Canal Pavablog no Youtube

escritores

C.S Lewis: Deus, pubs, feiticeiras e armários

0

Publicado originalmente no Obvious

Autor de uma das mais respeitadas obras-primas da literatura infantil, C.S.Lewis foi um dos escritores mais influentes do século XX. Com mais de 30 livros publicados, o irlandês obteve sucesso internacional com uma reverenciada obra que aborda temas do universo infantil, da teologia e da mitologia, permitindo-lhe atingir um público diverso.

C.S Lewis

C.S Lewis

Não é novidade que os irlandeses são muito bem representados na literatura mundial. Ora vejam lá: Joyce, Wilde, Beckett… Só até aí já é uma excelente desculpa para chegar até o pub mais próximo, levar ao alto uma Guinness e brindar às letras das terras cristãs de São Patrício. Terras tão cristãs que a sua doutrina influenciou não somente a literatura de um homem, como também todo o seu curso em vida. Não se trata de religiosidade, mas sim de um homem cujo espírito era inquieto. Não se trata de fé cega, mas sim de um homem que quis entender essa fé que insistiu em bater-lhe ao peito e cravar-se-lhe na mente. E partilhou suas questões e visões do mundo a partir da rocha doutrinária que um dia apeteceu seu coração. Este é um retrato possível do irlandês C.S. Lewis.
Se os céticos julgam C.S.Lewis pela sua insistência em revirar o cristianismo em suas linhas, culpem outro gênio: J. R. R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis (The Lord of the Rings). Pois foi ele quem converteu Lewis – seu amigo íntimo – à fé cristã. Os dois se conheceram na University College, em Oxford, e tornaram-se inseparáveis, influenciando um ao outro ao longo de suas vidas.

Há quem muito se incomode com a preferência espiritual de alguns autores. Cá entre nós, isso não tem a menor importância quando se trata da competência literária desses autores. Uma pena, no entanto, que Lewis foi ofuscado por seu querido amigo. E sabia que assim seria ao se arriscar na esfera religiosa, ainda que de maneira abstêmia e serena. No caso de C.S. Lewis, competência é um termo tímido ao referir-se ao legado que nos deixou. Pensamentos, estudos, ensaios e uma rica literatura que trata de forma brilhante as questões mais complexas: as relações do homem com o próximo, com Deus, com a natureza e consigo mesmo.
Um homem inteligente como C.S.Lewis tinha de ter uma imaginação monstruosa. E foi com ela que conseguiu unir dois universos de maneira sutil e inesperada, ao escrever a série As Crônicas de Nárnia (The Chronicles of Narnia) – baseada na doutrina cristã. Não se trata de literatura cristã, mas contém referências bíblicas ao longo de toda a narrativa da terra mágica de Nárnia.

(mais…)

Livro revela detalhes da vida e obra de García Márquez

0

Em “Eu Não Vim Fazer um Discurso”, detalhes da vida e da relação do autor com a escrita e os amigos

Publicado originalmente na revista Exame

Wikimedia Commons

Gabriel García Márquez

A sexta edição vai homenagear o colombiano Gabriel García Márquez, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura e roteirista de vários longas-metragens

O escritor colombiano Gabriel García Márquez levou 19 anos concebendo “Cem Anos de Solidão”, antes de escrevê-lo. Quando, enfim, sentiu-se seguro com a ideia, passou um ano e meio trabalhando nela, digitando pacientemente na máquina de escrever, com os dois dedos indicadores.

Detalhes saborosos como esses, que falam da produção e da vida do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, podem ser conferidos em “Eu Não Vim Fazer um Discurso”. Apesar de o título dizer o contrário, o livro traz, sim, uma compilação de falas do escritor, do período de 1944 a 2007. Nelas, o colombiano, de 84 anos, fala, entre outros temas, da sua relação com a escrita e com os amigos.

No pronunciamento que fez em março de 2007, durante um Congresso Internacional de Literatura, em Cartagena das Índias, na Colômbia, por exemplo, Márquez contou sobre a dificuldade pela qual passou antes de publicar o livro “Cem Anos de Solidão”. Sua mulher, Mercedes, foi quem sustentou a casa.

Num trecho do livro, conta: “(…) Nem sei como Mercedes fez, durante aqueles meses, para que não faltasse comida em casa nem um único dia. Tínhamos resistido às tentações dos empréstimos com juros até amarrarmos o coração e começarmos nossas primeiras incursões para empenhar coisas na caixa econômica”.

Não havia dinheiro sequer para enviar o manuscrito pelo correio. O escritor, então, enviou só metade. O editor, depois de lê-la, mandou dinheiro para que ele enviasse a outra.

(mais…)

Salinger: uma vida

0

Texto escrito por Luiz Rebinski Junior no Digestivo Cultural

Não há castigo maior para um escritor do que ver sua própria personalidade se sobrepor aos seus livros e personagens. Esse foi o preço pago pelo norte-americano J. D. Salinger, que morreu no ano passado, ao ter se isolado do mundo quando seus livros eram bem maiores do que sua figura esquiva.

A reclusão de Salinger foi, pouco a pouco, ocupando o espaço que cabia à literatura. Com a recusa da escrita e do jogo literário, o mito da reclusão e o interesse dos leitores pela excentricidade do escritor ganharam força. E Salinger se tornou “o autor d’ O apanhador no campo de centeio” ou “o escritor americano que não dava entrevistas nem gostava de ser fotografado”. Algo no mínimo melancólico para um autor que queria desaparecer diante da literatura. Salinger fez de tudo para não ser notado, mas, como em uma espécie de maldição, quanto mais se escondia atrás de seus livros, mais indefeso ficava diante dos leitores.

A biografia Salinger: uma vida (Leya, 2011, 416 pág.), que a editora Leya acaba de publicar no Brasil, ajuda a entender um pouco a relação ambígua que Salinger teve com a sua própria arte e que culminou no seu isolamento a partir de 1953 em um ermo e isolado recanto no estado de New Hampshire, nos Estados Unidos. Escrita por Kenneth Slawenski, fã que mantinha um site sobre a vida e a obra de Salinger, a biografia não revela por que o escritor desistiu da literatura (se é que desistiu), mas traça um caminho interessante até uma possível explicação.

Salinger tinha um gênio irascível, desde pequeno. Rico, foi criado com todos os mimos pela mãe super protetora. Só rompeu o cordão umbilical quando já era adulto e, por pura falta do que fazer, foi parar nas trincheiras da Segunda Guerra Mundial. Assim como Dalton Trevisan, que “virou” escritor depois de um acidente que quase o matou na fábrica de seu pai, Salinger, depois do combate, adquire outra postura diante da vida. Salinger viveu o Dia D como poucos, e o desembarque na Normandia foi, literalmente, o seu Dia D. Salinger viveu histórias incríveis e se superou ao comandar centenas de homens ao longo de onze meses de combate. A guerra, por incrível que pareça, também lhe foi proveitosa no campo da literatura. E não apenas como matéria-prima para os contos que viria a escrever depois da guerra — alguns até mesmo durante as batalhas, com Salinger se isolando em um lugar seguro para batucar sua máquina. Além de marcar para sempre sua personalidade, a participação no combate lhe rendeu momentos memoráveis, como um encontro inusitado no front de batalha com Hemingway, que cobria o conflito como jornalista. É difícil pensar em Salinger tietando algum escritor, por mais brilhante que este seja, mas àquela altura, o autor de O apanhador no campo de centeio era apenas um pretenso escritor em busca de afirmação.

“Uma noite, durante uma trégua nos combates, Salinger virou-se para o seu companheiro soldado Werner Kleeman, um tradutor do 12º Regimento com quem fizera amizade quando treinava na Inglaterra. ‘Vamos lá’, apressou-o, ‘vamos ver Hemingway’. A visita durou duas ou três horas. Eles celebraram com champanhe tomado em canecas de alumínio, e Kleeman ouviu Salinger e Hemingway conversando sobre literatura. Foi um momento singular na floresta, que deixou Salinger reanimado e Kleeman impressionado”.

A participação de Salinger na Segunda Guerra Mundial certamente ajudou a empurrar o escritor para a reclusão, mas foi a religião budista que o guiou não só até Cornish, onde se escondeu durante décadas, mas ao tipo de literatura que iria realizar depois da publicação de O apanhador no campo de centeio, principalmente em alguns contos de Nove histórias e nas histórias da família Glass.

“Se Salinger experimentou ou não uma epifania espiritual por meio do The gospel of sri ramakrisna, é algo difícil de discernir a partir da sua atitude. Ele continuava deprimido e recolhido. Sofria de depressão havia anos, talvez desde bem jovem, e às vezes era afligido por episódios tão intensos que ficava incapaz de se relacionar com os outros. A ironia das freqüentes depressões de Salinger estava no fato de que em geral eram causadas pela solidão. A melancolia se apoderava dele e o afastava dos outros, aprofundando assim a própria solidão que a havia desencadeado”, escreve Slawenski.

Salinger expressou sua depressão em seus personagens, e essa dor pode ser sentida no desespero de Seymour Glass, na frustração de Holden Caulfield e no sofrimento do sargento X. No entanto, Salinger não foi o precursor daquilo que hoje conhecemos por autoficção, apesar das evidências e da tentativa de seus leitores em fazer conexões entre a vida privada do escritor e seus personagens. Em uma inversão da literatura autobiográfica, foi Salinger quem vestiu a roupa de seus personagens, e não o contrário.

“Quase numa imitação de seu personagem Buddy Glass, Salinger começou a aparecer em ambientes acadêmicos do Dartmouth College logo após o lançamento de Seymour, trabalhando horas na biblioteca da escola, com a aparência que se aproximava bastante da estética que literariamente se poderia atribuir a Buddy Glass. Por um breve momento deixou a barba crescer e vestia uma roupa rústica de brim e camisas xadrez de algodão, uma indumentária adequada tanto para cortar lenha como para um trabalho acadêmico”.

Seymour, uma introdução, sua última novela a aparecer em livro, é a exacerbação de sua fé e excentricidade. A leitura do livro de Slawenski sugere que Salinger e sua trajetória são fruto de vários fatores: o gênio irascível do autor, sua inerente misantropia, o envolvimento com a religião, sua participação na Segunda Guerra Mundial e um modo de trabalho ferrenhamente disciplinado, que envolvia horas e horas de escrita e total isolamento.

Tudo isso aparece no texto de Slawenski entrecortado por longos comentários sobre as histórias que Salinger escreveu. Um exercício de crítica que não combina muito com uma biografia. Detalhe que pode passar batido diante de histórias saborosas daquele que é o maior mistério da literatura do século XX.

Milagre na Bienal

0

Texto de Ruy Castro publicado originalmente na Folha de S.Paulo


Acredite ou não, escritores são humanos e, por mais bem-sucedidos, invejosos. O sucesso de um concorrente, dizia Nelson Rodrigues, dói fisicamente como uma canivetada. Inveja-se o prestígio, invejam-se as vendas, a mídia, as mulheres e até o estilo uns dos outros. O próprio Nelson invejava o prestígio de Guimarães Rosa; Oscar Wilde, o de Bernard Shaw; Gertrude Stein, o de James Joyce.

Eu, por exemplo, invejo qualquer pessoa que escreva depressa, sem precisar pensar muito e sem sofrer, e produza uma obra-prima ou um texto decente, o que vier primeiro. Mas, na Bienal do Livro que se encerrou domingo no Rio, descobri outra qualidade para invejar: a capacidade de certos autores para autografar livros a um ritmo alucinante, quase irreal. Um deles, o padre Marcelo Rossi.

Segundo os jornais, das 11h20 às 17h30 de quarta-feira passada, padre Marcelo autografou 1.200 livros no estande de sua editora. De tanto assinar e cumprimentar leitores, sua mão inchou de tal forma que teve de ser enfaixada por paramédicos e a sessão, encerrada. Mas, como a multidão não arredasse pé, padre Marcelo convenceu seu público a trocar o autógrafo e o aperto de mão por uma bênção individual, donde distribuiu 6.000 bênçãos entre 17h30 e 19h40. Não é invejável?

Vejamos agora. Das 11h20 às 17h30, são 370 minutos. Significa que, durante seis horas e dez minutos, padre Marcelo autografou 3,2 livros por minuto -sem parar. Equivale a um livro autografado (e uma mão apertada) a cada 18,7 segundos. É digno de The Flash. Já as bênçãos, só com ajuda da velocidade divina. Das 17h30 às 19h40, são 130 minutos. Significa que, com mão enfaixada e tudo, padre Marcelo distribuiu 46 bênçãos individuais por minuto. Uma bênção a cada 1,3 segundo! Milagre?

Os números são da editora de padre Marcelo. E depois tem gente que não acredita no sobrenatural.

30 grandes escritores trollando 30 grandes escritores

1

Publicado originalmente em Ebooks Grátis

HG Wells

HG Wells

É muito fácil criticar um autor iniciante ou aquele escritor que nunca teve um grande alcance, ainda mais se o crítico é um escritor veterano e considerado universal por sua importância histórica. Mas tem vezes que sobra até para algumas “vacas sagradas” da literatura universal, mesmo os nomes de maior peso como Dostoievsky, James Joyce ou até Mark Twain.

Nesta semana, o site Flavorwire compilou 30 das mais engraçadas provocações públicas da história literária do Ocidente, colocando autor contra autor em uma lista que, apesar de nem ser tão longa, já dá uma ideia em linhas gerais da opinião real que gênios tem de outros gênios. Na seleção, ninguém escapou das linhas afiadas destes romancistas e poetas que incluem Gustave Flaubert, Vladimir Nabokov, Virginia Woolf, Charles Baudelaire, Truman Capote e Henry James.

Logo abaixo você vê a lista completa de insultos de autores para outros autores, todos eles de renome internacional.

30. Gustave Flaubert (Madame Bovary) sobre George Sand (Mattéa)
“Uma grande vaca recheada de namquim”

29. Robert Louis Stevenson (O Médico e o Monstro) sobre Walt Whitman (Leaves of Grass)
“Ele escreve como um cachorro grande e desengonçado que escapou da coleira e vaga pelas praias do mundo latindo para a lua”

28. Friedrich Nietzsche (Assim Falou Zaratustra) sobre Dante Alighieri (A Divina Comédia)
“Uma hiena que escreu sua poesia em tumbas”

27. Harold Bloom (A Invenção do Humano) sobre J.K. Rowling (Harry Potter)
“Como ler Harry Potter e a Pedra Filosofal? Rapidamente, para começar, e talvez também para acabar logo. Por que ler esse livro? Presumivelmente, se você não pode ser convencido a ler nenhuma outra obra, Rowling vai ter que servir.”

26. Vladimir Nabokov (Lolita) sobre Fyodor Dostoievsky (Crime e Castigo)
“A falta de bom gosto do Dostoievsky, seus relatos monótonos sobre pessoas sofrendo com complexos pré-freudianos, a forma que ele tem de chafurdar nas trágicas desventuras da dignidade humana – tudo isso é muito difícil de admirar”

25. Gertrude Stein (The Making of Americans) sobre Ezra Pound (Lustra)
“Um guia turístico de vila. Excelente se você fosse a vila. Mas se você não é, então não é.”

24. Virginia Woolf (Passeio ao Farol) sobre Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo)
“É tudo um protesto cru e mal cozido”

23. H. G. Wells (Guerra dos Mundos) sobre George Bernard Shaw (Pygmalion)
“Uma criança idiota gritando em um hospital”

22. Joseph Conrad (Coração das Trevas) sobre D.H. Lawrence (Filhos e amantes)
“Sujeira. Nada além de obscenidades.”

21. Lord Byron (Don Juan) on John Keats (To Autumn)
“Aqui temos a poesia ‘mija-na-cama’ do Johnny Keats e mais três romances de sei lá eu quem. Chega de Keats, eu peço. Queimem-o vivo! Se algum de vocês não o fizer eu devo arrancar a pele dele com minhas próprias mãos.”

20. Vladimir Nabokov sobre Joseph Conrad
“Eu não consigo tolerar o estilo loja de presentes de Conrad e os navios engarrafados e colares de concha de seus clichês românticos.”

19. Dylan Thomas (25 Poemas) sobre Rudyard Kipling (The Jungle Book)
“O senhor Kipling representa tudo o que há nesse mundo cancroso que eu gostaria que fosse diferente”

18. Ralph Waldo Emerson (Concord Hymn) sobre Jane Austen (Orgulho e Preconceito)
“Os romances da senhorita Austen me parecem vulgares no tom, estéreis em inventividade artística, presos nas apertadas convenções da sociedade inglesa, sem genialidade, sem perspicácia ou conhecimento de mundo. Nunca a vida foi tão embaraçosa e estreita.”

17. Martin Amis (Experiência) sobre Miguel Cervantes (Dom Quixote)
“Ler Don Quixote pode ser comparavel a uma visita sem data para acabar de seu parente velho mais impossível, com todas as suas brincadeiras, hábitos sujos, reminiscências imparaveis e sua intimidade terrível. Quando a experiência acaba (na página 846 com a prosa apertada, estreita e sem pausa para diálogos), você vai derramar lágrimas, isso é verdade. Mas não de alívio ou de arrependimento e sim lágrimas de orgulho. Você conseguiu!”

16. Charles Baudelaire (Paraísos Artificiais) sobre Voltaire (Cândido)
“Eu cresci entediado na França. E o maior motivo para isso é que todo mundo aqui me lembra o Voltaire… o rei dos idiotas, o príncipe da superficialidade, o antiartista, o porta-voz das serventes, o papai Gigone dos editores da revista Siecle”

15. William Faulkner (A Cidade) sobre Ernest Hemingway (Por Quem os Sinos Dobram)
“Ele nunca sequer pensou em usar uma palavra que pudesse mandar o leitor para um dicionário.”

(mais…)

Go to Top