonetos, de Luís de Camões, ícone da língua portuguesa, e de A teus pés, livro de poemas de Ana Cristina César. “É a periferia ocupando a academia!”, postou o grupo no Instagram. “É como se fosse um troféu depois de vencer várias lutas”, comentou Mano Brown. “Sobrevivendo no inferno é um ótimo livro de história”, afirmou KL Jay.

“Um disco de rap elencado junto a Camões é uma espécie de legitimação do saber fora dos padrões europeus, que são os acadêmicos. Esse padrão instituiu que o conhecimento de valor é o escrito e chancelado pela educação formal. A gente precisa entender que nas periferias brasileiras – e no Brasil, de certo modo, em que educação ainda é um privilégio –, quem cumpre o papel de espaço para a produção de conhecimento é a música”, afirma o cientista político Gabriel Gutierrez. Professor de produção cultural nas Faculdades Integradas Hélio Alonso, no Rio de Janeiro, ele pesquisa a obra do Racionais.

“Quem tem potência de pensamento, quem quer filosofar, mas não pode frequentar as escolas e universidades, faz música. O gesto da Unicamp soa como um reconhecimento dessa oralidade, dessa cultura de rua como espaço de elaboração do discurso”, defende Gutierrez. Há quem discorde radicalmente.

POPULARESCO “Pobre Camões!”, reagiu Augusto de Campos, de 87 anos, expoente da poesia concreta no Brasil, a respeito da lista divulgada pela Unicamp. “Chamo isso de oportunismo popularesco”, afirmou o respeitado escritor, ensaísta e tradutor.

Postado na internet em 2016, um encontro entre o rapper Renan Inquérito e Campos sugeria a simpatia do poeta pelo rap. Diante disso, a reportagem do EM entrou em contato com o intelectual para ouvi-lo a respeito da decisão da Unicamp. Campos não quis dar entrevista, mas enviou o seguinte comentário, por e-mail: “Tanto Ana Cristina como os Racionais não têm categoria para figurar ao lado de Camões numa prova vestibular. OK? Chamo isso de oportunismo popularesco”.

DIÁLOGO José Alves de Freitas Neto, coordenador da comissão organizadora do exame da Unicamp, explicou que as faixas de Sobrevivendo no inferno não só dialogam com o atual momento histórico brasileiro, como também com as mudanças promovidas nas universidades em prol da inclusão social. Em entrevista ao portal G1, Freitas Neto definiu o álbum como uma leitura do mundo pelos olhos de quem o vê sob uma perspectiva contra-hegemônica.

Na opinião do professor Gabriel Gutierrez, a obra do Racionais vai além disso. “Nessas letras não tem só um conjunto de denúncias. O grupo até viveu essa fase bem lá no início, quando lançou o primeiro trabalho, o disco Raio X do Brasil (1993). Já Sobrevivendo traz reflexões existenciais profundas, expressas em hits como Fórmula mágica da paz (‘Admirava os ladrão e os malandro mais velho/ Mas se liga, olhe ao seu redor e me diga:/ O que melhorou? Da função quem sobrou?’). Nesse canto, há o que talvez seja o maior dilema dos jovens brasileiros periféricos: o engajamento no crime versus a vida no subemprego. Estamos falando, portanto, de uma obra que, mais do que um retrato da realidade, faz uma cartografia do real, um mapeamento da subjetividade”, argumenta.

Para o pesquisador, pode-se comparar o registro humano encontrado no rap ao que se observa em clássicos escritos por William Shakespeare, Marcel Proust ou Sigmund Freud. “O complexo olhar de autores para sua realidade e seu tempo fez com que suas obras fossem parar no cerne da produção de muitos pensadores. Freud vai buscar a peça Édipo Rei, de Sófocles, para elucidar um de seus conceitos-chave, o complexo de Édipo. (O filósofo francês Gilles) Deleuze bebeu da fonte do (poeta francês) Antonin Artaud. Nas Américas, é a música que constrói esse inventário social. Por isso, faz muito sentido que tantas pesquisas acadêmicas se voltem ao Racionais na atualidade”, argumenta Gutierrez.

Entre ensaios acadêmicos ou textos publicados na imprensa, não são poucas as menções a Sobrevivendo no inferno como fenômeno da cultura contemporânea. Pesquisador do rap, Paulo Roberto Souza Dutra, professor da Stephen F. Austin State University, no Texas (EUA), aponta o impacto do disco do Racionais sobre a juventude negra como um dos motivos que explicam tal reverência.

POTÊNCIA Dutra argumenta que o rap do grupo paulistano dialoga com o mundo negro da diáspora provocada pela escravidão, mas não se limita apenas a um canto de lamento. Para ele, o Racionais reafirma a cultura africana, além de tirar o jovem negro da periferia de um lugar subalterno para transformá-lo numa espécie de potência política.

“Isso é muito forte e explícito em Sobrevivendo. Estamos diante de um álbum que, na primeira faixa, traz uma saudação a Ogum e a oração de São Jorge. A terceira (Capítulo 4, versículo 3) começa com estatísticas: ‘60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial/ A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras/ Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros”, lembra o pesquisador.

Paulo Dutra pondera que o reconhecimento do rap é positivo, mas avisa: “É preciso ter em mente que ele não é literatura”. De acordo com o professor, ainda não se conseguiu compreender muito bem essa música. “Daí as tantas associações do gênero não só com a literatura, como com as artes e a filosofia, entre outros campos do conhecimento. Diria que ele é um marco literário, causando impacto semelhante ao do cinema nas letras. A sétima arte teve grande influência sobre a literatura, tanto esteticamente, incorporando recursos da narrativa cinematográfica, quanto tematicamente. Fenômeno recente, o rap que vem fazendo algo parecido com as letras”, conclui.

FAIXA A FAIXA

SOBREVIVENDO NO INFERNO

» Jorge da Capadócia
» Genesis (intro)
» Capítulo 4, versículo 3
» Tô ouvindo alguém me chamar
» Rapaz comum
» Faixa instrumental
» Diário de um detento
» Periferia é periferia (em qualquer lugar)
» Qual mentira vou acreditar
» Mágico de Oz
» Fórmula mágica da paz
» Salve

(foto: Bruno Veiga/Divulgação)

ENTREVISTA – FRANCISCO BOSCO (filósofo, ensaísta e compositor)
Em 2014, em artigo publicado na Revista Cult, você afirma que o surgimento do Racionais “é possivelmente o último grande acontecimento da cultura brasileira”. Ainda hoje acredita nisso?
Sim, acredito, e hoje ainda mais. Desde 2015, o Brasil teve seus canais de transformação institucional bloqueados por um governo ilegítimo que tentou impor uma agenda conservadora a toque de caixa. As energias mudancistas da sociedade se concentraram em larga medida nos chamados movimentos identitários. Ora, os Racionais foram os pioneiros da perspectiva racialista, isto é, de explicitação dos conflitos raciais, no campo de alta ressonância que é o da canção popular. É claro que já havia antes deles uma história dessa perspectiva no Brasil, história que tem em Abdias do Nascimento e o Movimento Negro Unificado um capítulo importante. É preciso ainda registrar que essa perspectiva começou a ser institucionalizada, a se tornar política de governo e até de Estado, nos anos FHC. Mas nada disso é comparável em termos de alcance cultural com o que os Racionais fizeram a partir de Sobrevivendo no inferno. Houve ali um verdadeiro cataclisma na cultura popular brasileira. Foi a primeira vez que, de dentro da própria cultura, questionou-se radicalmente os alicerces dessa própria cultura, ou seja, a autoimagem cultural associada ao encontro, à mistura, à cordialidade, à festa.

O que faz de Sobrevivendo no inferno um álbum tão emblemático?
Tudo o que falei acima, e que só se tornou possível porque o álbum é formalmente extraordinário. Nunca houve na canção brasileira uma lírica como aquela dos Racionais. Basta pegar a história da chamada “canção de protesto” no país. Os sambas dos anos 1930 são muito ingênuos perto daquilo. As canções a la Vandré são ideológicas, cheias de “mensagens”, mas completamente distantes da concretude avassaladora das letras de Brown. Mesmo a grande tradição dos anos 60/70 – Chico Buarque, João Bosco/Aldir Blanc etc. – é bem diferente: complexa, sofisticada, esplêndida, mas inevitavelmente metafórica, afastada da experiência direta daquele porão da sociedade brasileira, secularmente recalcado, que retornava no real (como todo recalcado) de uma forma incontornável pela poética de Sobrevivendo no inferno.

O que a inclusão de Sobrevivendo no inferno na lista da Unicamp significa enquanto fenômeno social?
Significa, em primeiro lugar, um gesto de reconhecimento da grandeza dessa obra. Isso tem implicações no modo como se pensa o cânone, os problemas relativos ao valor estético. Basicamente, estabelece que a excelência e a originalidade formais não são prerrogativas das classes médias e altas. Mas significa também que alunos terão a oportunidade de conhecer uma realidade de classe diversa da deles (de boa parte deles), e conhecerão o modo como o Brasil responde a essa realidade. Tem muita análise fina da realidade nas letras dos Racionais: o problema do reconhecimento, a relação entre capitalismo e sistema prisional, a necessidade de criar estratégias de bonding para fortalecimento das pessoas negras, a relação entre cultura do espetáculo e manutenção das desigualdades, entre outras questões.

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