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Escritor israelense luta para ser reconhecido como “sem religião”

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Publicado originalmente no Ultimo Segundo

Tribunal de Tel Aviv declarou que qualquer cidadão tem direito de definir-se como “livre de religião” em documento civil

O escritor israelense Yoram Kaniuk (foto) conseguiu ser reconhecido por um tribunal do país como “sem religião” e não como pertencente à religião judaica nos registros de estado civil, informa o jornal Haaretz.

“É uma decisão de importância histórica”, declarou o escritor de 81 anos, por considerar que a decisão pode estabelecer uma jurisprudência. Depois de ter solicitado, sem sucesso, ao ministério do Interior a eliminação de qualquer menção religiosa no documento de estado civil, o escritor apelou à justiça em maio e afirmou que não desejava pertencer “ao que se chama de religião judaica em Israel”, o que comparou ao islã no Irã.

Esta semana, o tribunal de Tel Aviv considerou que qualquer cidadão tem o direito de definir-se como “livre de religião”, de acordo com a lei fundamental israelense sobre a liberdade e a dignidade humanas.

Até então, os tribunais israelenses haviam rejeitado os recursos de intelectuais laicos para autorizar a inscrição da menção “israelense” nos documentos, como nacionalidade, ao invés de “judeu”, “árabe”, “russo” ou outro, como acontece atualmente.

A associação “Eu sou israelense”, que recebeu milhares de assinaturas de apoio, pede há vários anos que palavra “israelense” seja adotada nos registros de estado civil. Existem 134 grupos nacionais reconhecidos pela lei de Israel, incluindo minorias religiosas, mas não o “povo israelense”.

O ministério do Interior, tradicionalmente dominado por partidos religiosos, não aceita a menção povo israelense por incluir judeus e não judeus, o que prejudica o caráter judaico do Estado.Há muitos anos, nacionalidade e religião não figuram nos documentos de identidade, apenas nos registros de estado civil.

“A cultura literária vai acabar em 20 anos”, afirma autor premiado

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Reportagem por LUÍS ANTÔNIO GIRON, na Época

O escritor americano afirma que a tecnologia deve acabar com o livro em papel e que a literatura tende a perder a influência na formação dos jovens

Philip Roth. Após 52 anos de carreira, ele continua um favorito na lista dos cotados para o Nobel de Literatura (Foto: Steve Pyke/ContourPhotos/Getty Images)

O edifício Austin, com seus 20 andares, fica a um quarteirão do museu de História Natural de Nova York. O porteiro indica o elevador que leva ao 12o andar. Ali, à porta de um apartamento despojado, com vista para a região plana e repleta de prédios do Upper West Side de Manhattan, uma criatura mitológica dá boas-vindas. “Entre, por favor!”, diz Philip Roth, sorrindo. Ele é mais simpático do que se esperaria do criador de personagens beligerantes, frequentemente à beira do desvario. Tampouco lembra o fauno lúbrico descrito pelas feministas. Magro, alto e em forma, Roth tampouco parece um verbete da enciclopédia do romance. Aos 78 anos, 52 de carreira, ele é tido por críticos respeitados como o maior escritor vivo e figura há décadas na lista de possíveis ganhadores do Prêmio Nobel. É o único autor vivo a merecer a edição de suas obras na editora The Library of America, dedicada a escritores consagrados. Sob sua supervisão, o nono e último volume com os romances curtos deverá sair em 2013. Dele fará parte Nêmesis, seu 22º romance, recém-lançado no Brasil. Roth chegou a declarar que não escreveria mais. Nesta entrevista a ÉPOCA, no entanto, diz por que mudou de ideia, e já está pensando em uma novela em um gênero que jamais praticou: o fantástico.

ÉPOCA – Não há nenhum computador nesta sala. O que o senhor pensa sobre os avanços tecnológicos como tablets e e-readers? Eles melhoram a compreensão do mundo?

Philip Roth – Não sou fanático por tecnologia. Tenho o mesmo telefone celular há anos e não pretendo trocá-lo. Escrevo em computador, como fiz antes com a máquina de escrever. É óbvio que as máquinas facilitam a finalização de um texto. Só que as coisas estão se transformando muito rapidamente para meu gosto. Não consigo achar graça em ler livros em formato eletrônico em e-reader. Outro dia passei em uma loja Apple com a forte disposição de comprar um iPad. Cheguei lá, vi tanta gente se acotovelando para ver como funcionava o aparelho e cheguei a testá-lo. Acabei desistindo. Não sei por que, mas o iPad não me convenceu, talvez porque pareça chato escrever nele, e ler nele é dispersivo. Quem vai conseguir ler um livro inteiro meu naquele tablet? É mais um totem do culto à tecnologia. Hoje, toda a cultura se encontra a nossa disposição. E isso me preocupa. A cultura literária como conhecemos vai acabar em 20 anos. Ela já está agonizando. Obras de ficção não despertam mais interesse dos jovens, e tenho a impressão de que não são mais lidas. Hoje, a atenção é voltada para o mais novo celular, o mais novo tablet. Daqui a poucas décadas, a relação do público e do escritor com a cultura será muito diferente. Não sei como será, mas os livros em papel vão acabar. Surgirá outro tipo de literatura, com recursos audiovisuais e o que mais inventarem.

ÉPOCA – Sua trajetória foi ascendente, de um autor quase maldito de O complexo de Portnoy, de 1969 – que era lido pelos meninos como eu como uma iniciação aos segredos do sexo –, ao mestre canonizado dos romances filosóficos, que tratam da velhice e da morte. O que mudou em sua vida nestes 42 anos?

Roth – Não sei, você sabe? O que terá sido? No tempo de O complexo de Portnoy, muita gente disse que eu tinha inventado a masturbação! Quanto à consagração, a vida e a atividade literária se confundem. Para mim, escrever foi sempre a prioridade. Foi um caminho natural, de juventude, amadurecimento e velhice. Talvez o mundo tenha ficado mais parecido comigo. Hoje, ninguém precisa ler meus livros atrás de nenhuma técnica sexual! (risos) “
ÉPOCA – O senhor tem milhares de fãs jovens no Brasil, e obviamente não mais por causa dos métodos de masturbação de Portnoy. Já pensou em visitar o país e se encontrar com seus leitores?
Roth – Já fui convidado a participar de eventos literários no Brasil. Gostaria de ir, mas recusei muitas vezes, pois na minha idade não tenho mais ânimo para viajar. Em junho, me convidaram para ir a Londres receber o Man Booker Prize. Agradeci e disse que não poderia ir. A organização gravou um vídeo com uma mensagem minha, e tudo correu muito bem. Não pretendo mais fazer viagens fora dos Estados Unidos. Aliás, minhas viagens têm sido de minha casa de campo, em Warren, Connecticut, e Nova York. Gosto dessa rotina segura.
ÉPOCA – Que referências o senhor tem do Brasil?
Roth – Infelizmente não conheço nada do país nem de sua cultura. Nunca ouvi falar de um autor brasileiro atual. Não tenho nenhum contato por lá. Nem sei nem o nome de meu editor em São Paulo. Você sabe que li um único autor brasileiro? É a imagem que tenho do Brasil. Não me recordo do nome dele, mas é um romance irônico, de narrativa descontínua, sobre um homem morto que conta suas paixões e confusões em primeira pessoa. Adorei…
ÉPOCA – É Memórias póstumas de Brás Cubas, publicado aqui sob o título de Epitaph for a small winner. O autor é Machado de Assis.
Roth – Isso! Alguns amigos meus como (o crítico inglês) John Gledson me recomendaram a leitura, e gostei demais. Outro amigo, o crítico Harold Bloom, colocou o livro entre os maiores exemplos do cânone ocidental e chamou Machado de Assis de gênio. Como não conheço outros livros dele, não sei dizer. Ele me parece bastante influenciado por Tristram Shandy (romance do irlandês Laurence Sterne). Mas com uma abordagem menos pilhérica, mais consistente e aforística. Acho que deveria ler mais autores brasileiros. Ler é o que mais gosto de fazer, além de ouvir música e nadar.
ÉPOCA – O que o senhor tem lido ultimamente?
Roth – Estou em um momento da vida em que ler significa reler. Permaneço no século XVIII! (risos) Releio clássicos. Mas, de uns meses para cá, parei de ler ficção. Leio história, sobretudo livros que tratam de meus tempos de menino, o período da Segunda Guerra Mundial, que vivi em Newark, (cidade vizinha a Nova York), onde nasci. Eu não tinha a dimensão dos fatos. Os historiadores me ajudam a entender aqueles tempos. Sou fascinado pela era Roosevelt, e há ensaios e estudos recentes sobre o período – parecido com o atual, com os problemas da recessão econômica. Um livro que me impressionou foi O jovem Stalin, de Simon Sebag Montefiore. Ele traça um perfil aterrador do futuro ditador russo. Stalin é tão mau que faz Ivan Karamázovi parecer uma criança de jardim de infância.
ÉPOCA – Seus pais eram judeus, filhos de imigrantes da Europa Central. O senhor manteve tradições como o hebraico e o ídiche e o culto a símbolos religiosos?
Roth – Não. Meus pais eram cidadãos americanos pragmáticos. Eles criaram a gente sem obrigações religiosas. Fiz meu bar mitzvah aos 13 anos, mas desde então nunca mais entrei em uma sinagoga! Nunca entendi uma só palavra em hebraico que tive de recitar na ocasião e até hoje não sei o que o rabino disse naquele dia. Não sou religioso nem mantenho em casa símbolos judaicos. Os judeus americanos de minha geração não sentiram o fardo da tradição. Ser judeu em Nova York hoje é uma espécie de modo de vida cultural. Meus livros trazem personagens que carregam a tradição de forma bem mais pesada do que eu.
ÉPOCA – Muitos de seus livros se passam em Newark. Quanto de realidade contêm suas tramas?
Roth – Retirei muitos dos personagens e das situações do ambiente da Newark dos anos 1940 e 1950. Mas nem tudo em minha obra é Newark, como dizem alguns críticos. Como escritor, misturo várias referências – inclusive geográficas.
ÉPOCA – A moralidade e a mortalidade são os temas centrais de sua obra?
Roth – Em minhas histórias, a trama conduz a determinado tipo de problema moral. Os personagens caem sozinhos nas armadilhas de seus destinos. Não sou assombrado por dilemas morais nem temo a esperada vitória da morte. Mas o fato de ter perdido amigos aparece em meus livros. Há um ano morreu o mais brilhante de todos, John Updike. Perdi parentes, amores, amigos. A impressão é de que meu mundo está encolhendo. Não há como não se entristecer.
ÉPOCA – Apesar da fama de eremita, o senhor parece cercado de gente…
Roth – Sim, meus melhores amigos são colegas de profissão. Sou próximo a Joyce Carol Oates, Don DeLillo e Doctorow. Procuro manter uma vida social ativa, na medida do possível, já que decidi viver a maior parte do tempo no interior. Quando estou em Nova York, como você está vendo, todo mundo me liga para marcar encontros.
ÉPOCA – Como é seu dia a dia?
Roth – Acordo cedo, escrevo no computador, saio, converso com os vizinhos de Warren e vou nadar. Nado cinco vezes por semana: nado crawl e costas. Aqui, frequento uma piscina no centro da cidade. Nadar para mim não melhora só a musculatura. Nadar me faz pensar, me obriga a refletir sobre o que estou fazendo. Já inventei muitas histórias debaixo d’água! Depois de nadar, almoço, volto a escrever até cansar. Aí ouço música, vejo um filme e vou dormir.
ÉPOCA – Qual é seu método para criar uma história?
Roth – Não monto um esquema como alguns autores. Sou intuitivo. Começo com uma ideia e vou testando para ver se ela gera uma ação. Os personagens ganham vida, e o livro toma corpo. Minhas histórias surgem da surpresa da escrita.
ÉPOCA – Quais escritores mais o influenciaram?
Roth – Depende da idade. Aos 10 anos, lia um autor que me marcou: Thomas Wolfe. Foi um grande contador de histórias – e seus romances me ensinaram o valor da ação, da reviravolta e da veracidade dos personagens. Aos 20, fiquei fascinado pela ideia do grande romance americano. Com as obras de Theodore Dreiser e Henry James, aprendi a lidar com vários planos narrativos. Em 1953, aos 30, descobri As aventuras de Augie March, de Saul Bellow. Ele abriu o caminho para mim. Meu estilo não tem a ver com o de Bellow, seu humor é mais corrosivo. Mas ele me inspirou, pois mostrou que o mundo judaico americano podia atingir a universalidade.
ÉPOCA – Cite escritores inócuos em sua formação.
Roth – John Cheever, com seus dramas suburbanos, criou uma obra maravilhosa, fui amigo dele, conversamos muito, mas em nada me afetou. Há também Jack Kerouac. Os livros dele têm sido supervalorizados. Ele nunca passou de um narrador banal, um eterno adolescente.
ÉPOCA – Os críticos europeus denunciam o isolamento cultural da ficção americana. O senhor concorda com a análise?
Roth – Não. O que vejo é surgir um bom romance americano a cada semana. Só para mencionar meus amigos, há a Joyce Carol Oates e DeLillo. Entre os novos, Nicole Krauss tem produzido romances excelentes, como Great house. E Mollly Molloy, autora de El Sicario. A ficção americana cresce nos momentos difíceis.
ÉPOCA – O senhor anunciou que não vai mais escrever. É verdade?
Roth – Sinto desapontá-lo, mas tive de rever meu anúncio. Por sugestão de uma amiga, já estou trabalhando em uma novela curta fantástica, com figuras mitológicas. É só o que tenho a dizer por enquanto.
ÉPOCA – Por falar em mitologia, a editora Carmen Callil, jurada do Man Booker Prize de 2010, disse que não votou no senhor porque o senhor é um fauno que reduz as mulheres a objetos sexuais. Por que sua obra desperta tanto a ira das feministas?
Roth – Não sei. Isso é péssimo para minha reputação sexual, mas não há nada que eu possa fazer. Não conheço Carmen Callil. Mas um amigo meu me disse que a única razão para ela me odiar tanto é porque ela foi casada comigo.
ÉPOCA – Se o senhor ganhasse o Nobel, como se sentiria?
Roth – Seria uma honra. Mas não penso nisso como algo fundamental. Já me sinto satisfeito com o que conquistei. Queria mesmo era ganhar o Nobel da Literatura Feminista! (risos)

Morte de Machado de Assis completa 103 anos

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No dia 29 de setembro de 1908 falecia um dos maiores escritores brasileiros.

Jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, Machado de Assis deixou excelentes obras em diversas temáticas

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu dia 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro, e era filho do operário Francisco José de Assis e de Maria Leopoldina Machado de Assis, que morreu quando ele ainda era jovem. Machado de Assis não tinha recursos para estudar em cursos regulares, mas já com 15 anos incompletos, ele publicou seu primeiro trabalho literário, o soneto “À Ilma. Sra. D.P.J.A.”, no Periódico dos Pobres, número datado de 3 de outubro de 1854.

Trabalhou como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional, onde teve a oportunidade de conhecer Manuel Antônio de Almeida. Aos 19 anos de idade, Machado de Assis se tornou colaborador e revisor do Jornal Marmota Fluminense. Nesse período conheceu outros grandes nomes da literatura, como José de Alencar, Gonçalves Dias, Manoel de Macedo e Manoel Antônio de Almeida.

Entre 1859 e 1860, Machado escreveu para importantes meios de comunicação da época, como A Semana Ilustrada e Jornal das Famílias. Em 1867, Machado de Assis publicou seu primeiro livro de poesias, intitulado “Crisálidas”

Machado conciliava a publicação de suas obras com a carreira no funcionalismo público. Em 1872, ele publicou o romance “Ressurreição” e em 74 “A mão e a luva”. Entre 1881 e 1897, o jornal Gazeta de Notícias abrigou grande parte daquelas que seriam consideradas suas melhores crônicas. Machado de Assis, junto com o amigo José Veríssimo, deu o pontapé inicial para a criação da Academia Brasileira de Letras e tornou-se o primeiro presidente da instituição.

O autor é um dos grandes nomes da literatura brasileira e se mantém há muitos anos na lista de obras obrigatórias dos principais vestibulares do país.

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O que um autor de ficção científica ensina sobre a vida

Texto de Luis Antônio Giron publicado originalmente na revista Época

O escritor americano Ray Bradbury tem 91 anos. Ele devotou sua longa carreira à ficção científica. É um gênero considerado menor pelos críticos universitários – os “scholars”, um termo que soa pejorativo, mas que define bem a atividade daqueles que aplicam teorias a textos literários. Estamos tão contaminados pelas teorizações que a própria expressão “texto literário” provém de algum “scholar”. Enfim, a ficção científica constitui um ramo da literatura fantástica. E, apesar do nariz torcido da crítica, a fantasia tem tomado o lugar de outros tipos de ficção entre os leitores. É um fenômeno peculiar, pois passamos os dois últimos séculos mergulhados em romances, contos e novelas realistas. Os críticos incutiram nos leitores a ideia de que só os textos baseados na realidade formam a grande arte. A fantasia ficava para as crianças. Até que apareceram o britânico C.S. Lewis, o argentino Jorge Luis Borges, o brasileiro José J. Veiga (hoje esquecido) e Ray Bradbury, entre outros autores que demonstraram que a realidade é bem maior do que aquela que os acadêmicos nos enfiaram goela abaixo. Basta consultar as listas de mais vendidos, os rankings de vendas ou as bilheterias para constatar que a fantasia está em moda no cinema, nos livros, nos videogames, na internet. Por causa dessas viradas da história da cultura, o escapismo talvez tenha se tornado a verdadeira realidade.

Por isso, está na hora de prestar atenção ao que os autores fantásticos têm a dizer. Bradbury foi esnobado pelos críticos desde seu primeiro livro, a coletânea de contos Crônicas marcianas, de 1950. Um ano depois, escreveria outro livro desprezado, Fahrenheit 451, que em 1966 foi adaptado ao cinema pelo diretor francês François Truffaut e trouxe a fama ao autor. Em 60 anos de carreira, Bradbury já escreveu mais de 500 histórias. Ele tem muitos leitores no Brasil, mas aposto que poucos sabiam da faceta ensaística e poética de Bradbury. A editora LeYa lança agora no Brasil O Zen e a arte da escrita (168 páginas, tradução de Adriana de Oliveira, R$ 19,90), um pequeno volume publicado originalmente em 1990 que reúne as reflexões e poemas de Bradbury sobre viver e escrever, viver da escrita e escrever sobre a vida. Este é o resumo grosseiro do que o livrinho contém. Na realidade, os onze textos reunidos compõem um manual de orientação a quem queira começar a vida de escritor, mas também a todo aquele que pretenda viver com plenitude. Um manual de autoajuda? Bem mais do que isso, a coletânea revela o que se passa no cérebro de um dos maiores fantasistas do século XX. Um fantasista que elaborou aquela que para mim é a maior declaração de amor aos livros nestes tempos tecnológicos: em Fahrenheit 451, ele retrata o futuro do planeta, em que a sociedade de controle atingiu um tal ponto de excelência, que os livros são proibidos por conter mensagens subversivas e sediciosas à ordem. Nos anos 60, e nos países dominados por regimes totalitários como este aqui, Bradbury enviava uma mensagem de resistência. Tenho carinho por esse livro que confirmou que o amor à “vida inútil” contida nos livros nunca decepciona. Na biblioteca da casa de meus pais, no Rio Grande do Sul dos anos 70, eu me sentia fazendo parte dos “selvagens” que decoravam os livros e, com isso, afrontavam o poder – no caso, a abominável ditadura brasileira. Tive a sorte de ter nascido com uma grande biblioteca em casa. Tomei gosto por escrever e me tornar escritor (afinal de contas, jornalista é escritor ou não é?) com livros provocadores como os de Bradbury. 

Para mim, portanto, é emocionante ler O Zen e a arte da escrita. É um guia que talvez tivesse servido para mim quando mais jovem. Mas, como dizia Charlie Chaplin, a vida é muito curta para que alguém se considera um profissional. Eu parafraseio: a vida é curta demais para alguém se considerar realmente maduro. Os livros são essenciais em qualquer idade, pois obviamente prolongam a vida e o que pensamos dela. O volume recém-publicado de Bradbury parece um monólogo que dá continuidade à declaração de amor de Fahrenheit 451. Nele, Bradbury pretende ensinar “como escalar a árvore da vida, apedrejar a si mesmo e descer sem quebrar nenhum osso nem o espírito”, como ele intitula o prefácio. Bradubry conta que colecionou histórias em quadrinhos, apaixonou-se por carnavais e feiras e então começou a escrever. A pergunta que se faz e que gerou o livro é a seguinte: o que escrever nos ensina? 

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Paulo Coelho se compara a Madonna em entrevista

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Publicado originalmente no Último Segundo IG

Ao jornal New York Times, autor fala sobre redes sociais e diz ter mais amigos do que a cantora no Facebook

 Em entrevista com o escritor Paulo Coelho publicada nesta segunda-feira (26), o jornal The New York Times diz que o brasileiro é um “místico das redes sociais”.

A publicação exalta o contato direto do autor com seus fãs e sua estratégia nada ortodoxa de promover versões piratas de suas obras na internet.

“Quando vi a edição pirata de um dos meus livros, decidi disponibilizá-la online. Era um momento difícil na Rússia, eles não tinham muito papel para publicações. Aí coloquei essa versão digital gratuita e, após um ano, já havia vendido 10 mil cópias no país. No segundo ano já eram 100 mil. Então passei a disponibilizar outros livros na internet, certo de que se as pessoas lessem um pouco e gostassem, elas comprariam o livro”, disse Coelho.

Questionado sobre o receio em deixar seus editores com raiva, o escritor assumiu que o medo existiu, mas um telefonema de Jane Friedman, editora da norte-americana HarperCollins, mudou isso. “Ela sugeriu tornar minha atitude oficial. E graças a isso a minha vida mudou”.

Dono de uma conta no Twitter com um total de 2,4 milhões de seguidores, Coelho revelou na entrevista tratar a rede social como seu recreio. “Eu tuíto de manhã e no fim do dia. Após escrever por 12 horas, chega um momento em que você fica cansado. E esse é o meu momento de relaxar”.

“Antes o escritor era visto como um sábio vivendo numa torre isolada, cercado de conhecimento e intocável. Isso não existe mais. À medida que surgiu a possibilidade de usar o Twitter e o Facebook para me conectar aos meus leitores, eu passei a usá-los e compartilhar pensamentos que não usei nos meus livros.”

Assim como no Twitter, no Facebook a fama do escritor também é grande. Em sua conta estão conectadas 6 milhões de pessoas. Mais até do que a da cantora Madonna, comparou Coelho. Questionado pelo jornal se ele seria “maior do que Madonna”, o escritor respondeu: “Não, não, não. Eu não disse isso”.

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